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Valeu. Foi bom. Adeus!

Saída dos fundadores do WhatsApp, do Instagram e da Oculus evidencia conflitos internos no Facebook e coloca em xeque o romântico discurso da empresa de conectar as pessoas

Valeu. Foi bom. Adeus!

Aquele abraço: a saída de Brendan Iribe (à dir.), fundador e CEO da Oculus, teria tido relação direta com os planos de Mark Zuckerberg (à esq.) para o futuro da companhia

Mark Zuckerberg é comumente descrito como inovador, de discurso fácil e surpreendentemente carismático quando diante de grandes públicos. No entanto, o homem que fundou o Facebook também já foi retratado, até mesmo por Hollywood, como uma pessoa pouco sociável, de difícil trato no trabalho e, por vezes, egocêntrico. Para incomodar a vaidade do americano dono de uma fortuna de US$ 59,5 bilhões – de acordo com o Bloomberg Billionaires Index –, é justamente este segundo conjunto de características que está sendo cada vez mais usado para descrevê-lo frente aos recentes problemas que a companhia de Menlo Park, avaliada terça-feira 6 em US$ 430,9 bilhões, enfrenta. A mais nova polêmica ganhou os holofotes em outubro, quando o empresário Brendan Iribe, CEO e fundador da fabricante de dispositivos de realidade virtual Oculus, comprada pelo Facebook em 2014 por US$ 2,3 bilhões, anunciou sua demissão. Era uma saída que dificilmente ganharia tanta repercussão, não fosse o fato de que, somente neste ano, os fundadores dos aplicativos WhatsApp e Instagram, que também pertencem à gigante das redes sociais, já haviam pulado fora do barco capitaneado por Zuckerberg.

Os motivos para a saída do fundador da Oculus ainda não estão claros. “Para mim, esta será a primeira parada real em mais de 20 anos”, disse Iribe. “É hora de recarregar, refletir e ser criativo.” O discurso otimista, contudo, pode esconder motivos mais sombrios acerca dos porquês de sua partida. Fontes ouvidas pelo site americano TechCrunch relataram discussões entre Iribe e executivos do Facebook nos dias que antecederam a saída do fundador. Os planos da gigante do Vale do Silício para a Oculus direcionavam o orçamento para produtos mais baratos. Algo que ia contra as pretensões do empresário, que queria desenvolver um dispositivo mais robusto. Vale lembrar que, antes de Iribe, outro cofundador da Oculus, o americano Palmer Luckey, já havia jogado a toalha. Neste caso, porém, a saída parece não ter tido relação com o futuro dos dispositivos. Luckey deixou a empresa em 2017, após ter doado, no ano anterior, US$ 10 mil para um grupo político favorável ao presidente americano Donald Trump e que ficou conhecido por divulgar imagens racistas e homofóbicas nas redes sociais.

Saída em dois atos: insatisfeitos com os planos para monetizar o WhatsApp, Brian Acton e Jan Koum (da esq. p/ dir.) deixaram a empresa entre setembro de 2017 e abril deste ano

A debandada dos fundadores da Oculus parece ter sido só mais uma nos corredores do Facebook. Tudo começou em setembro do ano passado, quando Brian Acton, um dos cofundadores do WhatsApp, anunciou que estava largando o batente da companhia que criou em 2009 e a vendeu em 2014 por US$ 22 bilhões. “Foi algo como, ok, você [Zuckerberg] quer fazer essas coisas e eu não quero. É melhor que eu saia do caminho. E foi o que eu fiz”, afirmou o executivo, em entrevista à revista americana Forbes, em setembro do ano passado. Meses depois, em abril deste ano, o outro cofundador do aplicativo, Jan Koum, fez o mesmo. “Estou saindo em um momento em que as pessoas estão usando o WhatsApp de formas que eu nunca imaginei”, disse, ao anunciar a demissão.

