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Um natal mais farto?

Fatores como a liberação do FGTS inativo, aprovação da reforma da previdência, retomada no índice de emprego e taxa de juros ao menor nível histórico animam o varejo para as vendas de final de ano

Crédito: Claudio Gatti

PAPAI NOEL CHEGOU Pedro Bianchi, presidente do conselho da Ricardo Eletro, em um espaço de inovação da rede no Shopping Parque da Cidade, em São Paulo (Crédito: Claudio Gatti)

O Papai Noel generoso de tempos atrás andou meio distante das famílias brasileiras nos últimos anos. Em 2019, ele promete voltar com um “ho-ho-ho” bem mais parrudo. Os sinais dessa esperança de um Natal farto como não se via desde 2014 começaram no final de novembro, quando os caixas das maiores varejistas do País tilintaram com tudo. Em 24 horas da Black Friday, realizada no último dia 29, a Via Varejo, dona das bandeiras Casas Bahia e Ponto Frio, faturou R$ 1,1 bilhão no País. “Nunca tínhamos feito esse faturamento em um dia. Como base de comparação, no terceiro trimestre, nossas vendas alcançaram R$ 6,6 bilhões”, diz Roberto Fulcherberguer, CEO da Via Varejo. “Esse resultado foi fruto de meses de preparação para a data.”

Termômetro para as vendas de fim de ano, o evento promocional celebrado após o Dia de Ação de Graças já se tornou a segunda principal data no calendário dos varejistas. O sucesso é tão evidente que os números só crescem ano a ano. Em 2019, os dias 28 e 29 de novembro movimentaram R$ 3,87 bilhões no comércio brasileiro, segundo dados da consultoria Compre&Confie. Apesar disso, o Natal segue imbatível. A Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC) prevê o maior crescimento de vendas dos últimos seis anos para o período. A estimativa é de que o varejo movimente R$ 35,9 bilhões, avanço de 4,8% em relação ao ano anterior – se isso se confirmar, será o maior percentual de crescimento desde 2013. Para Fabio Bentes, economista da CNC, o principal indicador para o Natal é a geração de empregos. De julho a setembro, foram criados 338 mil postos de trabalho formais. Foi o maior saldo de geração de emprego para o período desde 2013. “É o mercado de trabalho que vai fazer com que o consumo retome no Brasil. Não tenho a menor dúvida de que esse é o principal vilão para a lentidão da economia, principalmente no que se refere ao consumo pós-crise”, diz Bentes.

Além da retomada no índice de emprego, fatores como a aprovação da reforma da Previdência, a liberação do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo Serviço) inativo e a taxa básica Selic a 4,5% ao ano, o menor percentual desde 1999, servem de esperança para um mercado que foi castigado no período recessivo. “A liberação de recursos do FGTS e do PIS-PASEP para consumo não é uma novidade do governo Bolsonaro. Em 2017, essa também foi a estratégia usada por Michel Temer”, diz Bentes. Quem também vislumbra possibilidade de ganhos na data é Glauco Humai, presidente da Abrasce. “O setor de shoppings vem crescendo mês a mês. No acumulado do ano, de janeiro a outubro, o setor cresceu 8,2%”, diz ele. “Nesse cenário ainda mais otimista para o consumo, com a liberação do FGTS, 13º salário e taxa de juros em queda, estamos confiantes em ter bons resultados na época do Natal.”

MAIS DE UM BILHÃO EM APENAS 24 HORAS Roberto Fulcherberguer, CEO da Via Varejo, tem o desafio de liderar inovações nas lojas das bandeiras Casas Bahia e Ponto Frio. Na última Black Friday, a empresa faturou R$ 1,1 bilhão em um único dia (Crédito:Claudio Gatti)

Em recuperação depois de um 2018 conturbado, a Máquina de Vendas, dona da rede de lojas Ricardo Eletro, também se prepara para ver suas vendas decolarem no período natalino. Com 398 unidades no País, o grupo espera o término de dezembro para concretizar o faturamento de R$ 2,2 bilhões, que será um avanço de 65% em relação às vendas do ano anterior. “Nós estamos prontos para voltar a crescer. Investimos cerca de R$ 50 milhões para a reformulação do nosso site para a Black Friday”, diz Pedro Bianchi, presidente do conselho de administração da Ricardo Eletro. O aporte na plataforma virtual da empresa já surtiu efeito. Na última Black Friday, a empresa faturou R$ 220 milhões, 150% a mais em comparação com o mesmo período de 2018.

PLANOS PARA 2020 Agora, a bandeira Ricardo Eletro prepara a criação de um banco virtual para conceder crédito à população de baixa renda. Além disso, a empresa deve inaugurar, em janeiro de 2020, sua primeira loja física Ricardoeletro.com, que contará com espaço de 80 m² e um mix de produtos enxuto, com 23 portáteis e 12 celulares apenas. A bandeira será concentrada em metrópoles com 50 mil a 100 mil habitantes. “Nós pretendemos abrir 100 lojas deste modelo em 2020. Vamos trabalhar com realidade aumentada em todas as unidades dessa bandeira”, diz Bianchi. “Não acreditamos no e-commerce por si só. É preciso ter uma integração da loja física com o site”. O aporte para as 100 lojas que a empresa pretende inaugurar em 2020 é estimado em apenas R$ 5 milhões.

“O Brasil é um país ótimo para se investir. Temos obtido bons resultados e gerado valor aos clientes” Daniel Mazini,
diretor de varejo da Amazon Brasil (Crédito:Julio Vilela)

A subsidiária brasileira da gigante multinacional Amazon também tem motivos para comemorar. Embora a empresa não abra números de sua operação no País, Daniel Mazini, diretor de varejo da Amazon Brasil, afirma que a Black Friday deste ano foi o maior evento de vendas da história da marca no cenário nacional. “Durante o ano, nós fizemos vários lançamentos de novas categorias. Acabamos não fazendo muito barulho para cada uma delas, mas nós já estamos com mais de 30 no nosso portal”, diz Mazini. “Estamos bem animados e positivos com os nossos resultados da Black Friday e com o que teremos pela frente no Natal”. Para ele, o maior desafio da marca foi garantir a entrega de todas as compras realizadas em produtos vendidos pela empresa no mesmo fim de semana da Black Friday para as regiões Sul e Sudeste. “O Brasil é um país ótimo para se investir, um país em que temos obtido bons resultados. O nosso cliente está gostando da nossa experiência de venda.”

Há alguns anos, o receio de que a Black Friday canibalizasse as vendas do período natalino fez com que diversas entidades varejistas fizessem lobby para que o evento promocional, que é atrelado ao calendário americano, mudasse de mês. Isso não aconteceu, mas o Governo Federal decidiu implementar em setembro a Semana do Brasil. Apesar de ter sido anunciada às pressas, a edição deu bons frutos para o comércio varejista. Entre 6 e 15 de setembro, as vendas do varejo cresceram 11,3%, segundo dados da Cielo. “A Semana do Brasil foi boa. É uma data que surpreendeu positivamente e que servirá como opção a mais para o varejo”, diz Gleidys Salvanha, diretora de negócios para Varejo do Google Brasil. “Levar a Black Friday para outro mês não faria o menor sentido. Mas, lançar uma nova data em setembro que permita com que o varejo de novo sincronize suas ofertas, isso faz sentido. Se a Semana do Brasil conseguir ter esse efeito e isso chegar ao consumidor, teremos um segundo momento importante promocional no País”, diz Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da GS&MALLS, empresa do grupo Gouvea de Souza.