Internacional

Uma relação bipolar

Entre afagos, ameaças públicas e trocas de acusações, EUA e China escrevem um enredo de suspense na diplomacia mundial.

Crédito: Evandro Rodrigues

A relação entre as duas maiores economias do planeta, Estados Unidos e China, poderia servir como fonte de inspiração para uma autêntica telenovela mexicana. Com episódios que fogem da realidade e de final imprevisível – muito distante dos padrões que ditam as regras da diplomacia mundial. Em pé de guerra, e com intrigas quase que diariamente alimentadas por Donald Trump, os dois países parecem cada vez mais distantes do armistício comercial anunciado em janeiro, quando o líder americano afirmou que “a relação com a China nunca esteve melhor”. Se isso foi verdade, não é mais. Um problema e tanto para o mundo. Com seus PIB de US$ 20,5 trilhões e 13,6 trilhões, Washington e Pequim conduzem 40% da economia global, de acordo com o Banco Mundial.

A receita dessa confusão inclui a iminente recessão internacional causada pelo novo coronavírus, a ameaça dos Estados Unidos de cortar meio bilhão de dólares de financiamento à Organização Mundial da Saúde (OMS) e um ano de reeleição americana. Nesse ambiente hostil, Trump e Xi Jinping dão sinais de que estão dispostos a voltar ao campo de batalha. E espalham receio global de que um acirramento da guerra comercial agrave ainda mais uma situação que já está ruim. “Um acordo entre a China e os Estados Unidos depende de muitas etapas e há fatores externos que estão acontecendo que não podemos ignorar”, disse Sylvain Broyer, economista-chefe da agência de classificação Standard and Poor’s.

ORIGEM DA COVID-19 A preocupação em torno do clima entre americanos e chineses, cujas economias são as mais interdependentes do planeta, está mais na imprevisibilidade das retóricas do que em uma eventual nova tarifa alfandegária. Quatro meses depois de selar uma trégua, os Estados Unidos elevaram o tom de críticas à China na semana do dia 20, em torno da tese da origem do novo coronavírus e do suposto descontrole doloso do avanço da doença. Trump acusa a OMS de ser um “fantoche da China” e deu 30 dias para a entidade demonstrar “melhorias substanciais”. O presidente e seu secretário de Estado, Mike Pompeo, vêm repetindo que o vírus se originou num laboratório de Wuhan, na China. Uma discussão sanitária que contamina a economia.

O presidente americano também se refere ao novo coronavírus como “um vírus chinês”. As declarações tanto de Pompeo quanto de Trump, no entanto, contrariam relatórios da própria inteligência americana que sustenta que o vírus “não foi feito pelo homem, nem foi geneticamente modificado”. Trump os ignora porque precisa jogar para seu público interno, já que desprezou a crise da saúde e agora conduz o país com o maior número de vítimas fatais (95 mil) e contaminados (cerca de 1,6 milhão, na quinta-feira 21). Bater na China é uma forma de parecer durão dentro das fronteiras.

Inegavelmente, a disputa entre os Estados Unidos e os asiáticos sobre a gestão da crise do coronavírus pela OMS está se acirrando, enquanto o mundo espera estratégias conjuntas e acelera a busca de uma cura para a Covid-19. Em resposta, o governo chinês, na terça-feira 19, acusou Trump de usar a China para fugir de suas obrigações com a OMS. “É um erro de cálculo, e os Estados Unidos escolheram o alvo errado”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian. A União Europeia (UE) expressou apoio à OMS. “É hora de solidariedade, não de apontar o dedo ou prejudicar a cooperação multilateral”, afirmou a porta-voz da diplomacia europeia, Virginie Battu.

E O BRASIL Enquanto Estados Unidos e China travam uma rinha de cachorros grandes, o Brasil – que pode ser comparado com um barulhento pinscher de estimação no comércio global – pode sair machucado. O alinhamento ideológico do governo Bolsonaro com o de Trump não vem agradando aos chineses, principal parceiro comercial do País. “Os atritos geram a apreensão no setor exportador”, definiu José Antônio Castro, presidente da Associação de Exportadores do Brasil. “Esse tipo de situação não traz nenhum benefício para o Brasil.”

Na avaliação do economista Ricardo França, analista da Ágora Investimentos, o mais recente confronto de Trump com a China pode afetar negativamente os preços dos papéis de empresas brasileiras, entre eles os de frigoríficos, nesse ambiente de incertezas. Algumas variáveis dessa guerra comercial entre Estados Unidos e China, segundo ele, precisam ser monitoradas, já que pode haver redução ainda maior do comércio global e influenciar a dinâmica das empresas, o que deixa ainda mais ansioso o público que aguarda pelo próximo capítulo dessa novela da vida real.