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Volta da calmaria?

Vitória de Jair Bolsonaro renova a confiança dos investidores, mas a sua governabilidade ainda é uma dúvida

Volta da calmaria?

A confirmação da vitória de Jair Bolsonaro na semana passada acalmou as até então agitadas águas do mercado financeiro. Diante da perspectiva de um governo que consiga reformar a Previdência Social e controlar o déficit fiscal, os administradores de dinheiro passaram a enxergar um horizonte mais estável. Isso significa mudanças na estratégia. Os gestores de recursos preferem alongar prazos. Já os especialistas dos grandes bancos de varejo recomendam uma dose adicional de risco.
O mar menos turbulento já se apresentava há algumas semanas. O favoritismo de Bolsonaro no primeiro turno havia turbinado o interesse dos investidores.

No mês de outubro, até o dia 26, o volume de negócios na Bolsa superou os R$ 354 bilhões, maior valor mensal deste ano. E R$ 314 bilhões, 88% desse total, foi movimentado por compras e por vendas de investidores estrangeiros. “A entrada de capital externo contribuiu para a subida dos preços das ações, o que elevou os ganhos de todos”, diz Luiz Alves, diretor da gestora de recursos Versa. Embora otimistas com a calmaria no horizonte, os marinheiros das finanças ainda não enxergam a terra firme. Eles aguardam o anúncio das lideranças de cargos estratégicos do governo e a demonstração prática do traquejo político de Bolsonaro, que terá de conviver com o Congresso mais pulverizado da história democrática do País.

Nicholas McCarthy, chefe global de investimentos do Itaú Private Bank: “Indicamos aos clientes manter parte relevante dos recursos em fundos multimercados” (Crédito:Silvia Costanti / Valor)

A confirmação do rumo da economia já reflete no planejamento da Vinland Capital, gestora que administra cerca de R$ 2,7 bilhões em patrimônio. “Nossas discussões agora visam o médio prazo”, diz Aurelio Bicalho, economista-chefe da Vinland. “Até setembro, as escolhas eram decididas em um horizonte curtíssimo. Pensávamos em posições táticas semana a semana para evitar perdas pontuais”, diz. Ainda há, no entanto, alguns focos de insegurança. Bicalho aponta que o principal risco é a incapacidade de Bolsonaro angariar apoio suficiente do Congresso para concretizar mudanças e estabilizar a economia. “Não existe margem para o erro. Se não aprovarmos a reforma da Previdência, a dívida pública vai atingir uma situação insustentável”, diz.

O chefe global de investimentos do Itaú Private Bank, Nicholas McCarthy, acredita que a atuação da nova equipe econômica, somada a uma articulação política competente, pode fazer a economia mudar de patamar. McCarthy, porém, ainda não mudou suas recomendações. Desde janeiro, ele aconselha os clientes do private, que tem a partir de R$ 5 milhões investidos, a manter parte relevante dos recursos em fundos multimercados e dividir os demais recursos entre ações, títulos de renda fixa de longo prazo e ativos cambiais. “Não estamos tomando nenhuma decisão agora”, diz. “Vamos acompanhar o comportamento do mercado para decidir se mudamos nossas recomendações.” A posição do banco é diferente na hora de aconselhar os fregueses com renda mensal até R$ 10 mil. Na semana passada, o banco enviou uma carta para eles dizendo que a vitória de Bolsonaro justificava “priorizar investimentos em Bolsa”.

Gilberto Abreu, diretor de investimentos do Santander: “Sugerimos aumento da exposição às ações”

No Santander, os especialistas também enxergam boas oportunidades na renda variável. “Traduzimos o otimismo sobre a recuperação da economia na revisão das carteiras”, diz Gilberto Abreu, diretor de investimentos. A sugestão é o aumento da exposição aos fundos multimercado e às ações, combinado com a redução das aplicações em renda fixa. “No caso dos títulos do tesouro, sugerimos a troca vencimentos curtos, em 2021, para períodos mais longos, como 2025”, diz Abreu.

A confirmação do resultado das urnas coincidiu com o mau humor nos mercados externos diante do acirramento da disputa comercial entre Estados Unidos e China e a expectativa por um aperto monetário maior que o esperado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O movimento refletiu também no Brasil. “Houve uma realização de lucros natural, uma vez que os traders tiveram perdas lá fora”, diz André Perfeito, economista-chefe da Spinelli. Como comparação, o S&P, um dos principais índices de Nova York, caiu 6,12% no mês passado, enquanto o Ibovespa subiu 19,9% em dólar. Para Pedro Lima, analista da Ativa Investimentos, os estrangeiros estão em compasso de espera. “Eles aguardam alguma medida concreta do novo governo para voltar com força”, diz. Lima projeta uma alta de 9% para o Ibovespa no fim de 2018, o que significa um pulo ao patamar de 95 mil pontos.