Tecnologia

Um dia você vai ter o seu lado ciborgue, mercado que já movimenta US$ 100 bilhões no mundo

O futuro de dispositivos em nossos corpos é um mercado que cresce acima de 7% ao ano e movimentará US$ 180 bilhões até 2030.

Crédito: Istock

Um dia qualquer: você na rua, a caminho do trabalho, entra no metrô e passa o braço pela catraca. Basta para entrar. Suas informações de pagamento estão em seu corpo, num chip RFID (identificação por radiofrequência), o mesmo dispositivo que usa para acessar o escritório no único dia da semana em que terá sua jornada presencial. Sem estresse, porque biossensores começam a regular seus hormônios para deixá-lo mais concentrado e menos ansioso. Não há nada de futurismo aqui. Trata-se de um mercado que este ano vai quebrar a barreira dos US$ 100 bilhões globalmente e deve passar de US$ 180 bilhões até 2030, de acordo com dados da Allied Market Research.

Tecnicamente, seremos cada vez mais ciborgues — nome dado a tudo que mistura um organismo (o ser humano, por exemplo) a soluções cibernéticas. O doutor James Novak é pesquisador da Universidade de Queensland, na Austrália, um dos centros de ponta no estudo dessas soluções aplicadas às pessoas. “Muito dessa tecnologia ‘do futuro’ já está entre nós”, disse à DINHEIRO. “Podemos fazer modificações que geram vantagens e benefícios, elevando o bem-estar.” Ampliar a qualidade de vida e, na sequência, ampliar a própria vida.

A definição do que entra ou não quando o assunto é Human Augmentation, no entanto, é ampla. Para o Gartner Group, esse campo — também chamado de Human 2.0 — “se concentra na criação de melhorias cognitivas e físicas como parte integrante do corpo humano”. Em tese, pode comportar desde uma pessoa que não se separa mais de seu smartwatch até alguém acidentado que faz uso de prótese nas pernas para se tornar campeão olímpico. Novak, por exemplo, entrou nesse universo por ser um “geek da impressão 3D”, como ele mesmo se define. Uma paixão que o levou ao mundo das próteses: além das aulas que dá na Universidade de Queensland, é pesquisador sênior em biofrabricação craniofacial no Herston Biofrabrication Institute, em Brisbane.

MURRAY RIX

“Muito dessa tecnologia ‘do futuro’ já está entre nós. Podemos fazer modificações que elevam o bem-estar” James Novak Pesquisador.

FRONTEIRAS ÉTICAS O escopo desse segmento é provavelmente o mais vasto em todas as frentes da inovação tecnológica. De acordo com um relatório de 2021 do Global Industry Analysts, o pipeline do Human Augmentation inclui próteses, neurotecnologia, interfaces cérebro-computador e edição de genes, levando a tecnologias como exoesqueletos, chips RFID, visão aumentada, tradução de idiomas em tempo real, lentes de contato inteligentes, drogas inteligentes, impressão 3D para partes do corpo humano e até mesmo órgãos sexuais aprimorados e designer de bebês. É aqui que o bicho pega. Porque nenhuma área da tecnologia e da inovação avança tanto e de forma tão polêmica pelas delicadas fronteiras éticas, morais, legais, religiosas e culturais quanto a Human Augmentation. Para agravar o cenário, sua aplicação vai muito além da medicina. Segmentos como o militar, o da produção industrial e de esportes já são altamente impactados.

Para Edoardo Vattimo, psiquiatra e conselheiro no período 2018-2023 do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, a discussão já está mais consistente no campo da saúde, que trabalha há muito tempo com dispositivos implantáveis, como o desfibrilador automático para pacientes com insuficiência cardíaca. “Ele detecta quando o coração para e dá um choque para ‘reiniciar’ o órgão”, afirmou. Estudioso da DBS (Deep Brain Stimulation, ou Estimulação Cerebral Profunda), tratamento usado especialmente para portadores de Parkinson, ele chama a atenção para a questão experimental de alguns novos dispositivos. “Muitas vezes existe uma pressão de vendê-lo sem passar por todas as etapas de aprovação, que envolvem pesquisas, testes e outros procedimentos para garantir a segurança e a eficácia.”

Vattimo recomenda que o paciente cheque se o tratamento ou dispositivo indicado já passou pelos ensaios clínicos e se têm aprovação dos órgãos reguladores. “Nos casos de dispositivos mais invasivos e com mais riscos, é sempre o médico que recomenda”, disse. “Mesmo assim só deve indicar nos casos em que o paciente não responde a mais nenhum tratamento.”

Se por um lado as barreiras médicas servem como controle, por outro a legislação precisará avançar igualmente. E nesse sentido ainda há muito a ser discutido. Nycolle Soares é advogada e sócia do escritório Lara Martins. Especialista em direito médico, ética e compliance, ela afirma que o tratamento ético-moral nesse campo tem três princípios básicos: a privacidade, a escolha e a disponibilidade. Nycolle, no entanto, joga luz também sobre os dados coletados por algumas dessas aplicações. E pela forma como eles podem ser usados de forma indevida ou invasiva. “É importante que o paciente ou usuário consiga escolher o que é compartilhado, que seja informado de como o processo é feito e sobre quais de seus dados serão utilizados pelo aparato”, disse.

