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UM LUGAR NO TOPO

Para quem era tido pelos concorrentes como um simples figurante, o Banco Santander Central Hispano, BSCH, se revelou um protagonista obcecado e incrivelmente voraz durante o leilão do Banespa. Um mês antes do Dia D, a equipe responsável pelo lance na Bolsa do Rio já passava as tardes fazendo simulações da disputa, preparando-se para a possibilidade de ter de arrebatar o banco no viva voz. Seus representantes desembarcaram no aeroporto Santos Dumont no sábado anterior à privatização, para evitar o risco de atrasos por conta de um vôo sem teto. O trajeto do hotel Sofitel até a Bolsa do Rio foi cronometrado, num ensaio, para evitar atrasos ? mas o grupo não deu chance ao azar, chegando ao pregão às 7 horas. Quando o operador Carlos Heis Koschky Filho, vulgo ?KGB?, entregou o envelope ao leiloeiro, a vitória já estava garantida. Emílio Botín, o magnata espanhol que transformou o Santander no maior banco da Espanha e o que mais rapidamente cresce no planeta, havia definido que o valor da oferta seria de R$ 7,05 bilhões, suficiente para que não restasse qualquer dúvida sobre o novo proprietário do Banespa.

Para garantir que sua estratégia seria eficaz, na semana que antecedeu a venda o Santander executou uma manobra diversionista. Depois de passar meses anunciando que tinha apetite de leão para abocanhar o banco estatal, os executivos espanhóis passaram a fingir desinteresse. Fizeram circular no mercado a versão de que haviam desistido. Ela era ouvida em torno de cada cafezinho da Bovespa na segunda-feira, 13, quando o banco entregou os documentos da habilitação junto ao Banco Central. Na quarta-feira, quando jornais e sites da Internet anunciavam o Santander fora da disputa, Gustavo Murgel, vice-presidente responsável pela tesouraria, estava em Madri ? onde fora buscar a carta-fiança exigida de cada um dos participantes. Na sexta-feira anterior ao leilão, quando os candidatos eram obrigados a depositar o valor mínimo como garantia, o Santander não confirmou nem negou oficialmente o pagamento da caução.

Quando entregar o cheque que salda a operação, nesta segunda-feira, o banco espanhol terá completado a marca de cinco bancos adquiridos em território nacional. O novo negócio lhe garantiu a liderança de mercado na rica região do interior de São Paulo, além da posição de maior operador de home broker da Bovespa. ?O Banespa é a melhor marca bancária do Brasil?, festejou o presidente do Santander no País, Gabriel Jaramillo. Desde que chegou ao Brasil em 1997, comprando o Banco Geral do Comércio, o Santander se transformou num gigante abocanhando instituições de varejo, como o Noroeste, de investimento, como o Bozano Simonsen, e vencendo uma outra privatização, a do Meridional, do Rio Grande do Sul. Foram investimentos de US$ 4,5 bilhões, sem contar os valores gastos para reequilibrar os bancos, que andavam mal das pernas. O apetite do Santander não é apenas pelo mercado nacional. O banco nascido na Cantábria conseguiu agora ampliar a vantagem sobre seu rival basco, o BBVA, no posto de maior instituição financeira atuando na América Latina. Acumula US$ 113 bilhões em ativos no continente, mais do que os PIBs do Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia juntos. Consolidou-se como o segundo banco da Europa, atrás apenas do Deutsche Bank. No mundo, o volume dos fundos por ele administrados é quase do tamanho do PIB da Argentina, e a soma de seus ativos equivale a quase o dobro da dívida pública do Brasil.

O Santander joga o pôquer global ao estilo de seu principal comandante, o controvertido e exuberante Emilio Botín Sainz de Sutuola, 66 anos e US$ 9 bilhões de patrimônio familiar. Embora divida formalmente a presidência com um outro executivo ? vindo do Central Hispano, adquirido um ano atrás ? ele é o cérebro por trás do avanço mundial da instituição. Caçador e esportista, herdeiro de uma instituição fundada há 143 anos por seu avô, ele conseguiu catapultar uma modesta marca regional ao status de gigante multinacional. Em seu avanço, contou com a ajuda da filha, Ana Patrícia Botín, que trouxe executivos de bancos americanos para alavancar os saltos globais do grupo. Ana afastou-se da empresa no ano passado para fundar um negócio de Internet, mas Don Emilio, como é conhecido, continua poderoso como nunca. Foi ele que em 1997, depois da aquisição do Noroeste, decretou que os investimentos do grupo na América Latina estavam encerrados. Foi ele que, logo depois, mandou comprar o Bozano Simonsen e o Meridional. Famoso por suas operações de aquisição hostil, como a das ações do Royal Bank of Scotland, Botín também ordenou o maior lance já dado por um negócio da Internet na América Latina ? a compra do site Patagon, por US$ 700 milhões, no início do ano.

