Negócios

Um italiano de R$ 30 bilhões

Fundador da gestora de ativos Azimut, o megainvestidor Pietro Giuliani afirma que o Brasil é tão atrativo quanto foram os países europeus logo após a Segunda Guerra.

Crédito: Victor Moriyama

O empresário italiano Pietro Giuliani, fundador e presidente mundial da Azimut, gestora independente de ativos e patrimônio, está eufórico com as oportunidades de negócios no Brasil. Para ele, o País já é um dos melhores lugares do mundo para se investir com boa rentabilidade – apesar da taxa básica de juros, a Selic, estar no patamar mais baixo da história. O motivo é o cenário de estabilidade econômica, inflação controlada, reformas e o interesse do governo de colocar em prática um robusto programa de concessões e privatizações, que poderá trazer mais recursos e alavancar obras essenciais para a sustentação do crescimento econômico. “Estamos convencidos de que nos próximos 10 anos vale à pena investir por aqui”, afirmou Giuliani, em seu escritório em São Paulo.

Obras públicas: Investimentos em concessão e privatização de rodovias estão no radar da Azimut no Brasil. Para Giuliani, o País está defasado e precisa construir quase tudo em infraestrutura. (Crédito:Divulgação)

A Azimut foi fundada há 25 anos. Listada na Bolsa de Valores de Milão desde 2004, é hoje uma das maiores gestoras independentes da Europa. Tem operações em 15 países, incluindo o Brasil. “Começamos por aqui em 2013, com R$ 3 bilhões, e hoje temos R$ 30 bilhões por meio da AzQuest e da Azimut Brasil”, diz Giuliani. A empresa tem apresentado crescimento acelerado no País. Segundo o CEO da operação brasileira, Giuseppe Perrucci, o crescimento dos ativos administrados foi de 100% em 2017 e 2018 e de 50% em 2019. “Como o montante administrado é bastante alto, agora trabalhamos com a meta de aumento entre 20% e 30% neste ano”, afirma. No mundo, a empresa administra o equivalente a R$ 270 bilhões.

Na avaliação de Giuliani, os setores que devem garantir maior rentabilidade são o de construção civil e tudo o que envolve infraestrutura, como rodovias, saneamento, portos, aeroportos e energia.

Ele também destaca a área de saúde, com a necessidade de construção de hospitais e produção de remédios e suprimentos de uso básico. Giuliani compara o Brasil de hoje com países da Europa logo após a Segunda Guerra. “Os estrangeiros olham para o Brasil como os Estados Unidos olhavam para Itália e Alemanha, por exemplo. Na época, nos tornamos pobres. Não havia casas, estradas, mas havia tudo a ser reconstruído. Aqui não houve guerra, mas há muito a ser construído”, diz.

Para o professor de Finanças do Insper Michael Viriato, a aposta no setor de infraestrutura é natural porque o Brasil está defasado em função da falta de recursos do governo. “Se há demanda, óbvio que ela vai ser mais rentabilizada do que em outro setor com demanda menor. No caso da saúde, há uma tendência natural de investimento constante que torna a área atrativa”.

Há, no entanto, outra questão que atrai os investidores para o mercado nacional. A taxa Selic em 4,5% ao ano pode parecer pouco para os brasileiros, acostumados com índices bem mais altos. Nos países desenvolvidos, as taxas de juros são bem inferiores e chegam a ser negativas em algumas nações. “Se você pegar R$ 100 e investir 10% desse valor no mercado brasileiro e o restante em títulos de governos da Europa pode ter certeza que depois de cinco ou dez anos a pequena fração investida por aqui terá gerado ganhos maiores do que a parcela aplicada lá”, diz o executivo italiano. Giuliani afirma que pode dar a seus clientes no Brasil rendimentos de 5% a 10% ao ano em investimentos com prazos longos, de até 10 anos. “Os clientes não suportam as taxas muito baixas ou negativas praticadas na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Por essa razão, nos próximos cinco anos, 35% dos nossos investimentos serão feitos em países como o Brasil e de 15% a 30% em ativos alternativos.

De acordo com Viriato, na Alemanha os juros são negativos para o período de 10 anos. Para o mesmo período são de 1,4% ao ano na Itália e de 1,8% nos Estados Unidos. “Com taxas tão baixas, o investidor vai ficar muito feliz em ganhar até 10% ao ano no Brasil”, compara o especialista do Insper, que concorda que o momento é bom para investir, seja de forma direta ou via Bolsa de Valores. “Antes, um projeto que rendia cerca de 10% não fazia sentido porque era possível ganhar isso com o CDI. Agora, tem de correr algum risco e colocar o projeto em prática”, afirma. “Na medida em que as pessoas e empresas vão investindo, a roda vai girando, pessoas são contratadas, o consumo aumenta. É lento, mas sustentável.”

A possibilidade de mudança de cenário não preocupa Giuliani. Pelo contrário, ele entende que as crises também geram oportunidades. “Estamos convencidos de que o futuro é positivo. Quando há uma crise é para aproveitar e comprar porque os preços caem. Mas muitos, erroneamente, pulam fora”, finaliza.