Economia

Um tombo para não esquecer

Perspectiva de que o PIB brasileiro pode ficar negativo em 6% este ano é dramática. E, por isso mesmo, serve de alerta para a busca de dias melhores.

Crédito: Epitácio Pessoa

"O investidor estrangeiro aceita um nível mais alto da dívida bruta sobre o PIB, desde que haja um plano de saída” Paulo Leme chairman do comitê global de alocação da XP Private. (Crédito: Epitácio Pessoa)


O potencial de retração na casa dos 6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro por si só parece o fundo do poço de uma década marcada por recessões, tensões políticas e tragédias. Se isso tudo é ruim, a expectativa da pior recessão do País em períodos democráticos traz a oportunidade de que os erros do passado ajudem a construir um caminho economicamente sustentável para o futuro. Segundo previsão da XP Investimentos, depois do tombo de 6% em 2020, o PIB poderá crescer 2,5% em 2021 — cifra que seria maior do que a média da década que se encerra em 2020. Isso, no entanto, só se dará sob algumas condições: êxito no ajuste fiscal, discurso uníssono entre os gestores públicos e rapidez no combate aos efeitos do novo coronavírus.

Para Paulo Leme, que assumiu recentemente como chairman do comitê global de alocação da XP Private, há uma preocupação global com os caminhos da economia brasileira, principalmente no que diz respeito à governança. “O mercado sempre responde bem a um direcionamento, a um sinal de que todos estão comprometidos com um programa e com um cronograma de implementação. Esse é o primeiro passo”, afirmou Leme, em live promovida pela XP na segunda-feira 18. O executivo, que também foi CEO da Goldman Sachs no Brasil e membro do Fundo Monetário Internacional (FMI), defende a criação de um plano de saída para o ponto de vista fiscal, para que os gastos extras de 2020 não se alastrem. “Acho que o investidor estrangeiro está disposto a aceitar um nível mais alto da dívida bruta sobre o PIB, desde que tenha um plano de saída”, disse.

QUEDA DIFERENTE Professor de macroeconomia e doutor em Finanças Públicas pela Universidade de São Paulo (USP), Carlos Faria analisa que, apesar do momento desafiador, o Brasil poderia ter uma retomada ágil. “Diferentemente das outras recessões recentes, neste momento o mundo inteiro está em declínio”, disse ele. Nessa linha de pensamento, a retomada econômica se dará em escala global, reabrindo o mercado e as demandas dos países. “O que não podemos é, enquanto o mundo se recupera, estar discutindo isolamento. A recessão será mais duradoura se perdermos a onda da retomada,”

Para evitar esse problema, o caminho é mais diálogo e abertura entre os Poderes, fator decisivo para a estimativa de alta de 2,5% do PIB em 2021. Para este ano, analistas dizem haver dificuldades na condução política, o que levanta dúvidas sobre a rapidez no combate à pandemia e planos de retomada econômica. Se o tombo no curto prazo é dado como certo, os cenários de médio e longo prazo ainda podem ser mudados.