Artigo

Uma questão de linguagem e anatomia

É preciso destruir o sistema que levou 57,7 milhões de brasileiros a eleger um anticidadão como Bolsonaro (e um Congresso como o de 2018).

Uma questão de linguagem e anatomia

Há uns bons pares de anos, na segunda metade da década de 90, cuidei de um projeto editorial sobre música para piano. Três séculos de história. Era uma coleção em 20 fascículos, contando a vida dos principais compositores e suas principais composições. Cada exemplar vinha acompanhado de um álbum com originais executados por Arthur Moreira Lima (1940). Todas as faixas foram gravadas em Londres, onde ele foi viver por meses. Moreira Lima é mundialmente reconhecido como um dos maiores intérpretes de Chopin. E para quem o conhece um pouco mais, frasista genial. Numa das reuniões finais para tratar do projeto, o encontro aconteceria em sua casa, que na época ficava na Urca. Ao me explicar como fazer para chegar ao endereço, ele disse:

— Você estará numa via de sentido obrigatório. No final, será obrigado pegar à direita, porque é contramão seguir em frente. Ele mesmo completou:

— Bairro militar, né? O que não é obrigatório é proibido.

Sempre me lembro dessa explicação quando olho para o sistema eleitoral brasileiro, e seu reflexo político partidário. Somos a autoproclamada maior democracia do mundo. Hahahahahaha. Com voto obrigatório… O comediante britânico John Oliver, do programa Last Week Tonight, já havia feito piada com isso em 2014. “É basicamente ilegal não votar no Brasil”, afirmou (https://bit.ly/3qNse4X). E igualmente nos tinha advertido sobre o perigo de eleger JB, quatro anos mais tarde (https://bit.ly/3oBKVGc), a quem classificou de “racista, misógino, homofóbico e não democrático”. Acertou todas. Quem mandou a gente não assistir mais vezes a Last Week Tonight…

Talvez seja um defeito como povo. Não nascemos para democracias plenas ­— as que incluem muito além do voto. Aquelas que contemplam direito à educação mais equilibrada, à saúde mais equilibrada, à mobilidade mais equilibrada, a oportunidades mais equilibradas, à distribuição de renda mais equilibrada. É provável que haja elementos basilares que nos impedem de pegar a curva certa da história. Não nascemos para ser nórdicos.

Há um estudo fantástico feito por M. Keitch Chen, hoje professor de economia comportamental da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Publicado em abril de 2013, sob o título The Effect of Language on Economic Behavior (O Efeito da Linguagem no Comportamento Econômico), nele Chen demonstrou que a estrutura linguística poderia indicar certos vetores de comportamento de um grupo social na economia. Basicamente, disse que países cujas línguas não separam de forma acentuada eventos futuros do presente, como o idioma alemão, possuem populações mais propensas a poupar e pensar em aposentadoria do que habitantes de países em que a estrutura gramatical separa mais marcadamente o presente do futuro.

“Um falante de alemão prevendo chuva pode naturalmente fazê-lo no presente, dizendo ‘Morgen regnet es’, que se traduz como ‘chove amanhã’”, escreveu Chen em seu estudo. “Em contraste, o inglês exigiria o uso de um marcador futuro como ‘vai’ ou ‘vai fazer’: ‘Vai chover amanhã’”. O mesmo cabe para línguas latinas, como o espanhol e o português: “mañana lloverá” ou “amanhã choverá”. Ambas destacam duas vezes a divisão temporal (amanhã + choverá). Nesses lugares, a marcação linguística acentuada entre presente e futuro faz com que o comportamento populacional em relação ao que virá seja, na média, mais displicente e haja menos taxa de poupança. Pesquisando 76 países, a diferença foi um índice de poupança 54% menor nas nações de futuro-presente mais distanciados. Sim, estamos neste grupo.
Nosso pacote de cultura-língua-comportamento efetivamente molda quem somos. Vale na economia, vale na política.

A Winston Churchill é atribuída a frase de que “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor mediano”. E ninguém negaria que se tratava de um convicto democrata. Torna-se inevitável pensar, pelo que vivemos nos últimos três anos, que o país em que democracia é traduzida por “proibição ou obrigatoriedade” nos trouxe a esse pântano moral e fiscal que nos impede de crescer economicamente. Esqueça as ilusões. Esqueça reformas Administrativa, Tributária ou Previdenciária. Não haverá saída nacional sem que a Reforma Política seja fortemente demandada. Um papel para todos aqueles que trabalham e falam uma língua muito diferente da de Brasília e da elite de nosso funcionalismo público.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.