Negócios

Um tiro no escuro

A flexibilização do comércio de armas no Brasil gerou euforia e frustração a fabricantes e eleitores do presidente Jair Bolsonaro. Especialistas afirmam que, apesar da falta de clareza sobre o futuro do setor, há grandes perspectivas de crescimento e de novos investimentos

O polegar em riste e o dedo indicador simulando o cano de um revólver. O gesto tantas vezes repetido durante a campanha da última eleição presidencial se tornou um dos maiores símbolos de Jair Bolsonaro e de seus apoiadores. Logo nos primeiros dias de seu mandato, o agora presidente da República tratou de mostrar que as mãos em forma de uma pistola não eram um mero jogo de cena. Em 15 de janeiro, ele sacou sua já famosa caneta para assinar um decreto que flexibilizou a posse de armas no Brasil. “Essa é uma medida para que o cidadão de bem possa ter sua paz dentro de casa”, afirmou. Alvo de críticas, a iniciativa foi vista como um primeiro passo em direção a futuras discussões e polêmicas em torno da liberalização do porte e das condições de compra de armamentos. Além das incertezas quanto aos reflexos dessas políticas em um país com altas taxas de mortes por armas de fogo, a medida abre caminho para que o novo governo cumpra outra promessa: a abertura do mercado às fabricantes estrangeiras do setor. “Isso está em estudo. A gente sempre lembra de que deveria haver a instalação de fábricas aqui no Brasil. Na maioria dos países, essa é uma condicionante para a competição”, disse Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil.

A brasileira Taurus, que detém na prática o monopólio do mercado brasileiro de armas leves, não saiu ilesa nesse tiroteio. Depois de acumular uma alta de 131% em 2018, as ações da empresa encerraram o pregão de 15 de janeiro com um recuo de 22%. A possível entrada de concorrentes estrangeiros parece não ser o único fator por trás dessa queda. “A Taurus tem problemas de qualidade e de reputação. E vem sendo criticada há tempos pelos órgãos de segurança pública, por meio de ações na Justiça, sob a alegação de venda de armas com defeito”, diz uma fonte do setor. Procurada, a companhia liderada pelo presidente Salesio Nuhs afirmou, em nota, que exporta para mais de 85 países e compete com as maiores empresas do setor. E que, por isso, “não tem razão para temer qualquer tipo de concorrência”. Hoje, 67% das receitas da Taurus são geradas em solo americano. O grupo acrescentou que o problema está nas políticas tributárias e regulatórias que permitem que as multinacionais exportem para o Brasil sem pagar impostos, criando uma concorrência desleal. E desafiou: “Por que essas empresas não vêm produzir aqui no Brasil, pagar impostos e gerar empregos para os brasileiros?”

Pronta para a guerra?: a brasileira Taurus, do CEO Salesio Nuhs, que detém praticamente um monopólio no País, afirmou que não tem razão para temer as multinacionais

Se, nos Estados Unidos, a Taurus enfrenta uma série de rivais, no Brasil a empresa se acostumou a atuar em um cenário fortemente protegido. Com uma série de restrições à compra de armas pelos cidadãos, boa parte das vendas é estatal, para as forças de segurança pública, via licitação. Esses processos são regulados e autorizados pela Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlado do Exército (DFPC). E uma legislação da década de 1930 proíbe a importação de produtos caso exista algum modelo similar fabricado no País.

Diante das perspectivas da mudança nesse contexto, algumas multinacionais já manifestaram o interesse de desembarcar no Brasil. Ao que tudo indica, o estado de Goiás surge como um provável polo de produção. A tcheca CZ é uma das empresas que estuda a instalação de uma fábrica na região, assim como a Caracal, dos Emirados Árabes Unidos, que chegou a lançar a pedra fundamental de uma unidade que seria construída em Anápolis, com um aporte inicial estimado em US$ 100 milhões. O projeto em questão, no entanto, não saiu do papel.



