Tecnologia

Um hacker na gestão

Soluções da startup brasileira Fhinck auxiliam empresas a fazer mais com menos, ao analisar os softwares de trabalho e as tarefas realizadas por colaboradores.

Crédito: Claudio Gatti

ENGRENAGEM Paulo Castello, cofundador e CEO da Fhinck, usa como motivação uma frase de Steve Jobs: “Computadores são como bicicletas para a mente”. (Crédito: Claudio Gatti )

Uma das frases mais icônicas de Steve Jobs, fundador da Apple, foi proferida no início de sua carreira. Depois de ler, na adolescência, uma reportagem que comparava a capacidade de locomoção de várias espécies de animais, um dos homens mais visionários de todos os tempos concluiu que os “homens são construtores de ferramentas”. Isso porque, na comparação entre as variáveis de mobilidade, o condor se destacava, enquanto o humano era decepcionantemente coadjuvante. Porém quando os homens usavam uma bicicleta, sua capacidade se amplificava. Isso causou uma grande impressão em Jobs. Ele avaliou, então, que a mais notável das ferramentas é o computador. Ligando pontos em uma reflexão sobre inovação, Steve Jobs concluiu: “computadores são como bicicletas para a mente”.

Paulo Castello, cofundador e CEO da Fhinck, nunca esqueceu esse ensinamento. As primeiras engrenagens de seu negócio começaram a ser arquitetadas quando ainda estudava administração de empresas. Aos poucos, em seus estudos e em sua experiência profissional que incluiu passagens pela Varig, Nokia, Walmart, Marfrig e outras empresas, finalizou o projeto da sua ‘bicicleta’ em 2014 ao criar a Fhinck, startup brasileira de tecnologia focada em aumentar a eficiência operacional das atividades de back offices das grandes empresas.

Seu principal produto é um software que entende automaticamente como são os padrões de comportamentos dos profissionais e das atividades realizadas no dia a dia da operação das companhias, a fim de identificar oportunidades para melhorias. Na prática, é uma espécie de ‘hacker do bem’ na gestão empresarial. “Nosso software lê todos os outros softwares de trabalho”, afirmou Castello. “Em seguida analisa os processos, como a pessoa trabalha, padrões de comportamento dos times e dos sistemas. A partir disso, gera insights que apontam para onde existem oportunidades de aumento de eficiência operacional.”

PILOTO Primeiro cliente da Fhinck, a Accenture começou o serviço em uma pequena fatia de sua operação no Brasil e hoje é parceira da startup. (Crédito:Divulgação)

Para chegar a esse patamar, teve de pedalar muito. E ter coragem. Largou uma carreira executiva consolidada em grandes companhias para abrir seu próprio negócio. O primeiro contrato veio apenas em maio de 2016, quase um ano e meio depois da abertura da Fhinck. Praticamente de graça. Era um período de crise política e econômica. E seu nicho de mercado eram as grandes companhias, que ainda não viam com bons olhos a contratação de startups. Sem perspectivas positivas, escolheu quatro empresas para oferecer projeto piloto gratuito. Três declinaram e uma aceitou: a consultoria Accenture. “Foi o cliente perfeito”, afirmou o empreendedor. A animação na declaração do CEO tem motivo. A consultoria de gestão, tecnologia da informação e outsourcing começou como cliente com uma pequena fatia de sua operação no Brasil. O projeto foi tão bem-sucedido que ampliou para outros seis países. Hoje a Accenture vende as soluções Fhinck para seus clientes. Dessa mesma forma, Deloitte, Everis, KPMG acoplam o software da startup junto aos seus próprios. “Eles fazem planos de ataque (comercial) com dados da Fhinck”, afirmou Paulo Castello.

CRESCIMENTO Após sete anos de atuação, as rodas da bicicleta da Fhinck transitam por 20 países por meio dos pés de seus clientes. Entre eles, brMalls, EMS, Kroton, Natura, Unilever e Rede D’Or São Luiz. O planejamento prevê a internacionalização da empresa com a instalação de escritórios físicos em Dallas (Estados Unidos), Kuala Lampur (Malásia) San Jose (Costa Rica) e Varsóvia (Polônia). “São regiões do mundo com grande concentração de Centros de Serviços Compartilhados (CSC) e Business Process Outsourcing (BPOs), mão de obra barata e incentivos fiscais”, disse ele, que foi destaque da revista indiana Analytics Insight, como um dos dez mais inspiradores CEOs. O modelo de negócio é o mesmo: venda do software por unidade de uso, com pacote mínimo de 100 licenças. “Temos empresa com 46 mil licenças no Brasil. Estamos em pleno crescimento”, disse o fundador, sem revelar números absolutos. Nos últimos três anos, o faturamento cresceu cinco vezes a cada período. Agora, busca nova rodada de aporte após receber investimento anjo em 2019, na casa dos R$ 2 milhões, liderado por Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central, e Guilherme Horn, fundador da corretora Ágora e da plataforma de investimento Órama. Tudo para a ‘bicicleta’ da Fhinck acelerar mais rápido na estrada da tecnologia para CSC.