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Um banquinho, um violão e centenas de startups

Desde 2015, o fundo de investimentos Bossa Nova já investiu em 354 empresas. A meta é alcançar mil companhias até 2020

Dupla afinada: assim como Tom Jobim e Vinícius de Moraes (no destaque), Pierre Schurmann e João Kepler (da esq. para a dir.) querem fazer a Bossa Nova ganhar o mundo (Crédito:Claudio Gatti | Divulgação)

Na década de 1950, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto consagravam um gênero musical que o mundo passaria a conhecer como bossa nova. Compostas por letras simples e melodias executadas em violões e pianos, as músicas eram calmas e descompromissadas. Sessenta anos depois, o ritmo que rodou o planeta batizaria também um fundo de investimentos brasileiro que de calmo e descompromissado não tem nada. Liderado pelos empresários Pierre Schurmann e João Kepler, o agressivo fundo de venture capital começou a realizar aportes em 2015. De lá pra cá, o Bossa Nova já injetou mais de R$ 50 milhões em 354 startups, que juntas já valem R$ 6,5 bilhões, e quer investir em 1.000 empresas até o fim de 2020. “Queremos olhar para onde todos estão olhando, mas enxergar o que ninguém está vendo”, diz Kepler.

Para cumprir a ambiciosa meta, os empresários, que têm uma participação média de 8,5% nas startups, apostam em um modelo de negócio ainda carente no País. “Há uma lacuna entre os aportes iniciais que as empresas recebem e as rodadas de investimento que elas realizam quando a operação já está consolidada”, afirma Kepler. Assim, em vez de atuar como um investidor-anjo, a Bossa Nova busca por empresas que já receberam alguma injeção de capital, mas que ainda não tenham sido alvos de novos investimentos. “Recebemos muitas propostas, mas a maioria não está madura o suficiente”, diz Schurmann. “Preferimos nós mesmos irmos atrás das empresas.”

Neste estágio, qualquer injeção de dinheiro feita pelos fundos é chamada de pré-seed. Caso algum negócio deslanche e receba investimentos de terceiros, a Bossa Nova tende a realizar mais aportes para que sua participação no negócio não seja muito diluída. Apesar de não ser uma regra geral, o fundo realizou novos aportes, de R$ 500 mil, em média, em todas as companhias que receberam investimentos de Série A, como a HandTalk, de serviços de tradução para libras, e a AgendaEdu, de gerenciamento de comunicação para escolas.

Os aplicativos vai.car e veek (da esq. para a dir.) receberam aportes entre R$ 100 mil e R$ 800 mil da bossa nova

A inspiração para operar dessa forma vem do fundo americano SV Angel, conhecido como “o padrinho das startups”. Fundado em 2009, o fundo investe entre US$ 25 mil e US$ 100 mil em mais de 600 empresas. Desde sua origem, já encontrou 23 unicórnios, como são conhecidas as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. São os casos da rede social Snapchat e Pinterest e do serviço de hospedagem Airbnb, que contaram com o apoio da SV Angel em seus estágios iniciais.No fundo brasileiro, esses aportes variam entre R$ 100 mil e R$ 800 mil. O dinheiro vem, em grande parte, do grupo BMG. Em março do ano passado, o banco mineiro tornou-se sócio minoritário da Bossa Nova. Com a parceria, o fundo recebeu R$ 100 milhões para investir em novos empreendimentos e, quem sabe, encontrar o seu primeiro unicórnio. “Isso pagaria todo o investimento ”, diz Kepler. O empresário prevê que a cada mil startups aportadas, pelo menos uma se torne bilionária.

Para fazer isso, a dupla trabalha com algumas exigências. Eles só buscam por negócios que já tenham faturamento e contem com operações voltadas ao mercado corporativo e não ao consumidor final. “Não é aquele investimento metralhadora, no qual os fundos atiram para todos os lados”, diz Marcus Quintella, coordenador do curso de empreendedorismo da Fundação Getúlio Vergas. “Eles esperam o negócio sair do chão antes de colocarem dinheiro. É mais seguro.” Além disso, eles também procuram companhias que possam trabalhar umas com as outras. Por exemplo, uma mesma empresa pode contar com os serviços de segurança cibernética da PhishX, com o aluguel de transportes disponibilizado pela Vai.Car, com projetos de marketing e venda feitos pela Trakto, e com suporte de telefonia móvel da Veek. “Eles têm um modelo de negócios que abre muitas portas para as startups”, diz Alberto Blanco, CEO da Veek.

O grande desafio da Bossa Nova é conseguir administrar tantos aportes. Para acompanhar os negócios, Schurmann e Kepler recebem relatórios mensais e, ocasionalmente, se encontram com os CEOs das startups.“Não são mil investimentos ao mesmo tempo”, diz Schurmann. Segundo ele, como os aportes são feitos de forma gradativa, as startups estarão em diferentes estágios de desenvolvimento em 2020. Enquanto algumas estarão recebendo as injeções de capital da Bossa Nova, outras já terão recebido dinheiro de outros fundos. “Isso vai permitir que elas sejam menos dependentes da nossa interação diária.”

A estratégia da dupla para chegar a marca de 1.000 startups é internacionalizar os investimentos. O alvo preferido no exterior são os EUA. Dos quase 650 negócios que faltam ser fechados para que a Bossa Nova alcance seu objetivo, a expectativa é de que cerca de 250 aportes sejam feitos por lá. Outro país na mira é Portugal, onde a companhia já fincou os pés com, pelo menos, um investimento – o nome da startup não foi revelado. O mercado asiático é outro que está sendo estudado. Assim como a música, o dinheiro brasileiro também dá mostras que pode ser querido no mundo todo.