Um bom momento para pensar em nossas meninas

Um bom momento para pensar em nossas meninas

Nestes dias estranhos, em que boa parte das pessoas está dentro de casa tentando achatar a curva de uma assustadora pandemia, balanços têm sido inevitáveis (e assunto recorrente das redes sociais). Um deles, turbinado exatamente pelas incertezas do cenário, tem a ver com a maneira como estamos criando nossos filhos para enfrentar um mundo cada vez mais complexo – e que precisa, urgentemente, ser mais justo para todos.

Nessa jornada da criação, pais e mães costumam usar uma mistura de empenho, boas decisões e amor para acertar. Nem sempre conseguem (ou conseguimos, e aqui eu me incluo).

Uma pesquisa feita em conjunto por professores da Northwestern University e UCLA, nos Estados Unidos, e da London School of Economics, na Inglaterra, encontrou evidências muito claras de que, não importa quão bem intencionados estejam, pais e mães acabam transmitindo seus vieses de gênero à prole e isso, no futuro, vai prejudicar especialmente suas filhas – sua autoestima, capacidade de liderança, escolhas de carreira e até o salário.

O que pode parecer óbvio ganha força com os detalhes da pesquisa. Ela partiu de um estudo anterior que mostrou que, em países com maior igualdade entre os gêneros, as notas de matemática eram mais altas, e mais parecidas entre meninos e meninas. Ainda assim, as delas eram sempre menores. Os pesquisadores resolveram, então, medir a influência da família no desempenho das meninas em matemática. É sabido que as carreiras em que essa disciplina é fundamental são, hoje, as mais promissoras e bem pagas, além de concentrarem o maior número de líderes em diversos setores e indústrias. Estamos falando de ciências, tecnologia e engenharia que, com a própria matemática, formam a já famosa sigla STEM em inglês, e desenham o futuro do trabalho nas próximas décadas.

Em famílias que eles classificaram como “boys biased” por diversas características (uma delas, o fato de que só pararam de ter filhos quando nasceu um menino), a falta de estímulo para algo que é tão “masculino” quanto entender de números leva as meninas a terem notas bem abaixo da média em matemática. Até piores do que meninas de famílias não “boys biased” nas quais as mães deixaram os estudos.

As notas das meninas também se mostraram piores em famílias onde as mães concordaram mais com frases como “Mulheres são muito mais felizes quando ficam em casa e tomam conta dos filhos”. Os pesquisadores notaram que tanto seus filhos como filhas acabam reproduzindo esse tipo de viés, concordando com frases como “Uma menina não pode deixar um menino perceber que ela é mais esperta do que ele”. Mas as notas desses meninos são sempre melhores.

Nas famílias de renda mais alta surgiu outro dado curioso: uma diferença de performance em matemática ainda maior entre meninos e meninas. Mergulhando nas causas, eles concluíram que essas famílias investem em aulas de computação e ciências para os meninos (além de uma série de atividades competitivas), enquanto as meninas são enviadas para escolas de dança e música. Ou seja, com o legitimo apoio da família, eles aprendem ainda mais – e elas continuam presas na armadilha dos estereótipos de gênero.

Os achados da pesquisa combinam com o de outra liderada por uma professora de Harvard, nos Estados Unidos, que mostra a relação direta entre mães que trabalham fora de casa e moças bem-sucedidas em seus empregos – conquistando salários e cargos mais altos em menor tempo. Quanto aos rapazes criados por essas mães,  acabam sendo mais colaborativos em casa, assumindo tarefas de cuidado da família não habituais entre os homens, sem perdas em seu desempenho profissional.

A conclusão de ambos os estudos é que o aprendizado em casa – e o exemplo da mãe – são fundamentais para criar não apenas uma compreensão de papéis de gênero mais equilibrada entre os filhos como para construir, nas meninas, um modelo mental que lhes permita acessar seus potenciais. Não são os únicos fatores – a falta de mulheres que possam ser vistas como referência ainda confunde aquelas que tentam (e não conseguem) se enxergar em carreiras mais, digamos, masculinas. Mas, certamente, são dos mais importantes.

Portanto, nestes momentos de intensa convivência familiar, um regime 24 x 7 em que podemos observar tudo mais de perto e pensar nas mudanças necessárias e urgentes, olhar para como estamos permitindo que nossas meninas sejam educadas – sejam filhas, enteadas, sobrinhas, irmãs, primas, colegas, alunas e todas as outras -, pode fazer uma grande diferença em quem elas (e o mundo) serão no futuro. Vale a pena usar estes dias estranhos para fazer um bom balanço sobre isso.

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Sobre o autor

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.


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