“É essencial entender as consequências emocionais, sociais, filosóficas ou até mesmo espirituais envolvidas” Sean Peel Pesquisador

Há outro complicador nesse universo. Quando a decisão de aplicar um implante é definida por terceiros. Em abril do ano passado, o estado de Indiana, nos Estados Unidos, se tornou o 11o do país a banir a exigência de implantação de microchips em funcionários por parte das empresas ou potenciais empregadores. No Brasil, segundo Nycolle, legalmente, a pessoa também pode optar sobre aceitar ou não ter implantado no próprio corpo esses dispositivos. “Assim como um paciente pode recusar medicação, caso queira.”

Apesar de o uso impróprio dessas soluções ser uma preocupação, é fato que a tecnologia vai cada vez mais influenciar nosso dia a dia. E na maior parte das vezes para melhor. Um dos campos em que ela mais já é utilizada é o dos diagnósticos. Para Sean Peel, também pesquisador e colega de Novak na australiana Universidade de Queensland, “é provável termos num futuro não tão distante algum tipo de dispositivo, implantado em nossos corpos, que poderá nos fornecer muitos dados que hoje só estão disponíveis através de testes e exames”. Isso pode significar ganhos em escala não só para um diagnóstico precoce, como na redução de custos das pessoas comuns. Num país pobre e desigual como o Brasil, pode ser ferramenta decisiva na gestão da saúde pública.

O que já acaba valendo para dispositivos como o Apple Watch, que avisa sobre condições físicas dos usuários. Em março deste ano, um desses aparelhos salvou a vida de Nitesh Chopra, na Índia. Após sentir dores no peito e reclamar com sua mulher, ele usou o wearable para um rápido procedimento de eletrocardiograma que acusou que suas artérias estavam 99,9% bloqueadas. A velocidade do exame o fez chegar a tempo a um hospital, onde recebeu a implantação de um stent. E sobreviveu.

BLACK MIRROR Sean Peel diz que é importante sempre balancear a capacidade tecnológica com as necessidades sociais. Ou seja, a discussão é obrigatoriamente complexa. “Essa tecnologia não pode chegar às mãos de pacientes sem considerarmos todos os fatores que podem englobar o tema”, afirmou. Para que não se torne uma versão real da série Black Mirror, produção da Netflix em que distopias futuras tomaram o pior dos rumos a partir da tecnologia intensiva. “É essencial entender as consequências emocionais, sociais, filosóficas ou até espirituais envolvidas.” Porque não se trata mais de perguntar se um dia todos seremos ciborgues. Essa resposta já é sim. A pergunta agora é outra: em qual limite nos tornaremos ciborgues?

ENTREVISTA: Neil Harbisson, o primeiro ciborgue legalizado
“Minha antena não é um dispositivo. Ela é um órgão, faz parte do meu corpo”

JOSEP LAGO

Nascido com acromatopsia, doença que causa sensibilidade à luz e principalmente dificuldade em enxergar cores, Neil Harbisson decidiu em 2004, aos 20 anos, encontrar um caminho para sair do mundo em preto e branco em que vivia. Instalou uma antena na parte de trás de sua cabeça, acoplada a um computador, que transforma cores em sons. Ao conseguir colocar sua foto com a antena em seu passaporte britânico ele se tornou oficialmente reconhecido como ciborgue. Hoje dedica seu tempo ao ativismo, por meio da Cyborg Foundation.

Por que decidiu colocar essa antena?
Eu estava estudando composição musical na universidade e foi pedido para experimentarmos a tecnologia na música. Na história, diversas pessoas já tentaram relacionar cores com música, inclusive Isaac Newton. Comecei no piano, com um sistema onde cada nota correspondia a uma cor e fui adicionando mais tecnologia. Eu não queria que a antena se tornasse só mais uma ferramenta, queria sim um órgão, parte do meu corpo.

Quão importante foi ter sua foto do passaporte com a antena?
Expliquei [às autoridades] que não era um dispositivo, mas órgão do meu corpo.

Como ela torna sua arte única?
A música acontece na minha cabeça. Por mais que eu faça arte visual, não me considero pintor, me considero compositor.

O que significa ser um ciborgue?
Significa que seu corpo está fundido com alguma tecnologia, mas isso não significa que ela precisa estar dentro de nós.

Usar wearable nos faz ciborgue?
Alguém que tem um smartwatch e identifica isso como parte de si pode se identificar como um ciborgue, sim.

E no seu caso?
Eu me defino como ciborgue porque a tecnologia é parte da minha identidade e de quem sou. O hardware da minha antena é um órgão e o software um sentido.

Desde o começo foi assim?
No começo eu não sentia que ela era parte do meu corpo, mas com o tempo isso se tornou natural. O software se integrou com meus outros sentidos. Comecei a ter sonhos com as vibrações das cores, então senti que meu cérebro tinha se integrado com o dispositivo.

Em algum momento você já se sentiu julgado ou excluído pelas pessoas?
Às vezes na rua me tratam como algo estranho e são realmente rudes ou gritam coisas como “alien”. Mas muitos me tratam bem. No futuro isso será mais “normal”. Acredito que devemos ter direitos de decidir como nosso corpo deve ser, que sentidos queremos ter. Devemos considerar esses implantes como órgãos, e não como dispositivos. E ninguém [terceiro] deve ter o direito de removê-los.

O que os ciborgues têm para dizer?
O mundo e a natureza têm muito para mostrar e o espectro humano comum não permite enxergar. Adicionar novos estímulos e sentidos é um jeito lindo de viver a vida e sentir a natureza. Há muito do mundo que não descobrimos.

Que limitações devem ser impostas?
Qualquer coisa que afete outras pessoas.

Como vê o futuro dos ciborgues?
Teremos mais diversidade, seja de corpos, espécies e identidades.