Estilo

Roupa antenada

Tecidos e acessórios chamados de “wearables” conquistam espaço na indústria da moda. Eles já conseguem medir a pressão e os batimentos cardíacos, combater a celulite e até se conectar ao celular

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Tudo a um toque: a grife Levi’s e o Google se uniram para desenvolver uma jaqueta que se comunica com o celular (Crédito: Divulgação)

Você conseguiria imaginar sua vida, nos tempos atuais, sem a conectividade proporcionada pela internet e os dispositivos móveis? As novas tecnologias, especialmente através de celulares, tablets e relógios, se tornaram as extensões modernas do corpo e da mente. É verdade que cada setor da economia integra o novo contexto tecnológico de maneira única, mas, na indústria têxtil, as inovações podem ser ainda mais viscerais, envolvendo os consumidores em uma nova pele. As roupas inteligentes já conseguem medir a pressão arterial, combater a celulite, se comunicar com o celular e até indicar a localização exata por sinal de satélite.

Essa revolução que surge da conectividade e atinge todo o setor atende pelo nome de wearables. “Esse é o termo pelo qual ficaram conhecidos todos os dispositivos eletrônicos usados como acessórios de roupa, um relógio, uma pulseira, um tecido”, explica o professor Luciano Silva, coordenador do curso de Bacharelado em Ciência da Computação no Mackenzie e especialista em tecnologias da indústria têxtil. A expectativa, segundo ele, é de que, daqui a cinco ou seis anos, as roupas inteligentes serão tão comuns que vão incentivar inúmeras oportunidades de negócios, inclusive no mundo da moda.

Aquele abraço: sensores instalados na blusa da grife inglesa CuteCircuit simulam a sensação de um toque (Crédito:Divulgação)

Um estudo do International Data Corporation (IDC) projeta que serão fabricados mais de 125 milhões de wearables em todo o mundo em 2017, 20% a mais do que no ano passado. A partir daí, esse mercado deve quase dobrar, chegando a 240 milhões de unidades até 2021. Hoje quem domina são os gadgets, como os relógios e as pulseiras, com poucas opções em que a tecnologia está inserida no próprio tecido. Para além dos relógios inteligentes, o desafio do setor é transformar as próprias roupas em superfícies interativas. “Em vez de usar o relógio no pulso, a ideia é tornar esse relógio integrado com a roupa. Não ter muito dispositivo pendurado no usuário”, resume Silva, do Mackenzie.

Na moda, ao que parece, o digital é um caminho sem volta. Na Inglaterra, a CuteCircuit, marca queridinha de celebridades como a cantora Katy Perry e o vocalista do U2, Bono, se lançou no mercado, em 2004, como uma empresa de moda wearable. Uma das principais criações da marca é a Hug Shirt. Trata-se de uma blusa com sensores que, ao captar detalhes como pressão, duração e localização do toque de um usuário, além de batimentos cardíacos e temperatura da pele, recria a sensação de um abraço. Ou seja, o usuário pode se sentir abraçado por um amigo ou cônjuge mesmo que esteja fisicamente distante, em qualquer lugar do mundo. Basta que os dois estejam vestindo a Hug Shirt. Assim que a blusa é acionada por aplicativo de celular, sensores ativam as fibras do tecido, que contraem, expandem, esquentam ou esfriam. Um autêntico abraço.

Hi-tech com estilo: sarja especial da Cedro Têxtil, fabricada com fibras que repelem líquidos, oferece proteção extra contra manchas, reduzindo a necessidade de lavagens (Crédito:Divulgação)

Mais recentemente, a grife Levi’s e o Google se uniram no Projeto Jacquard para transformar tecidos em materiais condutores, capazes de interagir com smartphones. Juntos, criaram uma jaqueta sensível ao toque e ao movimento. As informações colhidas pelos sensores são transmitidas via bluetooth para um botão no punho. Com o modelo é possível, por exemplo, atender a uma ligação ou trocar de música no celular apenas com um toque no botão fixado à manga da roupa. A peça está à venda em algumas das lojas físicas da Levi’s nos EUA e custa US$ 350.

Também na onda dos wearables em tecidos, a grife americana de alta-costura Marchesa, em parceria com a IBM, chamou atenção no ano passado durante o Met Gala – baile de gala beneficente promovido pelo Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Na ocasião, a supermodelo tcheca Karolina Kurkova usou um “vestido cognitivo” feito com luzes LED que piscavam e mudavam de cor conforme as respostas dos fãs que acompanhavam a transmissão do evento ao vivo pelo Twitter – o resultado vinha da análise dos comentários feita pela ferramenta de inteligência artificial Watson, da IBM. O vestido acabou virando um espelho da opinião pública.

Boaventura, do Grupo Solvay: novas tecnologias em fibras sintéticas são o caminho para alcançar a conectividade (Crédito:Claudio Belli/Valor)

Mas os wearables não se restringem ao mercado internacional. No Brasil, a Bibi Calçados, fabricante de calçados infantis com 95 unidades no País e na América do Sul, lançou em setembro um tênis conectado. O modelo tem uma tela de display de LED na parte de cima, que mostra mensagens e desenhos personalizados pelas próprias crianças. Para funcionar, é preciso fazer o download de um programa no computador e conectar o tênis por meio de um cabo USB. Para a marca, o foco em modelos de alto giro e que utilizem tecnologia, como o display, norteia o desenvolvimento de novos produtos. O preço sugerido do tênis é de R$ 349,90.

Apesar de as roupas inteligentes começarem a ganhar as ruas e as passarelas, ainda há um grande desafio: os produtos que incorporam funções eletrônicas nos tecidos não são discretos, nem práticos. Mas no futuro os fios condutores poderão ser imperceptíveis, conectados a circuitos também minúsculos. Nesse sentido, o setor têxtil se lança numa verdadeira corrida pelo tecido tecnológico. Na Solvay, uma das líderes globais na fabricação de fios têxteis, o advento de novos polímeros especiais para fibras sintéticas é visto como o caminho para alcançar a tão festejada conectividade. “Esse é um dos nossos objetivos de negócios”, afirma o CEO Renato Boaventura. Segundo ele, esse tipo de fibra, ideal para acolher as tecnologias eletrônicas, já representa um terço do faturamento da empresa, que foi de € 10,9 bilhões, em 2016.

Já a mineira Cedro Têxtil, especialista em uniformes e jeans, desenvolveu a Sarja Splash, cujo tecido mancha menos. “Trabalhamos com uma tecnologia de fibras que repele o líquido, reduzindo as lavagens” conta Marco Antônio Branquinho, presidente da Cedro. Outro destaque do portfólio é um tecido “anticelulite”, que absorve o calor do corpo e o devolve em forma de raios infravermelhos, capazes de estimular a microcirculação sanguínea. Nesses casos, ainda não entra a questão da conectividade – por enquanto. “Estamos caminhando para ligar a tecnologia de fibras especiais com as de conectividade, só não temos escala ainda”, diz.