Arsenal: o mercado aguarda medidas para facilitar a compra de produtos em lojas como a Inter Art Camping e Pesca, em São Paulo (à esq.). O cenário mais favorável já atrai multinacionais como a CZ (ao centro) e a Caracal

Parceira na empreitada, a brasileira DFA seguiu com a iniciativa e planeja iniciar a produção nesse primeiro trimestre, com a previsão de gerar 1,2 mil empregos diretos e indiretos. Para isso, fechou um acordo inicial com a Arex, da Eslovênia. A austríaca Glock é mais um nome que teria planos de fabricação local. Em 2006, a companhia anunciou a construção de uma unidade em Minas Gerais, que não se concretizou em função de uma série de exigências feitas pelo governo na época. Nos bastidores, a razão apontada foi um suposto lobby contrário da Taurus. No momento, porém, o setor parece viver em compasso de espera dos próximos movimentos do governo. Procuradas, todas as empresas mencionadas não retornaram os pedidos de entrevista da DINHEIRO.

10 MIHÕES DE ARMAS Outros componentes explicam essa movimentação. O primeiro deles é a insatisfação das forças de segurança pública em relação ao produto nacional. Nesse segmento, a estimativa é de uma base atual de 10 milhões de armas. “As compras estatais são um grande filão. E o aumento das licitações é uma tendência, não apenas no âmbito federal”, diz Daniel Domeneghetti, CEO da consultoria Dom Strategy Partners, em uma alusão ao alinhamento de governos estaduais como o de São Paulo e do Rio de Janeiro no reforço do aparato de segurança. Outro elemento é o número relativamente baixo de armas de fogo nas mãos de civis — estimado em cerca de 600 mil.

Na mira: Glock, da Áustria (à esq.), é mais uma fabricante de olho no mercado local. A suíça Ruag, por sua vez, suspendeu seu projeto de fabricar munições no País

“Há um mercado potencial enorme que vem sendo impulsionado pela sensação de insegurança e pelas ideias propagadas pelo governo”, afirma Carlos Caldeira, professor de estratégia do Insper. “E com a provável entrada de novas empresas a tendência natural é de queda nos preços dos produtos, eliminando outra barreira para o aumento das vendas.” O provável lobby para a flexibilização do porte e a redução dos impostos para os consumidores, mais uma questão citada por Lorenzoni, também reforça esse contexto. Em conjunto com projetos de lei em tramitação no Congresso que tratam de diversas alterações na compra desses produtos. Uma das principais propostas é o PL 3.722/2012, de autoria do deputado Rogério Mendonça (MDB-SC) que, entre outros elementos, propõe a revogação do Estatuto do Desarmamento.

Todos esses fatores desenham um cenário favorável para as multinacionais. Ao mesmo tempo, com o provável aumento do número de armas em circulação, as consequências para a sociedade como um todo são controversas. “Há um fortalecimento do discurso de que essa seria a solução para reduzir o número de crimes, quando uma série de pesquisas mostra que é exatamente o contrário”, diz Melina Risso, diretora do Instituto Igarapé e especialista em segurança pública. “Precisamos cuidar para que não haja um desmantelamento do Estatuto do Desarmamento, mas para que ele seja, efetivamente, aplicado e, mesmo com as flexibilizações, os mecanismos de controle e de fiscalização funcionem.”

O risco de investir nessa abertura sem as devidas precauções também é destacado por Ellen Pompeu, sócia-diretora da ICTS, empresa de consultoria e gestão em segurança. “Há uma onda embalada pela campanha de Bolsonaro que aqueceu essa vontade nos cidadãos. Nosso grande receio é estimular esse uso com a falsa sensação de que basta duas aulas em um estande de tiros para estar apto a manusear uma arma.” afirma a executiva. Polêmicas à parte, a suíça Ruag, que tinha um projeto aprovado para instalar uma fábrica de munições em Pernambuco, suspendeu o projeto. Em nota, a empresa afirmou que seguiu a recomendação do governo suíço, seu maior acionista. A companhia não quis ser associada ao contexto incerto e complexo da segurança no Brasil.

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