Finanças

Um ponto fora da curva

Chefe de renda variável da gestora do BTG Pactual desde março, Will Landers aumenta exposição à bolsa local com onda populista na América Latina e vê Brasil como “outlier” no mercado global em 2020

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Há espaço para lucrar: Landers, na sede do BTG Pactual, em São Paulo, e o prédio da Apple em Nova York: valor de mercado das empresas que estão na bolsa brasileira ainda é menor que o da gigante da tecnologia (Crédito: Divulgação)

Os investidores estrangeiros já sacaram mais de R$ 20 bilhões da bolsa brasileira até meados de setembro deste ano. E a cifra só aumenta a cada semana que passa. A culpa, contudo, não é nossa. O movimento se deve mais ao ambiente global adverso, com a guerra comercial entre EUA e China e o risco de desaceleração das grandes economias, do que ao fraco desempenho da atividade local. Essa, pelo menos, é a avaliação de Will Landers, chefe de renda variável da BTG Pactual Asset Management. Por 17 anos, Landers esteve à frente da carteira de ações para América Latina da BlackRock. Em março, ele aceitou o convite do BTG Pactual para assumir a mesa de renda variável da gestora do banco.

Apesar do cenário internacional e, na verdade, até por causa dele, Landers está otimista com as perspectivas para o mercado brasileiro. “O Brasil será um ponto fora da curva dentro do contexto global no próximo ano”, diz o gestor. “O país terá uma história única para contar. As economias desenvolvidas estarão em um processo de desaceleração, enquanto a brasileira estará em direção oposta”, afirma ele.

A aprovação da reforma da Previdência na Câmara, que Landers dá como certo que passará sem sobressaltos no Senado, mostra um Congresso disposto a adotar as medidas para o Brasil voltar a crescer. E apesar das polêmicas protagonizadas pelo governo, o especialista afirma que, no front econômico, a agenda é positiva. “Em um evento recente do banco com membros da equipe econômica, muito se falou sobre a importância de diminuir as burocracias e o tamanho do Estado, gerando um ambiente melhor para fazer negócios”, afirma Landers. “Inclusive, a meu ver, a equipe econômica está entregando até mais do que era esperado”.

Graças ao trabalho da ala reformista do governo e do estado letárgico da economia, a Selic caminha rumo aos 5%, contribuindo para a retomada que vem sendo aguardada desde o impeachment em 2016. “São fatores que nos levam a ter uma história bem melhor para contar a respeito do País, e sustentam nossa visão positiva para o mercado nos próximos meses”.

Will Landers, chefe de renda variável da BTG Pactual Asset Management: “A retomada da economia brasileira se dará pela força doméstica e não pela pauta exportadora” (Crédito:Daniel Bockwoldt)

CONFIANÇA Diante desse otimismo, o recente aumento global da aversão ao risco não fez Landers reduzir a exposição à bolsa local. Pelo contrário. “Desde que assumi o cargo no BTG Pactual, aumentamos a posição em alguns papéis”. A participação brasileira no portfólio de América Latina da asset foi de 32% para 35% nos últimos seis meses. Bancos e varejistas com braço de e-commerce são citadas como as categorias mais promissoras. Ainda assim, por conta das previsões do gestor para o futuro da economia local, ele diz que há poucos setores que não o atraem no momento. “Talvez a indústria mais voltada à exportação demande um cuidado maior pelo risco de desaceleração global”.

Para promover o aumento da exposição à bolsa brasileira, Will Landers vendeu ações na Argentina e no México, onde políticas populistas vêm ganhando terreno. “Ainda assim, mesmo nesses países há boas companhias que podem entregar resultados interessantes”, afirma o especialista, que não demonstra preocupação com o futuro político argentino. “O Brasil é muito mais importante para o crescimento argentino do que a Argentina para o crescimento brasileiro”, diz ele. “Além disso, a retomada da economia brasileira se dará pela força doméstica e não pela pauta exportadora”.

Aos poucos, o estrangeiro também deve ser atraído pelo reaquecimento da região, afirma o especialista. A recente desvalorização do real frente ao dólar pode ajudar na atração do capital internacional. Apesar de ter se aproximado das máximas históricas, se analisada em dólar, a bolsa ainda está longe do recorde alcançado em 2011. “Sob essa ótica, vejo espaço para a bolsa retomar o mesmo nível de quase dez anos atrás, o que corresponderia a uma alta de aproximadamente 40%”. As ações das estatais, que tiveram a governança aprimorada na nova gestão, também estão no radar da asset. Segundo Landers, graças ao trabalho da equipe econômica, que emplacou nomes qualificados à frente das companhias governamentais, não há mais motivos para que suas ações continuem sendo negociadas com o desconto histórico em relação às dos pares privados.

Apesar das melhorias promovidas por Guedes e companhia, o gestor com ampla expertise internacional reconhece que atrair o capital estrangeiro não é uma tarefa fácil. Basta lembrar que a bolsa brasileira inteira tem um valor de mercado menor que o da Apple sozinha. A empresa da maçã foi a primeira a alcançar um valor de mercado de US$ 1 trilhão. As 326 companhias da B3, juntas, valem US$ 952 bilhões. “Uma coisa é o investidor analisar os próximos lançamentos de smartphones, assunto que ele domina”, diz Will Landers. “Outra, bem diferente, é avaliar todo o cenário político e econômico do Brasil, para então partir para a análise das empresas que podem se destacar na região”.