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Uma geração que leva a sério os sinais do clima

Uma geração que leva a sério os sinais do clima

A diferença é catastrófica entre as promessas nacionais de limitação das emissões de gases do efeito estufa e as reduções que deveriam ser realizadas para limitar o aquecimento global a menos de 2°C - AFP/Arquivos

“É como se fôssemos a primeira geração vivendo a desesperança. A gente se vê sem opção. Se não atuarmos para mudar esse sistema econômico com falhas que levou o mundo ao colapso, não vamos ter futuro.” A declaração de Thiago Bopp, de 18 anos, estudante de Gestão Ambiental no Brasil, traduz o sentimento de milhões de jovens que estão entrando em greves escolares, tomando as ruas mundo afora ou tentando assumir espaços de negociações para lutar contra as mudanças climáticas.

Bopp é o exemplo de uma geração que considera a mudança climática a questão mais importante do nosso tempo, de acordo com uma pesquisa da Anistia Internacional, divulgada hoje para marcar o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

A pesquisa Futuro da Humanidade, realizada pela Ipsos MORI, é lançada ao mesmo tempo em que ocorre a 25ª Conferência do Clima da ONU, em Madri. O estudo ouviu mais de 10 mil pessoas de 18 a 25 anos em 22 países, incluindo o Brasil.

Os jovens opinaram sobre o estado dos direitos humanos em seu país e no mundo, quais questões consideram mais importantes e quem eles sentem ser os responsáveis por lidar com abusos. Em uma lista de 23 problemas, tiveram de escolher os cinco que consideram os mais importantes que o mundo enfrenta hoje. A mudança do clima foi citada por 41% deles; 36% escolheram a poluição e 31%, o terrorismo. Considerando apenas questões ambientais, 57% citaram o aquecimento global.

“É importante entender os sinais de alerta que essa pesquisa apresenta. O ponto mais citado globalmente por parte desses jovens é a questão climática. E nós, da Anistia Internacional, acreditamos que os eventos observados neste ano de 2019 mostram que os jovens estão vivendo dentro de um sistema falido”, disse Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, em comunicado à imprensa.

Bopp, que está em Madri acompanhando as negociações da COP, conta ter começado a se preocupar com o problema aos 15 anos. Hoje, ele colabora com uma organização chamada Youth Climate Leaders, que atua com educação climática e abertura de oportunidades de trabalho para jovens líderes. “Queremos um modelo novo, lutamos por um desenvolvimento real, que não leve o planeta ao caos”, diz o estudante.

“Acho que me preocupo com esse problema praticamente desde que nasci”, brinca a designer Daniela Borges, de 26 anos, que também está em Madri para entender melhor o processo de negociações da COP. Ela é uma das organizadoras no Brasil das Fridays for Future, movimento iniciado pela sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que há pouco mais de um ano começou a fazer greves às sextas-feiras para pedir que seu país aja contra as mudanças climáticas.

Engajamento

“Não consigo fazer nada hoje que não seja relacionado com isso. Com as Fridays for Future me identifiquei. Sentia que não tinha voz por ser muito jovem e entendi ali que é do meu futuro que estamos falando. Quem tem de ter o que falar sobre isso sou eu”, diz Daniela.

Giovanna Kuele, de 26 anos, veio à COP como profissional de uma organização que trabalha com a questão de clima e segurança, mas ecoa o sentimento dos mais jovens. “Atuo em Nova York e sempre nos chamam, os jovens, como elemento decorativo. O que a gente fala não é ouvido.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.