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Um negócio da China para Hollywood

A renda das bilheterias chinesas pode superar a dos EUA, Pela primeira vez. Por isso, a indústria americana quer conquistar a nova fronteira

Crédito: Yi chang

Dragão dourado: cinemas chineses vão vender US$ 10,3 bilhões de ingressos, neste ano (Crédito: Yi chang)

No meio da cerimônia de entrega dos prêmios do Oscar, no domingo 27 de fevereiro, que culminou com a entrega do prêmio principal para o filme errado, uma piada do apresentador, Jimmy Kimmel, passou despercebida. Ao brincar com o ator Matt Damon, que produziu Manchester à Beira-mar,indicado a melhor filme, Kimmel disse que a estrela de Hollywood era tão bondosa que colocou um amigo seu no projeto, Casey Affleck – que acabou premiado como melhor ator pelo papel –, enquanto atuava num grande fracasso de bilheteria nos EUA. O que Kimmel não considerou é que a obra estrelada por Damon não tinha como objetivo principal fazer sucesso no país.

O filme, chamado A Grande Muralha, é a maior tentativa de Hollywood para conquistar os corações e mentes do público chinês. Distribuído pela Universal, trata-se da primeira superprodução americana filmada inteiramente na China. O filme estreou no Brasil, na quinta-feira 23, na mesma semana da entrega do Oscar, com uma presença em 828 salas, das quais 561 em 3D. Quem passou perto de um cinema nos shopping centers brasileiros nos últimos dias certamente foi exposto ao grande material de propaganda do filme. A produção, que custou US$ 150 milhões, arrecadou até agora apenas US$ 37 milhões nos EUA.

R$ 266 milhões da renda de A Grande Muralha vieram de fora dos EUA
R$ 266 milhões da renda de A Grande Muralha vieram de fora dos EUA (Crédito:Divulgação)

Mas, no exterior, já rendeu US$ 266 milhões, conseguindo uma rara relação de 88% a 12% a favor da receita externa. Alguns filmes, como Gravidade, A Chegada e Rogue One, incluíram elementos e personagens chineses em seus roteiros para turbinar o interesse do público asiático, mas nada foi tentado nessa escala. Mais que um filme, o projeto é um movimento estratégico para o futuro de Hollywood. O ano de 2017 ficará marcado como o de uma grande virada na história do cinema. As bilheterias chinesas devem arrecadar US$ 10,3 bilhões, em 2017, frente a US$ 10,1 bilhões nos EUA, tirando a liderança americana do setor pela primeira vez, segundo a consultoria PwC.

Enquanto a renda americana permanece estável, as receitas na China com a sétima arte crescem fortemente, desde um patamar de US$ 2 bilhões, em 2011. Estima-se que foram abertas 15 salas de cinema por dia no país, em 2016. O país também produziu 940 filmes, no ano passado, um recorde para a indústria local. Para não perder o domínio global, Hollywood precisará do público chinês. “A tecnologia joga a favor da internacionalização”, diz Lia Bahia, professora e pesquisadora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM Rio. “Antigamente, as cópias em película dos filmes passavam primeiro nos EUA e depois eram mostradas de país em país. Hoje, o filme é transmitido digitalmente, por um HD que libera o sinal ou enviado por satélite.”

Mas haverá obstáculos políticos. O governo impõe censura de temas e cota para apenas 34 produções americanas por ano. Para atuar na China, também ajuda fazer parcerias locais. O maior financiador de A Grande Muralha foi o estúdio Legendary Pictures, adquirido em 2016 pelo Wanda Group. O grupo chinês é a maior incorporadora do planeta e constrói três parques temáticos na China, barrando a chegada da Disney. Além disso, desde 2012, quando comprou a AMC Theatres, passou a contar com a maior cadeia de salas de projeção dos EUA e do mundo, com mais de 1,3 mil cinemas.