Edição nº 1096 15.11 Ver ediçõs anteriores

Trump faz seu jogo

Trump faz seu jogo

Definitivamente, o presidente norte-americano, Donald Trump, estabeleceu uma nova ordem mundial onde ele quer ser o centro de tudo e senhor do jogo, a despeito do que pensam e almejam seus parceiros. Nos últimos dias, o “líder do mundo livre” deu sinais inéditos e ousados na política externa, de maneira a surpreender críticos e aliados. Ninguém entendeu ou aceitou direito a atitude intempestiva de Trump de simplesmente romper com o G7, não endossando o comunicado do grupo em mais uma reunião de cúpula dias atrás. Ele se irritou com o premiê canadense e tratou de insultá-lo para, logo depois, bater o pé e retirar seu apoio às deliberações propostas no encontro. Foi chamado de infantil e desagregador por seus pares.

Estremeceu as relações, principalmente no bloco europeu, com aliados tradicionais como a Alemanha – com todas as consequências no plano político e econômico que uma situação como essa acarreta. A chanceler Angela Merkel chegou a confrontar o líder americano pedindo explicações, mas esse se manteve inarredável na posição. A Alemanha, desde então, vem pedindo à União Europeia uma postura mais coesa de retaliação a Trump. Há uma profunda decepção em curso na região com o que é considerada uma linha demasiadamente protecionista, egoísta mesmo, dos EUA. A política do “American First” (EUA em primeiro lugar), que prega Trump, causa não apenas mal-estar como rompimentos ruidosos e financeiramente estrondosos.

Os blocos comerciais nos quais os EUA participavam, como o Nafta, estão por um fio. Acordos comerciais escassearam. As restrições, em forma de sobretaxa, aos produtores de commodities como aço só serviram para esquentar ainda mais o clima. Trump faz de aliados inimigos enquanto, curiosamente, marca tentos importantes junto àqueles antes considerados adversários ferrenhos. O encontro com o ditador norte-coreano Kim Jong-un é um exemplo. Marco histórico na relação entre os dois países, a cúpula Trump-Kim serviu ao menos para aliviar o clima de tensão crescente que vigorava até então. Não sairam dali medidas concretas, mas no campo das intenções a mera promessa coreana de iniciar a desmobilização de seus mísseis atômicos trouxe alívio global.

Trump até convidou Kim para visitar os EUA e conhecer as conquistas do capitalismo. Esse por sua vez arrancou do americano uma garantia de que seu país não será atacado, como antes imaginava. Bom para ambas as partes – especialmente no que se refere ao marketing pessoal de cada um –, a conversa dos dois decerto não aplacou todos os temores e dúvidas que predominam entre os demais parceiros. A Europa continua com um pé atrás sobre Trump e quanto a Kim. Sul-americanos e asiáticos, idem. Mas Trump segue dando as cartas, ao seu jeito.

(Nota publicada na Edição 1074 da Revista Dinheiro)


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