Negócios

Uma empresa sem comando?

A prisão de Wesley Batista, presidente da JBS, amplia as incertezas sobre a companhia e fortalece o cenário para a saída do clã do dia a dia da operação

Crédito: Felipe Rau/Estadão e Suamy Beydoun/Agif/Folhapress

Dois irmãos, um destino: Joesley (à esq.), com um terço nas mãos, e Wesley Batista no momento de suas respectivas prisões (Crédito: Felipe Rau/Estadão e Suamy Beydoun/Agif/Folhapress)

Maior processadora de carnes do mundo e principal operação da J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, a JBS vive uma situação extremamente delicada, na esteira de uma saga de escândalos e investigações sobre corrupção nas mais variadas esferas, envolvendo a já famosa dupla. Há duas semanas, mais uma turbulência com reflexos na operação do frigorífico veio à tona. Com duração de quase quatro horas, parte dos novos áudios entregues pelo grupo à Procuradoria-Geral da República (PGR) revelaram as táticas e manobras de Joesley nos bastidores para manipular as negociações de seu acordo de delação premiada e se livrar de qualquer punição. Depois de ter seu pedido de prisão decretado e colocar em risco, inclusive, o acordo de leniência da J&F, o empresário se entregou à Polícia Federal no dia 10, um domingo. E teve, na semana passada, seu acordo de colaboração revogado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Gilberto Tomazoni: Ex-CEO da Sadia e com passagens por empresas como Bunge e Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, Tomazoni chegou à empresa dos irmãos Batista em 2013 e, atualmente, é o presidente global de operações da companhia (Crédito:Divulgação)

Essa trajetória de risco ganhou um novo capítulo na manhã da quarta-feira 13, quando Wesley, presidente da JBS, foi detido e levado às dependências da Polícia Federal, na capital paulista. A prisão aconteceu dentro da 2ª fase da operação Tendão de Aquiles, que apura o uso indevido de informações privilegiadas em transações realizadas pelos dois irmãos, enquanto negociavam com a PGR. Eles são acusados de manipular o mercado financeiro, pelo fato de terem vendido ações que detinham na JBS, e comprado dólares no mercado futuro, obtendo lucros de pelo menos R$ 238 milhões. As suspeitas recaem sobre operações realizadas entre 24 de abril e 17 de maio, data na qual o acordo de colaboração da J&F tornou-se público, com denúncias que implicaram o presidente da República, Michel Temer, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, e os senadores Aécio Neves e José Serra, entre outros. No dia 18 de maio, sob o impacto do anúncio, as ações da empresa chegaram a cair 37%, enquanto a moeda americana teve uma valorização de 9%, a maior desde 1999. Joesley também foi alvo de um pedido de prisão preventiva dentro da investigação.

Tarek Farahat: atual presidente do Conselho de Administração da JBS, Farahat já atuou como presidente global de marketing e inovação da companhia, além de comandar as operações da Procter & Gamble no País (Crédito:Moacyr Lopes Junior/Folhapress)

A ausência inesperada de Wesley no dia a dia da JBS, presidida por ele desde 2011, reforçou as indefinições quanto ao futuro da empresa e da J&F. Até então menos visado pela Justiça, ele vinha liderando questões fundamentais para o futuro da holding, como as negociações para a venda de ativos e o alongamento das dívidas com bancos. À parte das lambanças do clã, o empresário, de perfil mais discreto que o irmão, é reconhecido no mercado como um gestor competente. E, no curto prazo, não há um consenso a respeito de um nome que possa substituí-lo no comando do frigorífico. “O Wesley é visto como a cabeça centrada dos irmãos. Desde que assumiu a JBS, ele modernizou e trouxe mais eficiência para a operação”, diz um executivo do setor. “Já o Joesley é ousado, não mede os riscos para alcançar o que quer e ficou envaidecido com a proximidade do poder. Ele e é exatamente aquilo que está nas gravações da delação.”

Cledorvino Belini: em 44 anos na Fiat, Belini ocupou, entre outros cargos, a presidência da montadora na América Latina. Ao anunciar, em junho, sua aposentadoria disse que seguiria na ativa como consultor de gestão (Crédito:Pedro Dias)

Na sede da companhia, em São Paulo, a notícia trouxe um clima de intranquilidade. Enquanto Wesley prestava esclarecimentos na Polícia Federal, membros da alta cúpula da companhia começaram a discutir as medidas a serem tomadas diante da situação. Na sequência, eles reuniram cerca de 50 diretores para tentar acalmar os ânimos e, principalmente, manter as operações rodando, com o mínimo impacto possível. No fim da tarde, foi a vez do Conselho de Administração da JBS se reunir para ficar a par dos acontecimentos e discutir possíveis alternativas. No entanto, apesar de alguns nomes ventilados, não houve nenhuma deliberação sobre quem poderia assumir, mesmo que interinamente, o cargo. A princípio, a JBS trabalha em compasso de espera. E o fator crucial para qualquer definição é o prazo que Wesley permanecerá atrás das grades.

Wesley Batista Filho: ingressou na JBS em 2010, como trainee. nos anos seguintes, liderou os negócios no Paraguai e no Uruguai. hoje, comanda a divisão de carne de boi nos Estados Unidos (Crédito:Divulgação)

Na quinta-feira, Pierpaolo Bottini, advogado dos irmãos Batista, entrou com um pedido de habeas corpus para revogar as prisões preventivas decretadas pelo juiz João Batista Gonçalves, da 6ª Vara Criminal Federal, em São Paulo. Um dia depois, a liminar foi negada. Em nota, Bottini afirmou que vai recorrer da decisão. “O retorno do Wesley é a primeira opção na mesa”, diz uma fonte próxima à empresa. Seja qual for a decisão sobre o habeas corpus, o espaço de Wesley e da família no futuro da operação parece já estar traçado. “Se ele voltar, tudo indica que será para negociar uma saída mais honrosa, pensada e estruturada”, diz uma fonte a par das discussões. A empresa, ao que parece, tem um corpo de executivos e técnicos capazes de tocar o negócio sem os donos. Um fatores que reforçam essa visão foi a reação positiva do mercado financeiro após a prisão de Wesley.

