AS MELHORES DA DINHEIRO 2021

Vacina para liderar

Pela parceria com a Pfizer para produção do imunizante contra a Covid-19, a Eurofarma confirma sua liderança na corrida da indústria farmacêutica, em que inovação é palavra de ordem. A meta agora é dominar a tecnologia de produção de vacinas e conduzir o mercado de saúde na América Latina para um novo capítulo.

Crédito: Germano Lüders

Maurizio Billi Presidente “Sem inovação, todas as companhias teriam a mesma carteira de produtos e viraria uma briga por quem vende a preços mais baixos”. (Crédito: Germano Lüders)

Na corrida pela inovação, olhar para o que ninguém vê é tão importante quanto manter o ritmo. Essa maratona, que a Eurofarma corre há 50 anos, é o que tira Maurizio Billi da cama todas as manhãs. “É a nossa única chance de sobrevivência, ou não duraríamos mais cinco anos na indústria”, disse o presidente da companhia. Madrugar compensou quando o executivo recebeu a ligação da Pfizer propondo parceria para produção do imunizante contra a Covid-19 na América Latina. A escolha da farmacêutica levou em consideração o histórico de colaboração entre as empresas e a estrutura com dez fábricas na região, sendo quatro delas só no Brasil, para garantir que pelo menos mais 100 milhões de doses sejam distribuídas anualmente a partir de 2022. Para a Eurofarma, o contrato traz a promessa de autossuficiência para fabricação de vacinas — e não só as contra o coronavírus. Se bem-sucedido, o aprendizado abre caminhos para uma liderança no setor privado, em que nenhum outro agente domina a tecnologia integralmente.

Destaque em inovação e qualidade em AS MELHORES DA DINHEIRO 2021, a Eurofarma está expandindo com pesquisa e inovação. Enquanto as concorrentes miram tratamentos para oncologia e doenças genéticas, para os quais os preços chegam à casa dos milhões, a companhia busca lançar antibióticos, classe de fármacos com custo produtivo médio de R$ 7 mil no País (desconsiderando os impostos de comercialização). Na tabela deste ano da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, o teto foi alcançado pela droga Zolgensma, da Novartis, no valor de R$ 2,8 milhões para a atrofia muscular espinhal. As decisões são frequentemente contestadas pelas empresas por “inviabilizar o processo”. Além de driblar essas discussões, a estratégia da Eurofarma leva em conta a perda de eficácia dos antibióticos no organismo humano e o baixo índice de renovação da categoria.

Em 1982, a empresa cravou sua marca como primeiro laboratório nacional a produzir a penicilina, o antibiótico mais usado na prática clínica e que tem entre as formas mais comuns a Benzetacil. Agora quer manter esse pioneirismo com lançamento para tratar infecções bacterianas. A empresa sabe que é preciso combinar arrancadas, para levar genéricos às prateleiras das farmácias com rapidez, e resistência, para sustentar os ciclos de inovação radical­ — o desenvolvimento de uma nova droga pode levar mais de dez anos.

Atualmente, a Eurofarma está envolvida em 240 projetos de inovação na América Latina. Destes, cerca de 90 se dedicam à otimização e incremento de fórmulas que já existem no mercado, e seis são voltados para consolidação de substâncias inéditas. Mas há consciência de que a frustração é rotina na ciência — o índice de fracasso dos programas de inovação radical no setor ultrapassa 90%. “Sem inovação, todas as companhias teriam a mesma carteira de produtos e viraria uma briga por quem vende a preços mais baixos”, afirmou o empresário. Aos 64, Maurizio colhe frutos dos mais de dois terços da sua vida dedicados à empresa fundada pelo pai, Galliano Billi.
Para suportar esse ritmo, a multinacional brasileira investiu R$ 420 milhões em P&D neste ano. Depois de inaugurar o centro de inovação em 2019 — uma construção de 21 mil m2 com aporte inicial de R$ 155 milhões que abriga a equipe de 500 pessoas, precisará garantir a produção dos próximos anos. Por isso dedica 8% da receita anual para inovação. A meta é alcançar o patamar das gigantes mundiais, que dedicam 20% do faturamento para pesquisa. No plano de negócios, a Eurofarma projeta chegar a uma fatia de 15% até 2030. Ganha reforço para seguir nesse caminho com o programa de inovação aberta Synapsis, seu ponto de contato com o ecossistema de startups.

A companhia ainda estica o seu braço de venture capital com a gestão do Neuron Ventures, fundo de R$ 45 milhões. Desde então, já investiu em cinco projetos de tecnologia para a cadeia de saúde e bem-estar, que cresce 5% no mundo e deve movimentar mais de US$ 6,5 trilhões por ano até 2026, segundo a consultoria Research Dive. “Aqui, o mercado tende a se concentrar nas mãos das empresas brasileiras. Estamos descolando nossa operação das estrangeiras, hoje focadas em nichos do mercado com tratamentos tão caros que só o governo consegue arcar”, afirmou o presidente.