As alterações estavam relacionadas diretamente à divulgação de anúncios publicitários e mudanças na política de privacidade do programa. O Facebook, uma das maiores plataformas para a veiculação de propagandas na internet, queria monetizar o aplicativo com anúncios direcionados. Para isso, seria preciso colher informações de uso dos mais de 1,5 bilhão de usuários do mensageiro. A proposta vai totalmente contra a filosofia do aplicativo que tinha uma frase como mantra: “sem publicidade, sem jogos e sem truques.” Com o fracasso na tentativa de convencer a direção da empresa de Menlo Park a utilizar outras estratégias para gerar renda com o aplicativo, como a cobrança de um décimo de centavo de cada usuário após uma grande quantidade de mensagens enviadas – ideia que teria sido rechaçada por Sheryl Sandberg, a chefe operacional do Facebook –, não havia outra escolha para Acton e Koum que não abdicarem de seus trabalhos.

A decisão da dupla custou US$ 1,3 bilhão para seus bolsos. Isso porque, quando venderam a companhia, havia um termo que estabelecia o pagamento de ações caso eles permanecessem no negócio por um período determinado de tempo. “Eu vendi minha empresa e preciso lidar com as consequências disso”, disse Acton, na entrevista à Forbes, em setembro do ano passado. Na época, o empresário dizia que não guardava qualquer rancor. Em março, quando o Facebook estava envolvido no escândalo da Cambridge Analytica, consultoria britânica que usou indevidamente dados de 87 milhões de usuários da rede social em uma tentativa de manipular as eleições americanas e o referendo do Brexit, Acton usou o Twitter para engrossar o coro de uma campanha que encorajava os internautas a deletar suas contas na rede social de Zuckerberg. “Chegou a hora #DeleteFacebook”, escreveu.

Desabafo: “Ninguém sai de uma empresa quando está tudo ótimo”, disse Kevin Systrom (à dir), após o anúncio da saída dele e de Mike Krieger (à esq.) do Instagram

Se não havia sido a primeira, aquela marcou a mais importante vitória do fundador do Facebook sobre seus parceiros comerciais em uma queda de braço entre prover privacidade aos usuários e garantir anúncios publicitários mais direcionados aos anunciantes. Foi assim com o WhatsApp e foi assim com o Instagram. No começo de outubro, o americano Kevin Systrom e o brasileiro Mike Krieger deixaram simultaneamente a rede social de fotos e vídeos fundada em 2010 e comprada pelo Facebook por US$ 1 bilhão em 2012. “Quando você está saindo de algo, há obviamente razões para isso”, disse Systrom, dias depois do desligamento. “Ninguém sai de uma empresa quando está tudo ótimo.”

Segundo a imprensa internacional, a dupla não concordou com decisões do Facebook sobre o futuro da plataforma. “Zuckerberg se tornou um tirano obcecado por coletar e vender dados de usuários para quem pagar mais”, diz Vivek Wadhwa, membro eminente da Singularity University e da Stanford University. “Ele parece não se importar com os danos que sua tecnologia está causando.” De acordo com o TechCrunch, o Instagram está planejando uma forma de impulsionar postagens publicadas na seção Stories, de fotos e vídeos efêmeros. “Quando o Facebook começa a monetizar as empresas que comprou, gera-se um conflito com os fundadores”, afirmou Lynette Luna, analista da consultoria GlobalData, ao jornal britânico The Guardian. Outro motivo para a ruptura teria sido o desejo do Facebook de ampliar mais rapidamente o número de usuários da plataforma, que em junho superou a marca de 1 bilhão.

É difícil analisar o quanto o Facebook vai sentir a saída desses fundadores parceiros. Em números imediatos, pelo menos, pouca coisa parece ter mudado. Em 30 de abril, quando se deu a saída de Koum, as ações da rede social na Nasdaq caíram 1,24%. Em 24 de setembro, no adeus dos fundadores do Instagram, a queda foi menor, apenas 0,3%. No caso da partida de Iribe, em 22 de outubro, houve, inclusive, uma tímida alta de 0,1% nos papéis. “Tudo depende de como a empresa vai se posicionar e se o número de usuários dessas plataformas vai aumentar”, diz Marcus Quintella, professor do curso de MBA de empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas. “O usuário não vai se importar.” É o que parece pensar Mark Zuckerberg, que, apesar das críticas e dos problemas que enfrenta em 2018, segue seu reinado absoluto em uma gigante que deixa cada vez mais claro que seu negócio está mudando de conectar as pessoas e comprar empresas, para conectar as empresas e vender as pessoas.