Na quarta-feira, as ações da empresa fecharam cotadas a R$ 8,27, o que representou uma alta de 2,35%. Com picos acima desse índice, a tendência foi mantida no dia seguinte e durante o pregão da sexta-feira. “Esses números refletem a expectativa de troca do comando e, especialmente, da saída da família da gestão”, diz Pedro Galdi, analista de investimentos da Magliano Corretora. “Os Batista precisam passar o bastão. Esse é o recado que está sendo dado pelo mercado.” Mais que uma visão restrita ao mercado de capitais, os últimos acontecimentos dão força aos argumentos do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Detentor de uma fatia de 21,32% na JBS, o banco é a cabeça por trás de uma frente de acionistas minoritários que defendem a saída do executivo da presidência da companhia. Com a notícia da prisão, o BNDES divulgou uma nota afirmando que, seja qual for o desenrolar dos fatos, “contribuiria para o melhor interesse da companhia e para a sua preservação e sustentação, o início de uma renovação de seus quadros estatutários, inclusive com a abertura de um processo seletivo para a escolha de um novo CEO, em caráter definitivo”.

Gilberto Xandó: Conselheiro da JBS desde junho deste ano, quando assumiu a cadeira de Joesley Batista, Xandó foi diretor-presidente da Vigor e tem ainda no currículo empresas como Sadia e Natura (Crédito:Carol Carquejeiro/ Valor)

Se as decisões da Justiça apontarem para a necessidade da nomeação de outro presidente para a JBS, a busca, a princípio, não passará por executivos de mercado e sem nenhuma ligação com a companhia ou mesmo com a J&F. Sob essa ótica, não está descartada que outros membros do clã Batista assumam o bastão. Entre os nomes ventilados no mercado está o do primogênito José Batista Júnior, mais conhecido como Júnior Friboi. Outra alternativa seria Wesley Batista Filho, jovem que comanda as operações de carne de boi da JBS nos Estados Unidos. No entanto, essas opções são vistas como pouco prováveis, já que não seriam capazes de aplacar o descontentamento dos acionistas minoritários e a imagem abalada do frigorífico no mercado. “Mas isso não significa que a família vai largar o osso assim tão fácil”, diz uma fonte a par das discussões. “Qualquer nome terá que passar pela aprovação deles.”

Nessa direção, a lista de possíveis candidatos internos à sucessão é extensa. Um dos favoritos é Gilberto Tomazoni, que atualmente comanda as operações internacionais da JBS. Entre os pontos a favor do executivo estão o fato de ser um nome de confiança de Wesley, além da sua experiência comprovada no setor, com passagens, por exemplo, pela presidência da Sadia. De perfil similar, Gilberto Xandó, também estaria no páreo. Ele atuou como presidente da Vigor, vendida recentemente pela J&F para o grupo mexicano Lala, e, desde junho, é um dos conselheiros da JBS. Tarek Farahat, atual presidente do Conselho de Administração da companhia, é outro nome que corre por fora. Ele trabalhou 26 anos na Procter & Gamble, onde ocupou, entre outros cargos, a presidência na América Latina.

José Batista Júnior: Primogênio do clã Batista, o empresário, também conhecido no mercado como Júnior Friboi, presidiu a JBS por mais de vinte anos. Depois de se afastar da companhia, tentou, sem sucesso, engatar uma carreira na política (Crédito:Rafael Hupsel/ Agência Istoé)

Para os analistas consultados pela DINHEIRO, há consenso sobre a necessidade de afastar a família das tomadas de decisões estratégicas e profissionalizar a gestão da JBS . Eles divergem, no entanto, acerca do melhor caminho para resolver essa equação. A escolha de um nome interno é uma dessas correntes. E o fato de a companhia ter um histórico de gestão muito personalizada nos irmãos Batista é o principal argumento. “Empresas que seguem esse modelo têm um grande ativo e, ao mesmo tempo, um grande risco nas mãos. E a situação atual da JBS é exatamente uma prova dessa abordagem”, afirma Luiz Marcatti, sócio-fundador da consultoria Mesa Corporate Governance. “Dada a urgência de uma reviravolta, o caminho menos drástico seria um executivo com conhecimento da operação, do tamanho da encrenca e dos meandros do setor.”

Na contramão dessa vertente, outros analistas acreditam que um nome de fora da operação, completamente apartado de qualquer ligação com os escândalos da JBS, seria a trilha mais viável para recolocar a empresa nos eixos. Dentro desse perfil, a principal aposta do mercado recai sobre Cledorvino Belini, que anunciou recentemente sua saída da Fiat, após uma carreira de 44 anos na montadora. “Essa pessoa não precisa, necessariamente, ter conhecimento do mercado de atuação da JBS”, diz Fábio Astrauskas, CEO e fundador da consultoria Siegen. Ele ressalta que, à parte dos problemas causados à operação, a família teve o mérito de formar um time técnico de qualidade, capaz de apoiar e executar as estratégias traçadas por um executivo “de fora”. Para o analista, o mais importante é que o escolhido tenha na bagagem uma experiência reconhecida em grandes processos de reestruturação. E, em especial, em um ambiente de forte restrição de fluxo de caixa, semelhante ao que vive o frigorífico atualmente. “Essa é, de fato, a questão crucial para definir a sobrevivência da JBS.”