Artigo

Vá lá e faça

De humilhação em humilhação o Brasil se distancia do século 21 em nome de um projeto sectário.

Vá lá e faça

Brasil, meu caro, “in bocca ao lupo”. Para os italianos, esse sincero desejo de boa sorte é só o que nos parece restar. E quando falo nós, me refiro ao setor produtivo, e não à decepcionante e egocentrada elite do setor público nem à classe política em suas diferentes esferas.

O momento faz lembrar uma piada que meu pai costumava contar. Ou o que eu inicialmente pensava ser piada. Dois vizinhos se odeiam. Um deles, de Catanzaro. Outro, de Reggio Calabria. Mas vivem num vilarejo no meio do caminho entre as duas cidades. É fim de noite numa quarta-feira de abril e, após uma discussão, o primeiro vai se deitar. Reza e pede:

– Papai do Céu! Mate meu vizinho. Ele não presta.
Dorme em paz e no dia seguinte acorda ansioso. Abre a janela e vê o desafeto já trabalhando. Naquela noite, um pouco irritado, ao se preparar para dormir reza mais vezes, reza mais intensamente, reza em voz mais alta. E pede:

– Papai do Céu! Mate meu vizinho. Ele realmente não presta.
Mais um dia, mais uma decepção. Na terceira noite, ele se deita, reza e diz:

– Papai do Céu! Já que o Senhor andava muito ocupado nesses dias eu fui lá e…
Como eu não ria, perguntava qual a graça da piada. Meu pai invariavelmente dizia:

– A Deus peça duas vezes. Se Ele estiver ocupado e decidir não fazer, vá lá e faça.

Sabidamente vivemos o momento terceira noite no Brasil. A hora do vá-lá-e-faça. A mais recente prova disso veio da França. Na terça-feira (13) o primeiro-ministro Jean Castex declarava na Assemblée Nationale a proibição de voos entre os dois países e o endurecimento de regras para viajantes brasileiros. Mais que isso. Falou sobre a situação dramática vivida aqui e da gravidade da variante nacional do vírus. Também lembrou do erro que este pedaço do planeta cometeu ao se tornar o lugar em que mais se prescreveu hidroxicloriquina, recebendo aplausos. Aplausos lá devem ser lidos no espelho: é igual a escárnio aqui. (A propósito, as gargalhadas dos deputados franceses durante a fala de Castex, a bem da verdade, não foram quando o primeiro-ministro falava do presidente brasileiro, como aqui foi amplamente veiculado, mas sim quando citou o deputado francês Patrick Hetzel, republicano que no ano passado pediu a liberação do uso de hidroxicloriquina ao francês Emmanuel Macron – que evidentemente negou o pedido). Mas isso é só detalhe. Até porque todos sabemos que se Castex falasse mais de Jair a Assemblée Nationale correria o risco de virar uma casa de stand up comedy. O vídeo no YouTube, veiculado pela LCP, o canal de tv parlamentar francês, é constrangedor a qualquer brasileiro sério. Ops. Foi mal, monsieur De Gaulle.

Tratar o momento sem atitudes efetivas não salvará vidas e não dará tração à economia. Ou alguém acredita que no ritmo de vacinação atual a roda volte a girar no terceiro trimestre? Só no quarto, e olhe lá. É preciso mais que carta. Trata-se de conta. Mesmo que se multiplique o dinheiro, a essa altura um item basilar da economia entrou em cena: a escassez. A gente vive um momento em que Reino Unido e União Europeia trocam farpas querendo doses. Numa hora dessas quem é o Brasil na fila do pão da vacina? Ninguém. Jair pode estar longe de saber o que é refinamento, mas não é pouco esperto. Tanto que entendeu e atendeu Pequim. A China soube à chinesa ‘rezar’ pela saída de Ernesto Araújo. Vida que segue.

Aqui, o momento é paradoxalmente de caos e paralisia. Uma CPI que dará em nada. Um Orçamento que dará em nada. Uma tentativa que igualmente dará em nada da suprema corte tentando passar imagem de excelência e sabedoria quando está mais para octógono. Um ministro da Economia que dará em nada. Uma promessa de Estado magro que dará em nada. Um programa de auxílio a pequenas e médias empresas cujo crédito em boa parte das vezes não chega na ponta. Um auxílio-emergencial que nem cabe nas contas públicas e nem resolve a vida de quem recebe. O desemprego? Só sobe. A inflação? Com apetite. A marca ambiental? Destruída. O País na mão de sectários que nunca esconderam suas intenções, seus modos e suas práticas de baixo clero. E a gente achando que rezar para passar mais 20 meses será o bastante. Não será. É preciso mais que abaixo-assinados. Renato Meirelles, fundador e presidente do Instituto Locomotiva, tem uma frase fundamental para este outono: “O Brasil não volta a crescer sem uma ampla campanha de resgate da verdade factual”. Verdade que está escarrada na mesa, ao lado dos talheres. A essa altura, apenas não participar de indecentes jantares de apoio não basta.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO. Na próxima semana, Celso Masson, diretor de núcleo da DINHEIRO.