Artigo

Uma matança em andamento

Não é apenas a Covid-19 que mata, apesar de o pífio combate ao coronavírus ser parte da culpa. Há outro horror: o Brasil não consegue empregar seus jovens.

Uma matança em andamento

Num país que passa incólume por matar 43 mil pessoas por ano (uma a cada 12 minutos) e que já velou 270 mil vítimas de Covid-19 (uma a cada 2 minutos), é difícil falar de vida. Mas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na quarta-feira (10) dados de uma verdadeira matança: o desemprego entre os jovens. O índice de 42,7% de desocupação para aqueles que têm entre 14 e 17 anos é três vezes maior que a já desesperadora média geral de 13,9%. Na faixa imediatamente acima, os que têm de 18 a 24 anos, o porcentual é igualmente assustador: 29,8%. Isso significa que um a cada três brasileiros na idade decisiva para seguir seu caminho profissional e sua vida produtiva não encontra o que fazer. Nada. Não se trata de um emprego na área escolhida. No sonho. Trata-se de nenhum emprego. Essa é a verdadeira tragédia da temporada 2020 da economia nacional. A morte da esperança.

Ao tirar dessa parcela de brasileiros o trabalho, muitas vezes o primeiro emprego, a turma de Paulo & Jair deveria pedir desculpas ao País e entregar o posto. Deu ruim. Não fizeram o que disseram que fariam. Não tiveram talento. Competência. Dom. Numa empresa normal, a dupla no mínimo teria seus nomes colocados naquele canto inferior esquerdo no quadrante da avaliação anual. Claro que o temor do desemprego entre jovens não é problema em qualquer família. Se seu filho é empreendedor de sucesso e pode comprar uma mansão por R$ 6 milhões (menos R$ 30 mil) isso nem deve passar pela cabeça. Ou pelo coração. Mas que pelo menos passe pelo intestino ou estômago — um princípio consagrado ao dar aulas é não fazer com os filhos dos outros o que você não gostaria que fizessem com o seu. Lido no espelho fica assim: só dê a seu filho o que daria ao do outro. Inclusive as mesmas condições de competir por uma vaga de emprego. O que os números do IBGE mostram é que não há igualdade na disputa. Ponto. Simples assim.

Poderíamos buscar uma leitura otimista. Entre o terceiro trimestre e o quarto a curva inclina para baixo em 0,7 ponto porcentual. Mas nem isso ajuda. Virou sazonalidade, já que se repete no mesmo período do ano desde 2017. Assim que a taxa de desocupação venceu a barreira dos dois dígitos, no começo de 2016, ela não retrocedeu mais. E num país inercial, o que pode ficar pior vai ficar pior. Os dados do período outubro-dezembro de 2020 comparados aos de outubro-dezembro de 2019 mostram que nos estados e Distrito Federal houve aumento da busca por trabalho em 19 dos 27, em todas as regiões.

O desastre dos números do IBGE — cuja curva tenebrosa começa no segundo mandato de Dilma Rousseff — faz estragos ainda mais devastadores. Entre mulheres e negros. No corte por cor, o desemprego entre brancos é de 11,5%, abaixo da média geral. Entre a população negra sobe para 17,2%. Uma diferença de quase 50%. No meio estão os pardos, cujo índice de desocupação é de 15,8%. No quesito gênero, igual. Nenhuma boa novidade. Mulheres sofrem mais que homens. O desemprego entre eles é de 11,9%. Entre elas, alcança 16,4% — um gap de 37,8%.

Diante do quadro, como age o tal mercado? Não age. Parece ter há muito tempo precificado a cena. Esse dragão que tem medo de molusco, mas não tem de ogro, precisa de autoanálise. Tema para outro momento. Mas a respeito disso, uma frase parece taylor made. “Os economistas são estranhamente lerdos para reconhecer o fenômeno das classes sociais.” Por favor, não me ataquem. Quem disse isso foi o brilhante economista Joseph Schumpeter, em Capitalismo, Socialismo e Democracia. E tudo bem. Até porque ele também deu uma zoadinha em jornalistas, a quem chamou com elegância de eternamente ingênuos, de certa maneira.

A tragédia antes anunciada está agora constatada. Paulo & Jair nem devem bater os olhos na planilha. Não é a agenda deles. Ao primeiro, que realizou o sonho de ser ministro, desejo que nutria sob qualquer governo desde FHC, parece bastar a cadeira. Ao segundo, só existe a obsessão pelo bis, a partir de 2023. O fato é que os jovens — e as mulheres e os negros — estão largados na mão do mundo real. Como se isso não fosse um problema econômico. Dos mais graves. Pensando bem, não é um problema. É uma matança.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO