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Um Brasil famélico

A insegurança alimentar não importa para o presidente. Mas é o que vai tirar seu apetite em outubro.

Um Brasil famélico

Faz 1 mil dias. Pouco mais. Foi no primeiro encontro do presidente JB com jornalistas estrangeiros. Uma sexta-feira, 19 de julho de 2019. “A imprensa tem uma imagem distorcida de quem eu sou”, afirmou. Pura verdade. Mas ao contrário do que quis dizer, a distorção era outra. A dúzia de profissionais que o acompanhou naquele café da manhã esperava de sua performance como gestor algo entre o medíocre e o ruim. Veio o pior. Uma espécie de confirmação da sentença de que em todo poço sem fundo existe no fim um alçapão. O ungido de uma nação rachada. Ele, 57 milhões de votos. Do lado oposto, 58 milhões — a soma dos que escolheram o adversário, ou decidiram votar em branco, ou anular. Isso sem falar noutros 31 milhões que nem apareceram para votar. Com seis meses de governo, dois terços dos brasileiros já diziam que sua atuação era ruim (33%) ou regular (31%). Só o próprio JB ainda achando que o problema da visão do mundo sobre ele era questão de miopia midiática internacional.

Foi nesse encontro, e nesse mood, que ele desferiu a estúpida declaração de que por aqui não faltava comida. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse. “Passa-se mal, não se come bem. Agora, passar fome, não.” Ignorava que desde o ano anterior (2018) o Brasil havia voltado a fazer parte do Mapa da Fome, quando 5% ou mais da população ingere menos calorias que o recomendável. Seus cidadãos já passavam fome. Em mais dois anos de seu desgoverno, o cenário piorou. A independente Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) divulgou em 2021 pesquisa sobre a fome no contexto da Covid, e concluiu que dos 212 milhões de brasileiros, quase 117 milhões (55%) convivem com algum grau de Insegurança Alimentar. Para entender do que se trata essa tragédia, vale responder o questionário a seguir, da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), adotada pelo governo federal há 18 anos.

Nos últimos três meses…
1… Os moradores de sua casa tiveram a preocupação de que os alimentos acabassem antes de poder ter mais comida?
2… Os alimentos acabaram antes que tivessem dinheiro para comprar mais comida?
3… Os moradores de sua casa ficaram sem dinheiro para ter uma alimentação saudável e variada?
4… Os moradores de sua casa comeram apenas alguns poucos tipos de alimentos que ainda tinham porque o dinheiro acabou?
5… Algum morador de 18 anos ou mais deixou de fazer alguma refeição porque não havia dinheiro para comprar comida?
6… Algum morador de 18 anos ou mais ou mais, alguma vez, comeu menos do que achou que devia, porque não havia dinheiro para comprar comida?
7… Algum morador de 18 anos ou mais, alguma vez, sentiu fome, mas não comeu, porque não havia dinheiro para comprar comida?
8… Algum morador de 18 anos ou mais, alguma vez, fez apenas uma refeição ao dia ou ficou um dia inteiro sem comer porque não havia dinheiro para comprar comida?

Cada sim vale 1 ponto. Nenhum sim significa Segurança Alimentar. De 1 a 3 resulta em Insegurança Leve. De 4 a 5 é Insegurança Alimentar Moderada. De 6 a 8, Insegurança Alimentar Grave. Nosso resultado como nação? Péssimo: 43,4 milhões não tinham em 2021 alimentos em quantidade suficiente e 19 milhões enfrentavam a fome. A situação de Insegurança Alimentar Grave e fome regrediram aos patamares de 2004. O estudo está aqui (http://olheparaafome.com.br/VIGISAN_Inseguranca_alimentar.pdf). Apesar de os dados se relacionarem ao ambiente de Covid, outra doença gravíssima com reflexo direto ainda maior na questão da fome ataca o Brasil: a inflação. Os 12,13% do IPCA de abril, puxados por alimentos & bebidas, jogam a cada dia levas de brasileiros dizendo “sim” a mais algumas das oito questões da Ebia.

O ensaísta francês Jacques Attali, autor de A Epopeia da Comida (2021, editora Vestígio), diz que parte da péssima gestão da alimentação no planeta é de responsabilidade da indústria agroalimentar e que deveria ser instituído um Tribunal Penal Internacional de Alimentação. Sugere usar como base jurídica para tal Corte o Codex Alimentarius, da FAO/OMS, e o documento International Covenant on Economic, Social and Cultural Rights, da ONU, assinado por 169 países em 1966. Em seu artigo 11 está escrito que “os Estados signatários reconhecem o direito fundamental que todas as pessoas têm de se manter livre da fome” (https://www.ohchr.org/en/instruments-mechanisms/instruments/international-covenant-economic-social-and-cultural-rights). E que as nações devem tomar atitudes concretas para que isso não ocorra. Jacques Attali pensou nos grandes players de toda a cadeia da indústria de alimentos. Eu leio isso e penso no presidente JB.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.