Finanças

UM CASO DA ARÁBIA NA FAZENDA

Yussef Mahmoud Bazzi, apesar do sobrenome libanês, é um brasileiro naturalizado americano. Seu nome poderia constar da lista de lunáticos que enviam regularmente cartas a autoridades com denúncias esdrúxulas e tentativas de extorsão ainda mais esquisitas. Na maioria dos casos, os lunáticos são ignorados pelo governo. Não é o caso de Bazzi. Desde abril deste ano, o suposto empresário e consultor, com escritórios em Brasília e São Paulo, envia com uma regularidade doentia cartas ao primeiro escalão do governo ? incluindo o próprio presidente da República, Fernando Henrique Cardoso ? em que denuncia uma suposta operação ilegal de emissão de títulos públicos federais envolvendo nada menos que o ministro da Fazenda, Pedro Malan. Ele cobra do governo uma comissão de centenas de milhões de dólares, como remuneração pela suposta operação da qual teria sido parte. Suas cartas mencionam quantias estapafúrdias, como a de uma emissão clandestina feita há três anos no valor R$ 3 trilhões, o equivalente a três PIBs brasileiros. Bazzi cobra do governo uma comissão que, dependendo do documento, pode variar entre US$ 300 milhões e ? atenção ? US$ 610 bilhões. Até o nome de Alan Greenspan, o poderoso presidente do banco central americano, entrou na história.

O que torna esse caso digno de registro é que ele está incomodando o ministro da Fazenda, Pedro Malan. O ministro, que sempre demonstrou solene indiferença em relação às acusações de que é alvo, agora perdeu a fleuma. Na última terça-feira 21, Malan entrou com uma representação junto ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, pedindo um processo por calúnia e difamação contra Bazzi. ?Acho muito estranho que alguém o leve a sério e que tenha curso esta história de que eu teria transferido US$ 1 trilhão de uma contra para outra. Por isso, estou processando este senhor?, disse Malan à DINHEIRO.

 

 

O processo aberto pelo ministro une-se à investigação confidencial contra Bazzi que tem sido tocada pela Polícia Federal desde agosto, a pedido da própria Fazenda. O processo 04.472/00 está sob o comando do delegado Angelino Alves, que tem recorrido aos técnicos do Tesouro Nacional nos últimos meses para obter informações mais detalhadas sobre os títulos públicos do governo. Isso é necessário porque a operação envolve uma rocambolesca trama financeira com empresas canadenses e americanas e mais de ?duas mil pessoas?, segundo relato do próprio Bazzi. Entre elas está a Parenteau & Parenteau International, uma consultoria canadense com sede em Montreal, a Residential Resources Inc., a Consortim Investement Group Inc., e a Triple Infinity Asset. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) assegura que as empresas realmente existem, movimentaram apenas quantias de até no máximo US$ 4 milhões nos últimos 10 anos. Em cartas supostamente trocadas entre Bazzi e Rita Laframboise, vice-presidente da P&P, a executiva dá detalhes das emissões. Em umas dessas cartas, Laframboise cita um encontro que teria acontecido entre ela e Malan em Nova York. Ali, Malan teria combinando a operação. Mais adiante, Laframboise cita o poderoso Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve System, com a mesma naturalidade de quem descreve o gerente do banco da esquina. Laframboise diz no documento que Greenspan estaria dando aval à operação. ?Com a interferência do senhor Alan Greenspan, nenhum problema ocorreu até agora?, escreve ela. DINHEIRO tentou falar com a executiva duas vezes por telefone. Nas duas ligações feitas para o escritório no Canadá, Laframboise bateu o telefone.

 

Pelo fabulesco das quantias envolvidas, pelo despropositado da trama e, sobretudo, pela precariedade da documentação envolvida, essa história não se sustenta em pé por dois segundos. Um tradutor a serviço de DINHEIRO descobriu, por exemplo, que parte da suposta papelada produzida pela empresa de consultoria canadense foi escrita originalmente em português, e vertida, depois, ao idioma de Shakespeare com erros tão grosseiros que seu conteúdo se torna simplesmente incompreensível. A coisa toda parece mais falsa do que nota de três.

Posto isso, fica difícil entender por que o governo está perdendo tempo com tamanha sandice. Na quarta-feira 22, cinco assessores de Malan receberam os jornalistas Expedito Filho e Estela Caparelli, de DINHEIRO, para uma conversa sobre o caso. Estavam lá o chefe de gabinete do ministro, João Batista Nascimento; Paulo Márcio Neves Rodrigues, chefe do gabinete do secretário do Tesouro, Marcos Aucélio Pereira, coordenador-adjunto do Tesouro, Ronnie Gonzaga, chefe da mesa de operações do Tesouro e o advogado Almério Cançado de Amorim, secretário-adjunto do Tesouro. A explicação na Fazenda é que a apuração do caso se faz necessária porque Yussef, na verdade, seria testa de ferro de um verdadeiro esquema internacional de vendas de títulos brasileiros falsos. É fato que algumas empresas, entre elas uma do Arizona, ligaram para a mesa de operações do Tesouro para se informar sobre a venda de bilhões de reais em títulos. ?Respondemos que o Tesouro não faz emissões a pedido de investidores. Tudo é feito em leilões?, diz Gonzaga.

Enquanto isso, a PF investiga Yussef, um homem de poucos menos de 40 anos, fala mansa e gestos contidos, que diz estar apenas ?cobrando o seu direito de trabalhador?. Bazzi anda com seguranças e diz ter sido ameaçado de morte por gente do governo. Enquanto explica a operação, olha para os lados e aponta possíveis arapongas por onde quer que ele ande. Após se despedir da reportagem de DINHEIRO, os seguranças armados, com Bazzi à frente, seguiram e fecharam o carro da reportagem em um estacionamento de shopping de Brasília onde, a pedido dele, aconteceu a entrevista. Bazzi saiu do carro e disse. ?Já combinamos. Nada de fotos. Sei onde você mora?, ameaçou. No rastro do caso, a Polícia Federal informou à repórter Deise Leobet, de DINHEIRO, que Bazzi teve apenas uma conta bancária, já cancelada, e nunca declarou imposto de renda. Pior: Bazzi tem ainda dois CPFs, uma prática comum de gente que atua no reino da malandragem. ?Nós não somos picaretas, somos gente honesta?, reafirma o protagonista, que afirma temer por sua integridade física. Ele registrou em cartório uma inusitada declaração responsabilizando o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e toda sua diretoria por qualquer acidente que possa acontecer com ele, ?tais como atropelamentos, erros em medicações, induzimento (sic) ao suicídio e acidente em sanitários e banheiros?.

Na conversa direta com ele imerge o motivo mais provável da irritação do ministro Malan e a causa da acusação de extorsão que se faz contra Bazzi na Fazenda. O auto-denominado empresário garante ter uma fita com diálogos de Malan que, na sua avaliação, comprometem o ministro. Eis aí, possivelmente, o verdadeiro objeto da barganha insensata que ele propõe ao governo. ?Chantagem é crime?, avisa Batista Nascimento, o chefe de gabinete do ministro. Nesta semana, o delegado da Polícia Federal desembarcará, finalmente, em São Paulo, para ouvir o depoimento de Bazzi, o que já deveria ter sido feito pelo menos desde agosto, quando o inquérito foi aberto. Ainda que tardia, trata-se de uma boa medida para saber a real dimensão do problema. Mais que isso: ao retirá-lo da sombra, a PF poderá ajudar a entender por que um sujeito de perfil nebuloso como Bazzi pôde ser ousado o suficiente para tentar extorquir vantagens do Ministério da Fazenda.

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