Economia

Xabu no big bang de Guedes

Governo adia anúncio de programa para reativar a economia, ministro e presidente se desentendem e a grande explosão esperada pelo mercado pode ser apenas o resultado da saída de mais um medalhão.

Crédito: Divulgação

Com a alcunha de Big Bang Day, o governo federal promete lançar, nos próximos dias, uma agenda positiva que cause efeitos cataclísmicos para a reativação da economia. Recebido com o pé atrás pelo mercado, o anúncio foi adiado e abriu margem para especulações – inclusive sobre a permanência de Paulo Guedes no Ministério da Economia. Um dos pontos mais aguardados, o programa Renda Brasil, foi tirado do projeto por discordâncias entre o ministro e o presidente Bolsonaro. Não bastasse nascer em meio ao caos instaurado no governo, o programa já deu xabu. Com a continuidade de Guedes à frente da Pasta colocada em xeque, o verdadeiro big bang pode ser a explosão do projeto liberal que selou o apoio de empresários governo. Na ciência, o termo big bang explica uma força cósmica que aquece e impulsiona bilhões de partículas de modo a liberar uma imensa quantidade de energia, criando o epaço-tempo. Segundo os astrônomos George Gamow (1904-1968) e Georges Lemaître (1894-1966), foi isso que permitiu a criação do universo. O êxito, no entanto, pode ter se dado ao acaso, já que centenas de outros eventos semelhantes aconteceram sem o mesmo resultado. Ainda que um big bang tenha efeitos positivos, eles nunca são imediatos. Mesmo assim, Guedes decidiu jogar uma de suas últimas cartas na mesa, ao insistir num programa que inclui marcos legais para setores produtivos, gatilhos para destravar o Orçamento, programas de emprego e estímulo ao empresariado. Na teoria, esse conjunto poderia dar início a um processo de aceleração do crescimento econômico. Na prática, parece ter mais chances de incinerar seu criador. Ainda que as diretrizes finais do projeto não tenham sido anunciadas, assessores próximos ao ministro confirmaram à reportagem que o Big Bang Day só saiu do papel porque Guedes articulou diretamente com militares. Para conseguir esse apoio e a bênção do presidente, o ministro se comprometeu a encontrar uma forma de fortalecer programas sociais no Nordeste e reativar obras públicas com recursos da União – coisas que, até bem pouco tempo, ele nem cogitava.

Para economistas, o tal big bang nada mais é do que uma versão reempacotada de programas sociais de governos anteriores. Só mudam os nomes. O Renda Brasil, por exemplo, é uma nova embalagem com o conteúdo do Bolsa Família. O programa de transferência de renda que traria a marca de Bolsonaro para ajudar na sua reeleição deveria ter entrado no pacote de Guedes, mas ficou de fora porque, segundo o presidente, o valor indicado pelo ministro não condizia com a vontade dele. Agora, não se sabe quando, ou se, o Renda Brasil será anunciado. O Minha Casa Minha Vida também mudou de nome. Passou a se chamar Casa Verde e Amarela. O programa foi lançado na terça-feira (25), com a promessa de erguer 350 mil imóveis para famílias com renda mensal de até R$ 7 mil.

APELO SOCIAL Para ter o apoio do presidente em seu plano, Guedes se comprometeu a fortalecer programas sociais, como o Bolsa Família. (Crédito:Divulgação)

Paulo Guedes não foi ao evento. É que o programa é chancelado por Rogério Marinho, ex-secretário de Guedes que deixou a pasta da Economia para assumir a de Desenvolvimento Regional e desde então virou nêmesis do Posto Ipiranga. Quem estava lá era Paulo Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal e um dos potenciais sucessores de Guedes. Durante a cerimônia, aliás, Bolsonaro chamou Guimarães de PG2, fazendo menção às iniciais de Paulo Guedes. Para o economista Paulo Valle, esse tipo de iniciativa deixa o mercado em dúvida sobre o compromisso fiscal do governo.
“Estão sendo lançados planos nacionalistas, com o nome de verde amarelo, mas a maior parte deles representa aumento de gastos públicos”, disse. No meio dessa fritura pública e previsão de aumento de gastos incitados pelo governo, Guedes deve lançar um programa para animar a economia, mesmo estando com o ânimo abalado. Para o coordenador do curso de economia do Ibmec RJ, Ricardo Macedo, o desgaste de Guedes é evidente. “Ele vive um dilema. Precisa zelar pelo equilíbrio das contas públicas, mas tem de atender aos interesses políticos de Bolsonaro.”

TENSÕES Se o plano do presidente é gastar mais para se reeleger, caberá a Guedes o papel de cabo eleitoral até 2022. Isso explica a insatisfação do ministro. Fontes confirmam haver tensões constantes entre os dois, sendo o cerne do conflito as pressões do presidente para elevar gastos. “Depois que o presidente percebeu que benefício social é ótimo para alavancar a popularidade, quer explorar mais”, disse uma fonte à DINHEIRO. Com isso, a agenda do estado mínimo foi abandonada. Para chegar a um consenso, Guedes teria pedido ao presidente para fazer arrochos em setores da máquina pública, como forma de compensar o aumento de despesa com os programas sociais. Uma das reduções é o corte de gastos fixos e a revisão de todas as isenções tributárias e desonerações.

“Guedes foi para o tudo ou nada. se der certo, é mérito dele. se der errado, é culpa do presidente” Reginaldo Mantovanni, especialista em contas Públicas e consultor do senado.

Especialista em contas públicas e consultor do Senado para assuntos de orçamento, Reginaldo Mantovanni acredita que o equilíbrio entre gastar mais e arrochar é difícil. “Guedes foi para o tudo ou nada. Se der certo, é mérito dele. Se der errado, a culpa é do presidente”, disse. Mantovanni, que neste momento estuda a peça orçamentária da União para 2021, garante não haver espaço para aumento de despesas, com chance real de furar o teto de gastos antes mesmo de qualquer medida do novo programa ser colocada em vigor. “O problema é a bola de neve dos gastos. Foi essa mesma bola que atropelou a ex-presidente Dilma Rousseff”, afirmou.

Para se ter uma ideia, nos moldes como o Renda Brasil foi desenhado por Bolsonaro (com seis milhões de novos beneficiários recebendo R$ 400 por família), o custo anual seria de R$ 85 bilhões, ou 1,2%, do PIB, segundo o Instituto de Finanças Independentes (IFI). No formato atual, o Bolsa Família (com 14 milhões de beneficiários recebendo R$ 190) consome R$ 33 bilhões por ano, menos de 40% do que Bolsonaro quer gastar. De onde sairiam os R$ 52 bilhões adicionais é uma equação que Guedes não consegue solucionar. Com o Big Bang Day adiado e o presidente e o ministro divergindo, não é difícil prever que um evento de grandes proporções se desenha no horizonte. Mas ele poderá prenunciar apenas a saída de um ministro liberal de um governo paternalista e populista.

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