Economia

Um mar de problemas

A greve dos caminhoneiros deixou um rastro de prejuízos bilionários para o setor produtivo e colocou em xeque a recuperação da economia. Os investimentos, que cresceram 0,6% no primeiro trimestre, devem ser afetados. O saldo para o Brasil não foi positivo

Crédito: Fábio Motta/Estadão Conteúdo

Paralisação geral: os grandes bloqueios feitos por caminhoneiros durante dez dias se refletirão em impactos em diversas empresas por até um ano (Crédito: Fábio Motta/Estadão Conteúdo)

Com 56 anos de existência, a fabricante carioca de produtos de limpeza Limppano viveu duas semanas completamente atípicas, assim como todas as empresas brasileiras, de todos os setores da economia. Os estoques dos centros de distribuição da Limppano, em São Paulo e em Belo Horizonte, ficariam vazios na segunda-feira 28 de maio e não poderiam reabastecer os pontos de vendas. No dia seguinte, a companhia obteve uma liminar na Justiça para atravessar os bloqueios dos caminhoneiros na estrada que liga sua fábrica no Rio de Janeiro ao centro de distribuição na cidade de São Paulo. Mas, para conseguir furar o bloqueio dos caminhoneiros grevistas, a gestão da companhia pediu escolta para o trajeto. “Fomos na mesma noite até um posto policial e eles só garantiriam a escolta para o período do dia”, diz Alex Buchheim, diretor-geral da empresa. “Por isso, decidimos começar a fazer a entrega a partir de quarta-feira 30.” No saldo da crise, ficou para a Limppano uma perda estimada em R$ 1,7 milhão, cerca de 1% do faturamento anual da companhia.

As dificuldades da empresa de limpeza são um pequeno exemplo do que milhares de companhias brasileiras viveram nas duas semanas de paralisação. Empresas dos setores de celulose, papelão, alumínio e fumo entraram com processos na Justiça Federal ou Estadual, de acordo com a jurisdição da rodovia que precisavam utilizar, para conseguir liminares que garantissem proteção para suas cargas cruzarem as estradas. Em alguns casos, mesmo com a escolta, não foi possível atravessar os bloqueios. “As empresas ficaram com medo de isso se repetir no futuro. Elas temem novos impactos pois talvez não há nada que a Justiça possa fazer”, afirma Diogo Ciuffo Carneiro, sócio e responsável por ações contenciosas da Bichara Advogados. Os prejuízos acumulados de todos os setores da economia estão sendo estimados em cerca de R$ 75 bilhões. A recuperação da economia brasileira, que vinha acontecendo em baixa velocidade, entrou em xeque.

Terra em transe: petroleiros também entraram em greve na semana passada (da esq. à Dir.), os poucos postos que foram reabastecidos tiveram fila de horas. Na semana passada, algumas empresas conseguiram liminar para ter escolta policial e atravessar os bloqueios

A expansão de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre do ano indica um crescimento mais próximo de 2% no fim do ano do que de 3%, como era a expectativa no início de 2018 (leia mais aqui). O que os empresários ainda estão com dificuldades de calcular é o impacto dessa crise nos investimentos. O último resultado do PIB mostrou que os investimentos cresceram 0,6% no período. É um ritmo baixo e, principalmente, desigual. Enquanto a indústria de transformação recuou 0,4%, o setor de energia elétrica, gás e saneamento cresceu 2,1%.

“Possivelmente teremos um impacto ainda maior na atividade econômica”, diz Thais Zara, economista da Rosenberg Associados. “Muitas vendas não se recuperam nos dias seguintes à volta da normalidade do reabastecimento e foram perdidas.” No setor industrial, diversas grandes empresas se prepararam para crises longas. A Vale, uma das maiores mineradoras do mundo e uma das principais operadoras logísticas do País, informou que não precisou interromper a produção, mas sentiu os efeitos da greve. “A Vale é uma empresa que opera espalhada pelo Brasil”, afirma o presidente Fabio Schvartsman. “Então é claro que foi afetada pela paralisação.”

