Economia

Um olhar para depois do caos

O mercado global irá mudar muito quando a pandemia passar. Novas fronteiras e desafios se aproximam. Se não quiser ficar para trás na retomada, o brasil precisa se preparar agora.

Crédito: Istock

Máscaras, álcool em gel, distanciamento social. A pandemia de Covid-19 mudou hábitos e alguns deles deverão ser pernamentes. Do micro para o macro, as mudanças profundas trazidas por uma epidemia mundial também serão sentidas na forma como os países se relacionam, compram e vendem uns dos outros. A expectativa da Euromonitor International é que 75% do crescimento do PIB global venha dos países emergentes entre 2020 e 2040, mas para que o Brasil aproveite esse potencial, será preciso um alinhament às tendências mundiais. Mais que isso, ter uma população saudável e apta a consumir.

Uma prova de que a fragilidade dos emergentes desestrutura negócios em todo o globo é a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao estimar para este ano uma alta 5% no PIB global (crescimento de 2% sobre 2020), o FMI leva em conta que os países emergentes participação de 56% desse incremento. Os dados fazem parte do estudo Five Key Trends Shaping the Global Economy in 2021 and Beyond, lançado como uma espécie de bússola para a economia mundial no pós-pandemia. Ao Brasil, algumas lições valiosas podem ser tiradas do estudo. Mas duas delas merecem destaque: o impulso da economia local com atividades de maior valor agregado e as mudanças nas fronteiras do mercado.

Na prática, os dois itens estão correlacionados. Segundo o estudo, países como China e Índia (irmãos do Brasil no quesito emergente) acelereram a transformação de indústrias primárias para atividades que agregam valor, caso do setor de serviços, que inclui varejo, finanças, educação e hotelaria. “Isso contribui para o aumento da renda, permitindo que os consumidores gastem mais em bens e serviços não essenciais”, detalhou o estudo.

As empresas brasileiras já entenderam o espírito, mas colocar em prática se torna distante quando a renda do cidadão está tão fragilizada. Assim como na China, as empresas de comércio e serviço no Brasil se adaptaram rápido aos métodos de entrega, mas os frutos disso só serão sentidos quando a massa salarial aumentar. “Esses comportamentos de compra on-line se manterão no pós pandemia”, informou a Euromonitor.

Para Felipe Singer, professor de macroeconomia da Universidade de Brasília (UnB), a pandemia servirá para aumentar a presença de grandes redes e diminuir o espaço do pequeno varejo neste novo mundo. “Com capital externo e capacidade de reproduzir modelos adequados e já implementados em outros países, a competição com o pequeno é desleal no quesito mobilidade e e-commerce”, disse. Apesar disso, o professor entende que tal processo faz parte do jogo e aos empresários menores, após sanar eventuais problemas financeiros trazidos pela pandemia, a solução será buscar parcerias, se especializar, e estudar formas de competir. “Tem espaço para todos, mas a capacidade de resposta da empresa multinacional é, inegavelmente, mais rápida.”

Quando o assunto são as novas fronteiras do mercado, a América Latina perdeu parte do protagonismo que teve na década de ouro (entre 2003 e 2013) e deixou como estrelas do relatório apenas os países da Ásia-Pacífico. “As empresas e marcas buscam expandir sua base de clientes em mercados menos saturados, ou em maior velocidade de recuperação”, apontou o estudo. “Por causa de seu tamanho e perspectiva econômica positiva, a região é o mercado mais atraente para as empresas.”

EXPORTAçÕES Everton Silveira, especialista em comércio exterior, afirma que, alémde atrair empresas — que geram emprego e renda — é preciso que o Brasil se prepare para exportar mais e melhor. “Não adianta querer entrar em mercados com concorrência grande. Esqueçam Estados Unidos, Europa, China”, disse. Nesse sentido, o estudo da Euromonitor traz uma dica de ouro. A classe média na África vai dar, até 2040, o mesmo salto da classe média brasileira no auge. Dito isso, explorar mercados como o nigeriano se mostra altamente promissor. “São esperados ao menos 17,4 milhões de ingressantes na classe C na África.”

Outros temas, estes já conhecidos pelo Brasil ,também estão no horizonte da economia mundial. A questão da dívida pública dos governos frente ao PIB tornará mais difícil obter crédito de bancos internacionais — e afasta multinacionais do País. Além disso, a redenifição da economia global, a busca por parceiros com alinhamento ideológico e uma recuperação desigual da economia são questões que já estão postas no horizonte pós-Covid. É preciso parar de negar a pandemia e seus efeitos antes que seja tarde.