Economia

Uma dose de paciência

Voto de confiança dos investidores ao governo Bolsonaro resiste aos desencontros e recuos da nova administração, mas a curva de aprendizado não pode se prolongar

Uma dose de paciência

Nova direção: o ministro da Economia, Paulo Guedes, na cerimônia de posse dos comandantes dos bancos públicos, ato que contou com a presença do presidente Bolsonaro, do vice Mourão e do ministro Onyx Lorenzoni

Enquanto tentam entender mais a fundo a agenda econômica do governo Jair Bolsonaro (PSL), analistas são surpreendidos por uma sucessão de desencontros. A nova gestão começou assim: num mesmo dia o presidente anunciou aumento de impostos, o ministro da Casa Civil confirmou que o decreto havia sido assinado e o chefe da Receita Federal foi a público desmenti-los. A inexperiência do time vai se escancarando e passa a ser usada pelos próprios integrantes como forma de aliviar a pressão da opinião pública. Não há figura que expresse melhor essa controvérsia do que Onyx Lorenzony, o nome mais importante da articulação política. Envolvido em suspeitas de corrupção, ele passou a ser uma das principais fontes de instabilidade no Palácio do Planalto, ao passar mensagens confusas que se chocam com as áreas econômica e militar. “Muitos dos nossos colegas, inclusive eu, não têm experiência no poder Executivo”, afirmou Lorenzony em entrevista à rádio Jovem Pan, na quarta-feira 9. “Até que todas as peças da engrenagem se ajustem, vai levar um tempo. Tem de ter paciência com nós.”

Por enquanto, o ministro da Casa Civil não precisa se preocupar. O sentimento predominante ainda é de otimismo. Os índices de confiança se mantêm em alta, a expectativa de crescimento do PIB se sustenta acima do patamar do ano passado e o mercado responde com entusiasmo a uma agenda econômica ainda virtual. O Ibovespa, principal índice de ações da bolsa brasileira, vem batendo recorde atrás de recorde. Na quarta-feira 9, rompeu a barreira dos 93 mil pontos pela primeira vez na história, ao experimentar uma alta de 1,72%. O dólar, outro termômetro do humor dos investidores, recuou 1%, abaixo de R$ 3,70 no mesmo dia. Tudo isso enquanto o governo produzia outro recuo, desta vez sobre uma alteração no edital dos livros didáticos, num episódio ainda mal explicado.

A complacência do mercado tem base histórica. A mudança de governo tende a gerar otimismo e um período conhecido como lua-de-mel, que dura cerca de seis meses. “O que se passou até agora ainda é um período muito curto e não houve desgaste”, afirma o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani. “A lua-de-mel ajuda a atrair apoio no Congresso, mas é temporária. O governo deve aproveitar a janela de oportunidade para aprovar uma reforma fundamental.” A maior expectativa se dá em torno do texto que será apresentado pelo governo para as mudanças na Previdência, a principal fonte de distorções das contas públicas e maior responsável pelo déficit federal persistente.

A equipe econômica trabalha nos últimos detalhes da proposta, que deve contemplar a ideia da capitalização defendida ao longo da campanha, ao permitir o investimento do dinheiro poupado por cada contribuinte, e deve prever um período de transição menor do que no texto enviado pelo governo anterior. A versão final deve ser apreciada pelo presidente Bolsonaro nesta semana. Ela foi acertada em reunião feita entre a ala política, representada por Lorenzony, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, no início da última semana.

CHOCOLATE O ministro da Casa Civil chegou a levar uma caixa de chocolates ao comandante da equipe econômica, ao se deslocar até a antiga sede do Ministério da Fazenda. O ato representa uma deferência pelo articulador político, já que normalmente são os outros ministros que vão até o Palácio do Planalto para se reunir com o representante da Casa Civil. Após as rusgas da primeira semana, Bolsonaro também fez um aceno público a Guedes. No evento da posse dos presidentes dos bancos públicos, na segunda-feira 8, o presidente afirmou que o superministro “entende muito mais de economia do que eu”. Chocolates e afagos à parte, não é de hoje que o discurso político caminha em direção oposta às ideias econômicas no grupo de Bolsonaro. Durante a campanha, ele e Lorenzony deixaram escapar algumas vezes que as mudanças na Previdência não poderiam ser radicais.

