Tecnologia

Um clube de US$ 1 bilhão

Clubhouse é a rede social vedete do momento. Resta saber até onde vai ecoar a novidade em um mundo aparentemente saturado por interações virtuais.

Crédito: Evandro Rodrigues

Com tanta gente nas redes sociais – 4,2 bilhões de pessoas, de acordo com a pesquisa We Are Social/Hootsuite – , a impressão era a de que não havia mais espaço para outra rede social no mundo. Aparentemente, ainda há. Nos últimos dias, apareceu um daqueles fenômenos improváveis, o aplicativo de voz Clubhouse. Criado no caótico ano de 2020, ele explodiu neste início de 2021 por causa de dois nomes infalíveis: Elon Musk, da Tesla, e Mark Zuckerberg, do Facebook. Ambos apareceram em salas da rede social para falar – as interações se dão apenas por voz – de mercado, setor financeiro, visão de sociedade, assuntos que saem de suas rotinas. Apenas suas falas, com a possibilidade de interação ao vivo para os demais mortais. Foi o bastante para despertar o interesse de milhões de pessoas ao redor do planeta.



Um dos motivos principais para a rede surgir com tanto estardalhaço, porém, tem menos a ver com Musk ou Zuckerberg e mais com uma velha regra da economia: a escassez – é ela que gera valor. O acesso ao Clubhouse é restrito ao sistema operacional iOS (leia–se aparelhos Apple) e os usuários são ativados apenas por convites de quem já está por lá. O resultado é que o aplicativo, lançado pela empresa Alpha Exploration Co. – de propriedade de Rohan Seth, ex-funcionário do Google, e Paul Davidson, empresário do Vale do Silício –, é a nova vedete da internet. Com cerca de 6 milhões de downloads, já estaria avaliado em US$ 1 bilhão. Um fenômeno, tratando-se de algo lançado oficialmente em março de 2020.

Há menos de um mês, em 24 de janeiro, a empresa recebeu investimento de US$ 100 milhões, ocasião em que o aplicativo divulgou a soma de 2 milhões de usuários. Seis dias depois, em 31 de janeiro, o fundador da Tesla participou de um bate-papo e fez o aplicativo bombar. No dia 4 de fevereiro foi a vez do CEO do Facebook. Em pouco mais de uma semana, foram 4 milhões de inscritos, duas vezes mais do que o Clubhouse levou a conquistar em um ano. No Brasil, além de Musk e Zuckerberg, a curiosidade foi puxada também pela entrada de José Bonifácio Brasil de Oliveira, o Boninho, diretor do Big Brother Brasil. Segundo dados da consultoria de análise de dados Senso Tower, a primeira vez que o Clubhouse entrou na lista de mais baixados do Brasil foi em 5 de fevereiro, um dia após as falas de Zuckerberg por lá. Depois do dia 6, quando o boss do BBB participou, o app lidera o ranking.

FRANKENSTEIN Não há nada de novo ou de revolucionário no funcionamento do Clubhouse. É uma mistura de muitas funcionalidades de várias redes sociais já existentes. Do distante Orkut, de onde tem as comunidades, ao Instagram, que começou operando no sistema iOS na fase inaugural – no Brasil, 83% dos smartphones são Android, segundo a StatCounter. A expectativa é falar com Elon Musk. A realidade é apenas ouvi-lo.

Ainda assim, o app é exaltado por especialistas. “O primeiro atrativo é a exclusividade. Em segundo, estar próximo de pessoas conhecidas a que admiro. E a terceira é a rede do ao vivo, da verdade, com autenticidade”, disse Renato Mendes, mentor da Endeavor Brasil, professor do Insper e da PUC-RS. Ele ressalta ainda que o Clubhouse tem ocupado o espaço das lives. Em tese, mais uma briga do rádio contra a televisão. Vale lembrar aqui que o movimento de podcasts tem atraído gerações mais novas.

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As marcas ainda não estão no Clubhouse. E os criadores de salas e de conteúdo não são monetizados. O que deve ocorrer em breve, segundo o CEO Paul Davison. Mas já tem gente fazendo negócios pelo app. “Uso como ferramenta de recrutamento. Acompanho as salas e observo talentos. Três pessoas já foram contatadas e podemos avançar em contratação”, disse o empreendedor e influenciador Frederico Flores.

As projeções para o Clubhouse em curto espaço de tempo são otimistas. No terreno mais realista, deve ser adquirido. Para Vivaldo José Breternitz, professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Mackenzie, a voz do Clubhouse tem encontrado espaço para ser bem ecoada. “A hipótese menos provável é que venha a se tornar um gigante autônomo, como seus concorrentes”, afirmou.


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