Negócios

Uma Autolatina global

Volkswagen e Ford anunciam negociação de um acordo operacional mundial, lembrando a joint venture que administraram de 1987 a 1996 no Brasil. Os planos, ainda misteriosos, envolvem as categorias de vans e veículos comerciais. Mas até onde elas podem ir numa integração?

Entre 1987 e 1996, a americana Ford e a alemã Volkswagen atuaram nos mercados brasileiro e argentino com uma joint venture, batizada de Autolatina. No acordo, as montadoras compartilharam as operações e lançaram veículos similares, oriundos das mesmas plataformas de produção. A carroceria e o acabamento eram diferentes, mas, de resto, o Versailles, da Ford, e o Santana, da VW, eram idênticos, no que diz respeito ao motor e à parte mecânica. As companhias, dessa forma, dividiam custos e buscavam ganhar com os pontos fortes uma da outra. Esse período, pouco conhecido na história mundial das duas empresas, foi relembrado no Brasil por conta de um anúncio.

A Ford, reconhecida como a criadora da linha de montagem, e a Volkswagen, um orgulho da engenharia alemã, divulgaram na terça-feira 19, que assinaram um memorando de entendimentos para uma aliança estratégica global. A dupla produz 17 milhões de carros por ano, superando a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, com 10,61 milhões de veículos. “As demandas do mercado e dos clientes estão se modificando a uma velocidade incrível”, afirmou Thomas Sedran, diretor de estratégia da Volkswagen. “A potencial colaboração industrial é uma oportunidade para melhorar a competitividade global das duas companhias.”

Os termos da aliança ainda são desconhecidos. A negociação não envolveria, num primeiro momento, acordos acionários, como participações cruzadas. Tampouco há alguma menção sobre a criação de uma joint venture para alguma linha de produtos. Mas especialistas do setor defendem que, se não houvesse conversas avançadas, um anúncio desse porte não teria sido realizado. O comunicado divulga, no entanto, que há estudos para potenciais projetos em várias áreas, incluindo o desenvolvimento conjunto de uma linha de veículos comerciais.

“Estamos ansiosos para analisar nos próximos dias com a equipe da Volkswagen como trabalhar juntos para atender às necessidades em evolução dos clientes de veículos comerciais, e muito mais”, disse Jim Farley, presidente de mercados globais da Ford. É uma categoria de produtos em que o mercado está desguarnecido. Especialmente após o término da produção da Kombi, um dos grandes sucessos da história da companhia alemã, e que acabou descontinuada em 2013, devido a dificuldades de adaptação às exigências atuais de segurança veicular.

Nessa categoria de vans, a Volkswagen importa o Transit para o Brasil. O seu maior volume de vendas no segmento de comerciais leves, porém, vem da Saveiro e da Amarok. Já a Ford tem a Ranger. No Brasil, as duas companhias têm, nesse nicho, participação de mercado combinada de 23%, o que as deixa na segunda posição, atrás da Fiat (confira quadro). “Acredito que esse acordo tenha muito mais impacto em outros mercados do que no próprio Brasil, mas ainda vai demorar um tempo para vermos os reais desdobramentos”, afirma Fernando Trujillo, consultor da IHS Markit. Segundo o especialista, o fato de Sedran ter sido o executivo responsável pela divulgação do acordo pela Volkswagen indica que as empresas devem cooperar no desenvolvimento de serviços de mobilidade.

Sedran tem sido o encarregado pela estratégia de transformar a companhia alemã de uma montadora tradicional de veículos para uma organização de mobilidade. O movimento resultou na criação de uma divisão voltada ao tema, a Moia, com a missão de gerar negócios de “alguns bilhões de euros” em alguns anos”, e competir com a Uber. A meta da empresa é a de que os carros dessa divisão substituam 1 milhão de veículos nas cidades da Europa e EUA até 2025. “O impacto do veículo autônomo e a transformação da indústria automotiva provavelmente trará um foco significativo no médio e longo prazos sobre ambas empresas no segmento de comerciais leves e veículos de compartilhamento tanto de passageiros como de carga”, diz Trujillo. “A aliança me parece bastante interessante na redução de custos em desenvolvimento e compras, o que é uma tendência das montadoras globais.”

O desafio será unir o melhor das companhias. A Volkswagen tem mais expertise em motores, mas, em termos de elétricos e híbridos, a Ford está um pouco à frente, defende Milad Kalume Neto, especialista no setor da companhia de informações automotivas Jato. “Elas podem desenvolver, em conjunto, plataformas que nortearão cada uma das empresas para o futuro”, diz. Ainda é difícil prever a extensão dessa aproximação. Apesar de serem competidoras diretas em veículos de passeio, há diversas complementaridades entre as empresas.

Principalmente regionais. Líder na Europa, a Volkswagen é a montadora ocidental que melhor conseguiu explorar o mercado chinês, mas tem dificuldade de operar no EUA. E foi lá que estourou, em 2015, o escândalo dieselgate, exatamente junto a seus veículos comerciais, como o Amarok, que tinham software que adulteravam o registro de emissões de poluentes. O escândalo continua trazendo desdobramentos. Na segunda-feira 18, Rupert Stadler, presidente da Audi, uma de suas marcas, foi preso, acusado de ocultar provas.