Negócios

Um tiro certeiro

Registro de armas quase triplica após flexibilização e anima a Taurus, mas confronto da União com STF pela isenção do imposto de importação gera incerteza.

Crédito: ClickPRO Fotografia

Desde a chegada do capitão ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2019, quase 274 mil novas armas foram registradas na Polícia Federal, alta de 183% em relação a 2018 e 2017 (96,5 mil). Os dados animam o executivo Salesio Nuhs, presidente da Taurus. A fabricante brasileira de armas de fogo detém 80% do mercado nacional, além de ter se tornado, há dois anos, a maior exportadora para os Estados Unidos. “O plano estratégico é tornar a Taurus a maior empresa de armas leves do mundo em um prazo de cinco anos”, afirmou à DINHEIRO o executivo.

A companhia expandiu as ações com o início da ampliação do parque fabril em São Leopoldo (RS) e a assinatura de duas joint venture em 2020. No Brasil, com a Joalmi, em Guarulhos (SP), visa a produção de carregadores. A companhia estima que entre resultados operacionais e redução de custo o projeto poderá gerar mais de R$ 100 milhões nos próximos cinco anos. Na Índia, com o conglomerado Jindal Group, o acordo inclui também a transferência de tecnologia – com início da fabricação previsto até o fim do ano.

O mercado internacional é decisivo. Responde por 90% das vendas da Taurus. Em 2019, a empresa exportou 763,3 mil armas para cerca de 100 países, fazendo receita de R$ 522,5 milhões. “Vamos produzir 2,2 milhões de armas, todas já vendidas para o Brasil e para o exterior”, disse Nuhs. Os Estados Unidos são responsáveis por grande parte desse montante. O País é o principal importador de armas da companhia brasileira.

A performance positiva junto ao mercado externo não elimina as atenções ao mercado interno. O que fica prejudicado com a intenção do governo Bolsonaro de zerar o imposto de importação de armas, atualmente em 20%. Uma liminar do ministro Luiz Edson Fachin, do STF, suspendeu a medida em dezembro, com a justificativa de que cabe ao Estado reduzir a necessidade de armas de fogo, por meio de políticas de segurança pública. O julgamento do caso ainda será retomado.

RESULTADOS Polêmicas à parte, a Taurus trabalha a todo vapor praticamente sem concorrentes no País. E o sucesso nos negócios fica evidente pelos resultados operacionais no período entre janeiro e setembro de 2020. A produção atingiu 1,1 milhão de unidades nas duas fábricas, no Brasil e nos Estados Unidos. As vendas chegaram a 1,2 milhão de armas, volume 28,4% superior ao mesmo período de 2019. A receita operacional líquida foi de R$ 1,2 bilhão, 21,3% maior do que a registrada durante todo o ano anterior e 66,8% superior aos três primeiros trimestres de 2019. O lucro líquido chegou a R$ 102,2 milhões. E o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) totalizou R$ 305,5 milhões, 25,2% acima do computado nos nove meses iniciais do ano anterior.

MERCADO EM CRESCIMENTO Nuhs afirma que, para 2021, a Taurus já tem vendidas 2,2 milhões de armas no Brasil e nos Estados Unidos. (Crédito:Clayton de Souza )

É fato que a companhia tem em Bolsonaro quase um embaixador de uma população mais armada, mas ao mesmo tempo alguém que pode atrapalhar a estratégia doméstica zerando imposto de importação. “Existem incertezas sobre o que pode acontecer com o nosso setor nos próximos meses”, afirmou o executivo da Taurus.

Além disso, há forte pressão da sociedade civil organizada contra a liberalidade bélica. O Instituto Sou da Paz expressou indignação com os novos decretos que facilitam o acesso às armas de fogo. Em nota, a instituição afirmou que já foram publicados mais de 30 atos normativos nos últimos dois anos que levaram ao aumento recorde de armas em circulação, “contrariando todos os cientistas que dizem que o fato levará a uma tragédia de perda de vidas e deterioração democrática.”

183% alta no registro de novas armas em 2020/19 sobre 2018/17

O advogado Émerson Tauyl, do escritório Tauyl & Jardim Sociedade de Advogados, vê com naturalidade o aumento da procura de armas de fogo por parte do cidadão comum. Especializado em Direito Criminal, vai por outro caminho e afirma que a população tem buscado a posse e o porte de arma para defesa pessoal, da família e da propriedade. O problema, segundo ele, é a dificuldade de controle nas fronteiras. “A criminalidade tem um mercado paralelo. Não há controle”, afirmou.

Em meio a esse fogo cruzado, a Taurus segue em frente. Para atender à demanda crescente, a companhia investe anualmente 12% da receita líquida – cerca de R$ 20 milhões – em pesquisa e desenvolvimento de produtos e foca fortemente também na infraestrutura. A ampliação da fábrica no Sul, com o objetivo de aproximar fornecedores estratégicos, receberá investimento de R$ 110 milhões. Será um verdadeiro complexo produtor. Seja para o mercado externo ou interno.

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