Trump é a versão ocidental de um imperador chinês

Trump é a versão ocidental de um imperador chinês

Nesta quarta-feira, 15 de janeiro, Estados Unidos e China finalmente assinaram a Fase 1 do seu globalmente aguardado acordo comercial. Bandeira do presidente norte-americano desde o início de seu mandato, esse acordo representa, além de metas comerciais mais previsíveis entre as duas potências, um ponto de equilíbrio temporário em sua conturbada relação.

Trump foi eleito em 2016 embalado pelos bordões Make America Great Again e America First, o que sempre soou como uma ameaça à economia globalizada e uma espécie de sinal verde aos famintos por subsídios regionais. Muitos discursos de Trump tratavam o déficit comercial norte-americano com a China como um grande exemplo do descaso (ou apenas estupidez, segundo o dialeto ‘Trumpês’) dos presidentes anteriores com o tema. Jogando para a sua plateia interna, criticou abertamente democratas e republicanos, acusando-os de transferir empregos e riqueza dos Estados Unidos para o outro lado do mundo.

A verdade é que nenhum presidente americano deliberadamente transferiu riqueza dos Estados Unidos para a China. Como tudo na vida, foi uma troca. O baixo custo de produção chinês aumentou de maneira considerável o poder de compra do consumidor americano, barateando o preço dos produtos. Se houve transferência de empregos dos EUA para a China, em contrapartida houve uma transferência relativa do baixo preço da mão de obra chinesa para o preço dos produtos nas prateleiras americanas. Deve-se à essa relação de simbiose o fato de a economia americana ter crescido sem nenhuma pressão inflacionaria significativa desde os anos 1990. Os americanos têm uma expressão que diz tudo: you can’t have your cake and eat it too. O problema é que os Estados Unidos parecem sempre querer manter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo – e se esquecem que os chineses já estão nesse jogo há muito tempo.

É bastante difícil para nós, no ocidente, compreender uma cultura milenar. O ex-chanceler americano Henry Kissinger, na abertura de seu excelente livro ‘On China’, aborda esse ponto com a experiência de quem lidou com o tema de perto: “Uma característica especial da civilização chinesa é que ela parece não ter começo. Ela surge na história menos como uma nação-estado convencional e mais como um fenômeno natural permanente (…) Passou por períodos de guerra, caos e interrupção, mas se reconstruiu após cada um desses eventos como se fosse uma lei imutável da natureza”.

A visão chinesa de mundo é que a China é o centro do mundo. Não é à toa que o próprio nome do país, em chinês, Zhōngguó, significa ‘Reino Central’, lugar que os chineses sempre acreditaram ocupar na história. Todos as outras culturas seriam periféricas e, quando confrontadas com a chinesa, teriam que paulatinamente se adaptar ao modo de pensar chinês. Se o país fosse uma democracia, certamente todos os presidentes seriam eleitos com o mantra China First. Por esse ângulo, as relações entre EUA e China tendem a piorar, e não melhorar. É fácil entender por que America First não combina com China First – e vice-versa.

Kissinger compara o jogo milenar Wei qi, muito popular na Ásia, com o jogo de xadrez. Wei qi é um jogo de equilíbrio e julgamento, enquanto o xadrez é um jogo de decisão. Usando essa analogia, a Fase 1 do acordo parece mais uma figura de equilíbrio no Wei qi, do que um xeque-mate do xadrez.

Vamos aos detalhes: comprar produtos agrícolas americanos atende aos interesses de ambos os países. Nesse caso, será pior para os exportadores de soft commodities, como o Brasil. Como garantir, no entanto, que a propriedade intelectual americana não será copiada pelos chineses? Impossível, na minha opinião. Esta é uma daquelas cláusulas que foram escritas para serem quebradas. Os chineses fingem que vão cumprir, os americanos fingem que acreditam. O acordo também fala sobre a abertura do mercado de serviços financeiros na China. Tendo sido responsável pela mesa de operações de um banco estrangeiro naquele país durante três anos, posso dizer com a experiência de quem tentou: é impossível competir. A regra que o banco estrangeiro deve seguir é sempre pior do que a regra que vale para o banco chinês.

O resultado final é um equilíbrio temporário em que os chineses evitam a imposição de mais tarifas, e o presidente americano pode exibir internamente uma vitória pessoal para usar na eleição deste ano contra os democratas. Olhando de cima, uma coisa é certa: os chineses encontraram pela frente o melhor jogador americano de Wei qi dos últimos tempos. Assim como os imperadores chineses acreditavam ser imperadores da humanidade, o centro de toda a verdade, Trump opera, age e negocia da mesma maneira.

O que tem tudo isso a ver com Value Investing? Na minha opinião, esse equilíbrio temporário deve durar pelo menos até a eleição em novembro deste ano. O fato político já foi criado – e não vale a pena para nenhuma das partes sair desse equilíbrio no curto prazo. Partindo dessa premissa, é uma variável a menos de incerteza no horizonte. Não acredito que veremos uma Fase 2 antes do ano que vem.

Isso não significa, entretanto, que os problemas acabaram. Muito pelo contrário. Se Trump for reeleito em novembro, a chance de mais atritos nessa relação é grande. Ele vai querer trabalhar para deixar um legado pessoal, e com certeza a Fase 2 deste acordo faz parte deste cardápio. Um segundo mandato certamente provocará o rompimento do frágil equilíbrio entre as duas potências. Obviamente, a incerteza também aumentará na eventual eleição de um democrata. Não há clareza, ainda, sobre a postura de nenhum dos pré-candidatos do partido do ex-presidente Barack Obama em relação a China.

Agora o tempo é claro e os ventos estão calmos. Nesse ambiente, é muito importante segurar a ansiedade e comprar ativos que realmente estejam com o valor muito baixo em relação ao seu valor intrínseco. Minha impressão, todavia, é que as oportunidades para novas posições ganhadoras virão mesmo no segundo semestre. O mercado vai se agitar ao sabor da eleição presidencial, que será o evento mais quente do ano, especialmente se tivermos do lado democrata um candidato mais à esquerda. Por enquanto, vamos aproveitar a paz celestial entre China First e America First – enquanto ela durar.


Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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