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Um mundo em transformação

A forma como as empresas atuam — e como as pessoas consomem — muda com a chegada de novas fontes energéticas. E na onda da energia limpa, o Brasil pode ocupar a posição de liderança global

Um mundo em transformação

Descarbonização, descentralização e digitalização. Esses três “ds” foram adotados pela empresa portuguesa de energia EDP como lema para a transformação do setor nos próximos anos. A digitalização se dá com tecnologias como internet das coisas e sensores digitais para administrar o uso de energia. A descentralização mostra um mundo em que parte relevante da geração de energia pode ser feita de modo doméstico, fora dos grandes projetos de hidrelétricas, usinas nucleares ou térmicas. Mas a revolução de maior impacto vem com as energias limpas, que começam a substituir os combustíveis fósseis em todo o mundo. Um sinal claro dessa transformação é a troca de motores a combustão, movidos a gasolina e diesel, pelos elétricos (leia mais aqui), que não emitem CO2.

Nesse contexto, o Brasil é o país que tem a matriz energética mais limpa do mundo dentre os grandes consumidores globais. Referência por seu modelo baseado em hidrelétricas. Itaipu ainda é a maior do mundo em geração de energia, ultrapassando os 100 milhões de MWh de geração anual. E projetos como o de Belo Monte, no Pará, garantem a geração necessária para suprir a demanda prevista com o crescimento da economia.

Apesar de utilizar recursos renováveis, as hidrelétricas causam, no entanto, outros problemas ambientais, ao descaracterizar rios e regiões preservadas, e são projetos complexos, caros e de longa duração. Para superar esses danos, as “energias alternativas”, como eólica e solar, avançam nos países desenvolvidos e também vivem por aqui um grande momento. “Não dá nem para considerar essas fontes mais como alternativas. Esse conceito já ficou para trás”, diz Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Na matriz atual, as eólicas representam 8,7% da geração. A solar, 1,2%. Juntas, somram 95% do crescimento da geração no País em 2018. Por trás desse salto há uma explosão de investimentos.

O maior grupo de energia limpa do mundo, a chinesa CTG (responsável pela hidrelétrica Três Gargantas), aportou no País há cinco anos e já investiu R$ 23 bilhões na compra de 14 usinas e na participação em outras três. A empresa já é segunda maior geradora privada do País, com 8,28 GW de capacidade instalada, atrás apenas da francesa Engie, e tem mais R$ 3 bilhões programados para a modernização desses ativos. Mas até ela considera a diversificação no País, e já comprou participação em 11 parques eólicos. “Os fundadores da CTG vieram nos anos 1990 ao Brasil aprender como fazer hidrelétricas, agora o País é o segundo, dos 47 lugares que atuamos, em que temos mais negócios, depois da China”, diz o vice-presidente de geração da CTG Brasil Evandro Vasconcellos . “Agora, há um crescimento das fontes alternativas, porque ajudam a equilibrar e diversificar a matriz.”

O País conviveu bem com a sua matriz hidrotérmica até os anos 2000. A geração era feita 90% por hidrelétricas, e as térmicas complementavam qualquer problema de abastecimento que pudesse acontecer. Mas o País começou a sofrer crises de suprimentos, como o grande apagão de 2001. “Foi a sinalização de que o Brasil precisava diversificar”, diz Gannoum. Isso levou à construção de pequenas centrais hidrelétricas, mas só começou a se tornar realidade com o avanço da tecnologia e o aumento de escala de produção dos equipamentos que permitiram às energias eólica e solar se tornarem competitivas. As novas fontes facilitam a descentralização, por permitir a criação de projetos que começam com investimentos mais baixos e que podem crescer modularmente ao longo do tempo. A Agência Nacional de Energia (Aneel) estima que a geração distribuída instalada será de 39 GW (hoje a matriz energética inteira possui 163 GW) em 2035.

A descentralização é tão importante que um novo marco regulatório está em discussão, com a consulta pública se encerrando na sexta-feira 19. O objetivo é entender se precisará mudar a forma de remuneração, que hoje é feita da seguinte forma: o excedente de energia gerado de forma distribuída é injetado na rede da distribuidora local e, posteriormente, utilizado para compensar o consumo de energia desse consumidor. A distribuidora reclama que, ao compensar esse valor, não é remunerada pelo uso de sua estrutura.

Uma mudança está em discussão, mas só deve valer para projetos futuros. Apenas essa possibilidade de diminuição da rentabilidade a partir da próxima década estimula que mais projetos entrem em operação antes disso. Então, uma verdadeira corrida acontece e a capacidade de geração distribuída deve dobrar neste ano. A revolução está começando e é possível saber mais sobre ela nas páginas seguintes.


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