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WeWork: startup renasce após desastre sob gestão de fundador. Agora, América Latina tem papel decisivo

Depois de quase ir à falência em 2019, empresa tem chance de enfim chegar ao azul neste ano. Na América Latina, sob liderança do Softbank, modelo de operação se torna referência.

Crédito: WANG Zhao

A WeWork é uma referência no mercado – só não pelos motivos que gostaria. O fracassado IPO de 2019 revelou ao mercado uma empresa que não passava de um castelo de cartas: sem caixa e sustentada apenas pelas promessas do seu fundador, Adam Neumann. O tombo do valuation de US$ 47 bilhões para US$ 2,9 bilhões foi a gota d’água para que o fundo japonês Softbank – que já tinha investido mais de US$ 10 bilhões na companhia – tomasse o controle, afastando Neumann. Mais de dois anos depois da quase falência, o fundo de private equity, que hoje detém 65% das ações, conseguiu reestruturar a WeWork com uma gestão firme. Em 2021, o grupo enfim abriu capital para chegar aos atuais US$ 9 bilhões de valor de mercado. E a América Latina se tornou uma das vitrines da empresa, com ritmo de crescimento acima da média global.

Com o sucesso do modelo implementado na região, o Softbank, que lidera a operação daqui por meio de joint-venture, usará os resultados para defender sua fórmula em outros mercados. Mas a aparente calmaria na WeWork — ao menos nos parâmetros do grupo — ainda não é sinal de um caminho tranquilo. Dois eventos recentes despertam novas incertezas sobre o futuro do negócio: primeiro, Marcelo Claure, ex-chefe de operações do Softbank, que liderou a reestruturação da WeWork, renunciou ao cargo em janeiro, e o fundo ainda não nomeou seu substituto. A segunda pedra no sapato da companhia é um possível retorno de Adam Neumann, o que afugentaria investidores.

MAIS FLEXÍVEL Para atender a nova demanda do trabalho híbrido, a WeWork aposta em tecnologia e na reestruturação dos escritórios. (Crédito:Manuel Sá)

Por ora, o Softbank prefere lidar com as questões da operação. A diretriz é ampliar o modelo de negócio desenvolvido para o mundo do trabalho híbrido, em que a WeWork atua com uma estrutura mais flexível, a serviço da operação dos seus clientes. A companhia já lançou produtos de tecnologia, como software para gestão, e está redesenhando os espaços físicos. Felipe Rizzo, líder da operação brasileira, atribui essa abordagem à crescente demanda por espaços para reuniões e eventos corporativos desde o último ano. Os seis países da América Latina, sob comando da brasileira Claudia Woods (ex-Uber), têm algumas das maiores taxas de ocupação da rede no mundo, sendo o Brasil líder na região. “Em janeiro, São Paulo foi a cidade com maior fluxo nesse mercado”, disse Rizzo. Em 2021, a empresa abriu quatro escritórios e registrou o maior número de clientes desde a sua chegada, em 2017.

A WeWork atingiu 65% de ocupação globalmente em 2021, segundo estimativas do mercado, o que melhora as perspectivas para a companhia virar o jogo em 2022, quando seria possível, pela primeira vez, operar no azul. A lógica é que a empresa conseguiria extrair mais receita por metro quadrado do que outros escritórios de coworking. Assim, o ponto de virada da companhia para alcançar lucro poderia ser atingido, segundo analistas, ainda no primeiro semestre deste ano, quando tem chances de chegar a 70% de ocupação. Já tendo alcançado os patamares de 2019, na América Latina, a meta já foi atingida. Por isso, para Rizzo, o foco em 2022 será crescer no ritmo do mercado, o que já se refletirá em lucratividade.

Renato Nishi

“Em janeiro, São Paulo foi a cidade com maior fluxo nesse mercado [América Latina]” Felipe Rizzo líder da Wework no Brasil.

MANCHA Os excessos do ex-CEO Adam Neumann transformaram a WeWork em um mito do mercado financeiro – desses que ganham versões cinematográficas. Tanto é que sua história será contada na série WeCrashed, que será lançada na Apple TV+ no sábado (12), com Jared Leto e Anne Hathaway nos papéis de Neumann e sua esposa, Rebekah. Já a plataforma de streaming norte-americana Hulu lançou no ano passado o documentário que analisa a trajetória da empresa. O executivo, que hoje opera um fundo de investimentos em criptomoedas, transformou um negócio de escritórios compartilhados em uma espécie de culto, conquistando seguidores para a marca e fascinando investidores.

O mito da WeWork foi construído ao longo de nove anos com eventos grandiosos, auditórios lotados e direito até a gritos de guerra. Neumann chegou a alardear a criação da WeCompany, que envolveria operações de apartamentos residenciais, redes de academias e de lojas, além de uma escola de ensino fundamental liderada por Rebekah, que chegou a ser inaugurada em Nova York e depois foi encerrada na reestruturação da empresa. Na tentativa de apagar a mancha do histórico, a companhia está focada em virar a situação no fluxo de caixa. Para isso, precisa endereçar ainda as questões sobre a nova liderança do Softbank, que serão respondidas na reunião do conselho, em 29 de março, quando o fundo apontará nomes para suceder Marcelo Claure, além de avaliar a situação de Neumann, caso o executivo resolva ressurgir até lá, evocando um passado que a WeWork prefere esquecer.