Um governo, muitas vozes: para sinalizar sintonia, Lorenzony, da Casa Civil, leva chocolates ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Ao lado, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes, confirmou a intenção do governo privatizar 100 estatais

O alinhamento entre as duas esferas é importante para garantir solidez na negociação com o Congresso Nacional. A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) exige duas votações na Câmara e no Senado e precisa de maioria qualificada em ambas as casas. “Sobre a reforma da Previdência, não se ouviu nada de concreto do governo ainda. Não estão levando a sério a importância do tema”, afirma a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianatto. “Medidas como posse de arma são importantes, mas não vitais para o governo.” Na avaliação da analista, a ausência de anúncios nos primeiros dias de governo é frustrante. “Só vimos cabeçadas, desencontros e falta de liderança. Era o momento de ter anunciado ao menos uma medida forte, que esperávamos já tivesse sido alinhavada na transição.”

PRIMEIRAS MEDIDAS O que há de mais concreto no forno é um pente-fino sobre as concessões de benefícios do INSS. São medidas focadas para rever indícios de fraudes, que já haviam sido adotadas pelo governo Michel Temer e que se mostraram exitosas. Agora, porém, há dúvidas se elas poderiam ter a mesma eficácia e alcançar a economia prevista pela nova equipe, em torno de R$ 20 bilhões. Enquanto os anúncios não se concretizam, os analistas se fiam nas sinalizações que reforçam a nova direção do governo. A mais clara delas é a redução do tamanho do Estado. O governo ainda revisa o que pode vender ou liquidar na lista das 138 estatais federais. Segundo o ministro da Infraestrutura, Tarcisio de Freitas, é possível desestatizar até 100 empresas, sobretudo subsidiárias de conglomerados, como Eletrobras e Banco do Brasil.

Os novos presidentes dos bancos públicos deixaram claro que vão trabalhar para se desfazer de alguns ativos e apontaram ainda outras alterações na forma de trabalho. O foco será diminuir o peso dos subsídios no crédito, priorizar as médias e pequenas empresas, finalizar o pagamento de dívidas com a União, numa conta que pode ultrapassar R$ 80 bilhões. Além disso, a mensagem que os novos dirigentes tentaram passar é de que haverá um esforço adicional para aumentar a transparência na gestão e nas concessões. O recado ficou ofuscado pela revelação da promoção feita pelo Banco do Brasil ao filho do vice-presidente Hamilton Mourão. Funcionário de carreira do banco estatal, ele foi elevado à assessor da presidência da instituição, com o salário três vezes maior: R$ 36 mil.

Na questão do financiamento, as novas gestões devem trabalhar para reduzir o custo de subvenções da União, no chamado crédito direcionado, com taxas de juros mais baixas, como as do Plano Safra. Em 2017, o governo federal destinou R$ 84,3 bilhões em benefícios creditícios e financeiros. “O mercado brasileiro de crédito também está estatizado e sofreu intervenções extremamente danosas para o País”, disse Guedes, na cerimônia de posse, na segunda-feira 2.

O novo presidente da Caixa, Pedro Guimarães, sinalizou que a classe média terá de pagar mais para obter o financiamento imobiliário no banco estatal. A declaração causou polêmica. E ele tentou esclarecer que se tratava apenas de uma comparação com os juros do programa Minha Casa, Minha Vida nas faixas mais baixas. Entre falas desastrosas e desencontros, sobra confiança nas ideias. As próximas semanas mostrarão se a lua-de-mel continua ou acaba.