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Via varejo lava, passa e lucra

Uma das maiores empresas de varejo do Brasil supera atraso tecnológico, entra na disputa do e-commerce brasileiro e consegue reverter prejuízo para lucro de R$ 1 bilhão em 2020.

Crédito: Claudio Gatti

VIRADA DE JOGO Ciente da defasagem em relação à concorrência, o CEO Roberto Fulcherberguer aposta em inovações. (Crédito: Claudio Gatti )

Antes tarde do que nunca. Essa conhecida expressão pode ser utilizada para sintetizar o desempenho de uma das maiores redes varejista do País. No mercado há mais de dez anos, a Via Varejo, detentora das marcas Casas Bahia, Ponto Frio, Extra.com e da fábrica de móveis Bartira, surpreendeu especialistas – e todo o mercado – ao divulgar os resultados de 2020, na terça-feira (2). O motivo do espanto foi o bom desempenho da companhia, que demorou para ceder aos avanços tecnológicos do e-commerce. No comparativo financeiro entre o ano passado e 2019, a rede varejista brasileira registrou lucro líquido de R$ 1 bilhão frente ao prejuízo de R$ 1,4 bilhão de 2019. Esse resultado demonstra a necessidade que a companhia possuía pela transformação digital. O que só aconteceu efetivamente após o fechamento de todas as 1.070 lojas espalhadas pelo Brasil, em decorrência da pandemia. A migração da demanda para os canais digitais forçou a transformação tecnológica que, afirmou o CEO da companhia, já estava prevista. “Era um planejamento a longo prazo, mas que teve de ser acelerado”, disse Roberto Fulcherberguer à DINHEIRO. “Este ano, daremos continuidade a esse forte avanço.”

Esse progresso deve acontecer em forma de mais investimentos. Sem abrir os números, o executivo afirmou a previsão de focar mais de 60% dos aportes em tecnologia e logística, superando os R$ 308 milhões destinados a esses setores durante o ano passado – o total investido pela Via Varejo foi de R$ 434 milhões. Tardia ou não, a estratégia de focar no e-commerce aparenta ter dado certo. Durante todo o ano de 2020 as vendas digitais da rede varejista (considerando a modalidade Retira Rápido) apresentaram crescimento de 143% em relação ao ano de 2019, totalizando R$ 18 bilhões. O balanço financeiro de 2020 também registrou recorde histórico de evolução do GMV (volume bruto de mercadorias), que aumentou 21% em relação ao ano anterior e totalizou R$ 38,8 bilhões. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual ajustado apresentou alta de 171,1%, atingindo R$ 2,9 bilhões frente a R$ 1,07 bilhão consolidado em 2019.

Para a analista de varejo da XP Investimentos Danniela Eiger, mesmo tendo chegado tarde ainda há tempo para a Via Varejo. “Eles estão fazendo ajustes para adequar a plataforma e se aproximar da concorrência”, afirmou Eiger. “Também trouxeram diversas iniciativas que, na nossa visão, estão indo na direção correta.” Entre elas, a especialista aponta a forte adição de vendedores no marketplace. Somente em janeiro e fevereiro deste ano a rede varejista já aumentou em 50% o número de lojistas, que era de 10 mil ao final de 2020 e alcançou 15 mil no início de março.

FUTURO Mesmo em meio aos números recordes de mortes por coronavírus e com a economia instável em todo o País, a Via Varejo pretende manter o planejamento inicial para 2021 e dar início à estratégia de expansão nas regiões Norte e Nordeste, com a abertura de 120 lojas durante o ano. No primeiro bimestre, 15 unidades foram inauguradas. Na visão do presidente Roberto Fulcherberguer, essa estratégia é o melhor caminho. “As lojas que abriram estão com produtividade 40% acima da nossa média, mostrando que estamos agindo de maneira superassertiva”, afirmou. Mesmo em um cenário de crescimento do e-commerce, a aposta na expansão por meio dos modelos físicos não é tanta loucura assim. Principalmente em mercados como o brasileiro. É o que aponta o analista de varejo da Mirae Asset, Fernando Bresciani. “O Brasil é enorme e possui culturas distintas. Marcar presença, criar pontos de marketing, é uma estratégia”, disse Bresciani. “É fazer a lição de casa durante a crise para colher os benefícios depois.”

E entre as lições de casa da rede varejista estão os planos, para este ano, de ampliar a modalidade de entrega de produtos em 24 horas. O modelo já representa 15% das vendas e, na visão do CEO da companhia, é o diferencial da Via Varejo frente à concorrência. “Estávamos atrasados, mas agora passamos na frente em tecnologias únicas e inovadoras”, afirmou Fulcherberguer. Para o executivo, o objetivo é ficar adiante em todos os pontos e continuar investindo em tecnologia.

Entre as inovações para colocar a Via Varejo um patamar acima, está a execução do modelo de entrega em uma hora, independentemente do tamanho ou do peso do produto adquirido. O diferencial, segundo o presidente da companhia, está na eficiência da atuação. “Algumas redes vendem essa ideia, mas só executam em capitais. Vamos fazer valer para todos os municípios.” Depois de despertar para o jogo, a Via Varejo aparenta estar ciente dos obstáculos pelo caminho. “Ganha quem se agilizar e tiver melhor conexão com o consumidor”, disse Fulcherberguer.