O preço pago pelo Banespa, numa jogada bem ao estilo de Botín, deixou o mercado perplexo. Ele equivaleu à soma de todos os bancos até então privatizados (Banerj, Meridional, Bandepe, Baneb, Bemge, Banestado, Credireal), mais a Telemar. Ou da Telesp, CRT e Embraer, juntas. ?Em dois anos de estudos e avaliações, nunca consideramos pagar um valor como esse?, espantou-se Cesar Sizenando, vice-presidente do Unibanco ? ressaltando que, no caso do Santander, a conta até poderia ser diferente. A reação geral, porém, foi menos sutil. ?Foi um lance de louco?, diz o executivo de um concorrente. O banco da Cantábria pretende recuperar o investimento em uma década, e para isso projeta crescer 12% ao ano em depósitos. Meta ousada para quem terá de segurar a laço as contas-salário de milhares de funcionários públicos. Os cálculos do comprador também presumem uma rentabilidade anual de 25%, desempenho quase nunca atingido por um banco de varejo no País. A média nacional fica em 17%, e a do Santander, no primeiro semestre, limitou-se a 4,2%, por efeito dos gastos com a absorção do Meridional e do Bozano. Com o acirramento da competição previsto para os próximos anos, metas grandiloqüentes como essas parecem um sonho distante. Nos cálculos de um concorrente, o retorno deve levar entre 18 a 20 anos.

Com a terceira aquisição em apenas um ano, o Santander brasileiro está na situação da jibóia que engoliu um boi inteiro. Inchado e sem mobilidade, ele levará um bom tempo até poder voltar a se mover. Se mantiver a política adotada em todos os negócios anteriores, ainda tentará comprar as ações do Banespa que existem no mercado e fechar o seu capital. Calcula-se que gastará ao menos R$ 3,5 bilhões na operação. Depois, virão os gastos com investimento em automação e demissões de pessoal. Mais problemas. ?A massa de funcionários ali é a mais hostil de todas as estatais privatizadas?, avalia o executivo de um banco derrotado. Os auto-apelidados banespianos já ameaçam uma paralisação geral. Nos dois bancos de varejo que absorveu, o Meridional e o Noroeste, os conflitos com sindicatos não foram poucos. ?Eles foram truculentos. A postura deles lembra a dos espanhóis que chegaram à América e destruíram incas, maias e astecas?, compara Eduardo Rondino, presidente da Associação dos Funcionários do Banespa. ?Se eles querem guerra, vão encarar uma pedreira?, alerta. Segundo o executivo de um dos bancos que desistiram, a área de informática do Banespa é tão corporativista que atrapalhava o acesso dos técnicos do BC à carteira de crédito do banco.

A avaliação do mercado, refletida nas bolsas e nas agências de rating, é de que o BSCH fez um mau negócio. Num primeiro momento, as ações do banco em Madri caíram 6,86%, uma redução patrimonial de US$ 1,2 bilhão, equivalente a um banco de porte médio. Os grandes escritórios avaliadores de risco incluíram o banco espanhol na lista de vigilância, com a perspectiva de rebaixamento. Para os estrangeiros, preocupa o fato de mais de um terço dos ativos do Santander estarem concentrados na América Latina, justamente no momento em que uma crise assombra a Argentina. Ser identificado como um banco ancorado no terceiro mundo é perigoso, e pode tornar mais difícil e cara a obtenção de crédito.
Sem medo das críticas, o Santander Brasil, sob o comando de Gabriel Jaramillo, acordou no dia seguinte à privatização descascando abacaxis. O primeiro, imediato, foi trazer para o País os dólares necessários para bancar a aquisição. O dinheiro foi rateado entre a instituição espanhola e seus sócios europeus, Royal Bank of Scotland, Societé Générale, San Paolo-IMI e Commerzbank, que entrarão com US$ 700 milhões.

O desembarque de tanta moeda estrangeira, dez vezes mais do que o volume normalmente negociado no mercado, estava puxando o preço do dólar para baixo. Isso levou o Banco Central ao primeiro leilão formal desde a maxidesvalorização de 1999. Numa medida polêmica, Brasília entrou comprando a moeda estrangeira a uma taxa de R$ 1,91, quando ela estava sendo negociada a R$ 1,89. Para muitos a medida não parecia necessária ? nessa época do ano a tendência geral é de alta, em função das remessas de lucros das multinacionais e das importações para o Natal. Qualquer variação devida ao fluxo dos dólares do Santander também seria localizada, durante apenas dois a três dias. Mas o BC interveio mesmo assim, e o diretor de política cambial, Luiz Fernando Figueiredo, avisou que faria quantos leilões fossem necessários, ?até o limite de US$ 3 bilhões?.

Passada a fase do pagamento, Jaramillo já anunciou que pretende acelerar o Santander, mesmo sentindo ainda o peso da digestão do Banespa. ?Nossa história é de crescer. Quem investe o que nós vamos investir tem de crescer?, proclamou. Com um otimismo corintiano, ele prevê um lucro líquido do Banespa na casa dos US$ 800 milhões, daqui a três anos. Números assim equivalem aos recordes de lucratividade fixados este ano pelos líderes de mercado Bradesco e Itaú, mais que consolidados no País. Prevê ? em comunicado entregue em Madri à Comissão Nacional do Mercado de Valores ? uma redução de 33% nas despesas do banco, e um aumento de 61% nas receitas com serviços. Quer oferecer crédito fazendo sua carteira crescer 15% ao ano. Apenas o que o mercado espera, agora, é que o entusiasmo espanhol não se arrefeça, como aconteceu no México após a privatização do Serfin. Lá o Santander pediu a devolução de US$ 225 milhões dos US$ 1,6 bilhão pagos, alegando que alguns ativos do banco estavam sobreavaliados.

Colaboraram: Lucia Kassai, Marcelo Aguiar e Ivan Martins

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