Economia

Um povo refém dos juros

Um estudo exclusivo da Fecomercio-SP mostra que o pagamento de juros corrói 10,8% da renda média das famílias brasileiras. O custo dos financiamentos, de R$ 354,7 bilhões, é maior do que o gasto com itens como restaurante, aluguel e plano de saúde

Crédito: Paulo Vitor / Estadão Conteúdo / AE

Crédito caro: a queda da Selic demorou a chegar ao consumidor, e o aumento do consumo e das opções de financiamento fizeram os juros pesarem mais (Crédito: Paulo Vitor / Estadão Conteúdo / AE)

A vendedora Valquíria dos Santos, 33 anos, representante de uma empresa de materiais de combate a incêndio, sediada na zona Leste de São Paulo, desde agosto do ano passado vive em uma espécie de calvário financeiro. Depois de ser demitida de sua antiga empresa, onde ganhava cerca de R$ 5 mil por mês, não deu conta de quitar as faturas de seus três cartões de crédito – um do Bradesco, um do Santander e outro da rede varejista Casas Bahia. Mesmo conseguindo um novo trabalho, com renda de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil, somando fixo e comissões, teve de escolher entre comer e pagar o aluguel ou seguir custeando os juros mensais da dívida, estimada atualmente R$ 6 mil.

“O valor a pagar inicial, de R$ 1,3 mil, dobrou em quatro meses”, disse Valquíria, que hoje tenta renegociar com os bancos, enquanto observa seu endividamento crescer a um ritmo, segundo ela, impagável. “Toda vez que tento solucionar o problema, percebo que os bancos querem mesmo é que eu continue afundada na dívida, dando a eles mais de R$ 600 por mês em juros.” O drama de Valquíria é semelhante ao da representante comercial paulistana Patrícia Peixoto, 44 anos, que caiu no cheque especial e no rotativo do cartão de crédito depois que a recessão reduziu suas vendas em 70% no ano passado. “Com meu salário atual, de R$ 1,5 mil por mês, quase não consigo cobrir os juros de uma dívida que era de R$ 2 mil, no ano passado”, afirma. “Se eu fosse pagar tudo, viveria só para os bancos.”

Altamiro Carvalho, economista da Fecomercio-SP: “Com certeza, somos os únicos no mundo a comprometer a renda com pagamento de juros em taxas superiores a dois dígitos” (Crédito:Divulgação)

A realidade de Valquíria e Patrícia reflete a situação de mais de 100 milhões de brasileiros. Pelos cálculos da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias brasileiras com dívidas fechou 2017 em 62,2%, acima dos 59% de 2016. Os números são ainda mais alarmantes quando se constata que os brasileiros estão gastando mais com juros do que com itens básicos do lar,

como alimentação, aluguel e plano de saúde.

Um levantamento de abrangência nacional elaborado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), feito com exclusividade à DINHEIRO, revela que do total da renda das famílias brasileiras no ano passado, de R$ 3,282 trilhões, pouco mais de R$ 354,7 bilhões foram gastos com juros – o que representa uma fatia de 10,8%. A quantia paga às instituições financeiras cresceu 18% em 2017, de acordo com o levantamento, e superou os gastos das famílias com refeição fora do domicílio (5,1%), aluguel (4%), combustível (3,9%) e plano de saúde (3,7%). “Com absoluta certeza, somos os únicos no mundo a comprometer a renda com pagamento de juros em taxas superiores a dois dígitos”, afirma Altamiro Carvalho, economista da Fecomercio-SP e autor do estudo (confira o quadro ao final da reportagem). “Isso acontece porque a média da taxa de juros mensal no Brasil chega a ser 50% maior do que a inflação anual, uma disparidade absurda.”

Patrícia Peixoto, representante comercial: “Com certeza, somos os únicos no mundo a comprometer a renda com pagamento de juros em taxas superiores a dois dígitos” (Crédito:Divulgação)

A bola de neve dos juros no Brasil não cresce apenas porque as famílias, principalmente as de baixa renda, foram afetadas pela forte recessão econômica dos últimos anos. O economista da Fecomercio-SP afirma que a retomada do consumo em 2017, depois de três anos de estagnação e de queda das vendas do varejo, contribuiu para o aumento da dívida. “Milhões de trabalhadores voltaram a comprar eletrodomésticos, celulares e carros, contraindo empréstimos ou realizando parcelamentos com juros”, garante Carvalho. Esse movimento foi alimentado pela queda da taxa Selic, que atingiu mínima histórica, chegando a 6,5% ao ano.

Em outubro de 2016, quando o atual ciclo de queda começou, a Selic estava em 14,25%. Para o secretário de Planejamento e Assuntos Econômicos, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Marcos Adolfo Ferrari, o crescimento do endividamento, quando anabolizado pelo consumo, torna-se sustentável. Segundo ele, as empresas e as pessoas físicas poderão trocar uma dívida cara mediante outro financiamento mais barato, em um ambiente de queda gradual dos juros para o consumidor final. “As famílias podem fazer uma alocação eficiente dos recursos, quitando dívidas no cheque especial, por exemplo, com um empréstimo mais barato, como um CDC, o crédito direto ao consumidor”, diz.

Valquíria dos Santos, vendedora: “Os bancos querem mesmo é que eu continue afundada nas dívidas” (Crédito:Divulgação)

Embora os números apontados pelo estudo da Fecomercio-SP assustem, em um primeiro momento, existem indícios claros de reversão dessa trajetória em 2018. Cálculos feitos pelo Ministério do Planejamento indicam que os juros mais baixos vão reduzir em R$ 147 bilhões o endividamento das famílias e em R$ 49 bilhões o das empresas, o equivalente a cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB). “O ano passado ainda sofreu o efeito da demora dos bancos em repassar a queda da Selic, algo que não deve se repetir em 2018”, diz Carvalho. As projeções para este ano são de que a queda dos juros básicos da economia deve liberar R$ 196 bilhões de renda do orçamento das famílias e das empresas brasileiras. “Com o endividamento controlado, as famílias mais ‘enforcadas’ devem voltar a consumir, ajudando a girar a roda da economia”, garante o economista Jorge Tavares Neto, especialista em finanças pessoais da FGV-SP.

Além disso, um ambiente de maior competição entre os bancos tende a tornar as negociações mais flexíveis e favoráveis aos inadimplentes. Para a economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), os consumidores com elevado endividamento não conseguem fazer acordos bons na renegociação aproveitando os juros mais baixos, o que leva a nova inadimplência, uma situação ruim tanto para que não paga quanto para quem não consegue receber. “As dívidas de cartão de crédito, com juros acima de 250% ao ano, são as que têm maior inadimplência.”

Outro aliado de peso dos endividados é a inflação baixa. O último relatório do Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, mostra que o mercado aposta em uma inflação de 4,15% neste ano, abaixo dos 4,5% do centro da meta estabelecida pelo BC. “A conjuntura macroeconômica, de inflação e juros baixos, recuperação gradual da atividade econômica e expansão da massa salarial, contribuirá para que tenhamos, provavelmente, uma melhora dos números na próxima pesquisa”, diz Carvalho, da Fecomercio-SP. “E os cidadãos mais endividados podem ter uma chance de reduzir o peso dos juros em seus orçamentos.” Valquíria, Patrícia e outros milhões de brasileiros agradecem.