Leite desperdiçado: entre os produtos perecíveis descartados está uma grande quantidade de leite. As vacas também sofreram com a falta de alimentação e devem produzir menos (Crédito:Divulgação)

Já a Dow, uma das principais indústrias químicas presentes no País, precisou reduzir a produção. “O impacto da paralisação foi limitado no início”, disse Fabian Gil, CEO da Dow América Latina, na terça-feira 29. “Mas algumas linhas já estão sendo atingidas. Não haveria como uma empresa como a Dow não ser afetada.” Sem a reposição de peças para a fabricação dos veículos, a maior parte das montadoras interrompeu a produção por uma semana e aguardavam retornar as atividades, gradualmente, desde a segunda-feira 28. A decisão das fabricantes de linha branca foi diferente. A Electrolux antecipou férias aos funcionários das fábricas de São Carlos (SP) e Curitiba (PR), para o período de 4 a 10 de junho.

Muito desse impacto deve ser registrado no agronegócio, por conta dos produtos perecíveis. A Abiec, a associação da pecuária de corte para exportação, espera prejuízo de até R$ 10 bilhões em seus negócios. Das 109 unidades produtivas, 107 ainda continuavam paradas, na quarta-feira 30. Nas últimas semanas, foi comum ver imagens chocantes de milhares de litros de leite sendo desperdiçados e de pintinhos sendo sacrificados. Cerca de 70 milhões de frangos morreram por falta de ração. Dessa forma, haverá impacto na produção de ovos. Os criadores de suínos se preocupavam com a canibalização dos animais famintos. A recuperação completa da cadeia deve levar um ano. “As vacas ficaram muito tempo sem a alimentação adequada. Vai levar tempo até recuperar a quantidade de litros produzidos. Ainda é cedo para mensurar o tamanho do estrago”, diz Roberto Rezende Filho, vice-presidente do Laticínio Aviação. “Teremos perda de receita, com certeza. Mas não podemos parar com os investimentos. E trabalhar com produtividade ainda maior devido a esses problemas.”

As empresas estão calculando os prejuízos da paralisação nos seus investimentos, o que vai afetar os planos de expansão do PIB projetados pelo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia (Crédito:Dida Sampaio/Estadao)

Se todos os setores da economia foram afetados, um ficou próximo de provocar uma tragédia na sociedade. A produção de remédios e de artigos médico-hospitalares teve 60% das empresas enfrentando falta de insumos. Dessas, 15% concederam férias coletivas. A alemã Fresenius Medical Care viveu dias dramáticos. Maior fabricante mundial de máquinas e insumos para diálises, tratamento que permite prolongar a vida de pessoas com deficiências renais, não conseguia tirar seus remédios da fábrica paulista de Jaguariúna. Há 127 mil pacientes que utilizam os seus produtos em clínicas espalhadas pelo Brasil. Ao todo, 1 milhão de pessoas são tratadas anualmente em hospitais brasileiros, com três sessões semanais de diálise. Se perder uma delas, o risco de morte no mesmo mês aumenta 20%.

“Depois que a imprensa começou a divulgar a dificuldade de transportes de insumos médicos, os caminhoneiros deixavam os produtos passar”, diz Edson Pereira, presidente da empresa no Brasil. “Mas, quando o caminhão voltava, ele ficava parado e não conseguia fazer outra entrega.” Além disso, houve falta de bicarbonato, que é utilizado para a produção da solução líquida utilizada na diálise. “Estimamos que levaremos entre 10 e 12 dias para normalizar a situação. Se a greve dura uma semana a mais, nem saberia dizer qual seria a situação”, diz o executivo, que calcula uma perda de faturamento e custos adicionais de transportes de produtos, insumos e de funcionários em R$ 20 milhões — a empresa fatura R$ 800 milhões ao ano. Os efeitos desses dias de caos no ambiente de negócios se estenderão por um longo tempo.