Negócios

Uma herança do barulho

A descoberta de uma nova herdeira esquenta ainda mais a disputa pela fortuna do empresário Henry Maksoud, estimada em R$ 900 milhões

Crédito: Vivi Zanatta

O patriarca: a morte de Henry Maksoud, em 2014, foi o estopim para o início de uma longa disputa judicial entre seus herdeiros (Crédito: Vivi Zanatta)

Inaugurado em 1979 pelo empresário Henry Maksoud, o hotel Maksoud Plaza foi, durante um bom tempo, o endereço preferido de políticos, artistas e celebridades de passagem por São Paulo. O príncipe Albert de Mônaco, a dama de ferro Margaret Thatcher e a atriz Catherine Deneuve foram alguns dos hóspedes das luxuosas suítes do local. Mas esse glamour desapareceu nos anos 2000, com a dificuldade do hotel em fazer frente ao surgimento de novos concorrentes. Desde a morte de Henry, em 2014, essa história ganhou um enredo pontuado pelas trocas de acusações e de processos entre seus familiares.  Em jogo, uma herança estimada em R$ 900 milhões. E o futuro do lendário Maksoud Plaza.

O imbróglio tem origem em um testamento elaborado por Henry Maksoud, em 2003, que conferiu o comando dos negócios do clã a Henry Maksoud Neto. E determinou que 50% do patrimônio fosse dividido entre ele e Georgina, a segunda mulher do empresário, também nomeada administradora do espólio. A dupla é contestada por Roberto e Cláudio, filhos do primeiro casamento de Henry e que alegam ter direito à metade restante da fortuna. Eles pedem a anulação do testamento, pois acusam Neto e Georgina de terem se aproveitado da saúde debilitada do patriarca, na época, para elaborar o documento.
Essa trama, já complexa, ganhou outra personagem recentemente: Vera Lúcia Barboza, filha de Henry com uma cozinheira que trabalhou na casa da mãe do empresário, na década de 1950. Vera obteve o reconhecimento de paternidade na Justiça, em 2014.

E, além de adotar o sobrenome da família, passou a ter direito a uma parcela equivalente a dos irmãos na herança. A fatia de Vera no espólio é justamente a origem de novos motivos de discórdia. Seus direitos hereditários foram adquiridos por Henry Maksoud Neto, em julho de 2016. A aquisição, no entanto, só foi “descoberta” no fim de 2017. O acordo foi fechado por R$ 2,64 milhões, divididos em uma entrada de R$ 20 mil, e em outras 239 parcelas mensais, de R$ 11 mil cada. Entre outros pontos, o contrato estabelece que Neto pagará um plano de saúde vitalício “de primeira linha” para a herdeira, equivalente ao que é hoje oferecido aos gerentes do Maksoud Plaza. “Isso é preço de liquidação. Mais parece um crediário da Casas Bahia”, diz Roberto, pai de Neto. “Só o hotel vale mais de R$ 500 milhões.” Procurada, Vera não respondeu aos pedidos de entrevista.

Roberto também questiona outro aspecto. No recibo de pagamento da parcela de entrada, datado de 13 de julho de 2016, consta que o cheque emitido não saiu de uma conta pessoal de Henry Maksoud Neto. Mas sim, da empresa Portillo Empreendimentos e Participações que, em tese, não possui nenhuma ligação com o empresário. A suspeita é de que a companhia, cuja sede está registrada no mesmo endereço do Maksoud Plaza, estaria sendo usada para movimentar as finanças do empreendimento. Henry Maksoud Neto informou, por meio de sua assessoria, que não se manifestaria. “O desejo dos herdeiros que querem preservar o legado de Henry Maksoud sempre foi o de compor com os senhores Cláudio e Roberto”, diz Márcio Casado, advogado do espólio de Henry Maksoud e também de Neto e de Georgina. “Já houve tentativas frustradas nesse sentido. E o principal empecilho é a postura dos dois irmãos.”

Registro: o recibo de pagamento de parte da primeira parcela de R$ 20 mil, pelos direitos de Vera Lúcia. O cheque emitido não é da conta pessoal de Henry Maksoud Neto

Essa abordagem conciliadora se choca, porém, com algumas iniciativas do grupo. Cláudio, que mora com a esposa em dois apartamentos conjugados no Maksoud Plaza há cerca de vinte anos, é alvo de uma ação de despejo, movida pela atual gestão. E estaria sofrendo retaliações no local. “A administração cortou a internet, os serviços de limpeza e proibiu os funcionários de atendê-los, sob pena de demissão”, diz uma fonte próxima ao casal, que pediu anonimato. Procurado, Cláudio não concedeu entrevista. Um pedido de interdição de Henry Maksoud, ajuizado por Roberto e Cláudio, pouco antes da morte do empresário, é citado para justificar a medida judicial. “A partir do pedido de interdição, Henry Maksoud resolveu extinguir o comodato para o Cláudio e sua esposa”, afirma o advogado Márcio Casado. “A atual gestão vem tentando, pelos meios processuais adequados, fazer cumprir um desejo do fundador.”

À parte dessas disputas, Neto tem buscado reerguer o Maksoud Plaza desde que assumiu o comando da empresa, em 2014. A receita saltou de R$ 37,5 milhões, em 2013, para R$ 61,9 milhões, em 2017. Nesse intervalo, a taxa de ocupação subiu de uma média mensal de 40% para 70%. O desempenho, porém, também é alvo de questionamentos. No período, o prejuízo saiu de R$ 571 mil para R$ 10,7 milhões. E, hoje, o hotel tem uma dívida ativa de mais de R$ 112 milhões.