Economia

Trump dispara outra vez

Com ameaças de sobretaxa de até US$ 450 bilhões sobre produtos chineses, presidente americano declara de vez guerra comercial com o gigante asiático e arrasta o mundo junto

Crédito: Richard Ellis/Getty Images

De olho no alvo: o presidente Donald Trump mantém o discurso que suas ações protegerão os americanos. Na foto, em 2015, antes de ter sido eleito, ele recebe uma réplica de um rifle usado na Guerra Civil americana (Crédito: Richard Ellis/Getty Images)

O presidente americano, Donald Trump, vem empunhando armas contra o comércio global há algum tempo. Com um novo disparo sobre a China, ele mergulhou o mundo de vez numa zona de guerra sobre as trocas de mercadorias. Os EUA anunciaram as datas em que irão impor tarifas de 25% sobre US$ 50 bilhões de produtos importados da China, além de estudos de novas medidas sobre US$ 200 bilhões. O país asiático prometeu revidar com uma sobretaxa da mesma proporção, a partir da qual Trump já adiantou que teria um novo contra-ataque, de mais US$ 200 bilhões, o que elevaria a conta para US$ 450 bilhões em produtos sobretaxados. De painéis solares ao aço, as barreiras se acumulam, com respostas da União Europeia, Canadá e México, numa ameaça para a economia internacional.

Caso todas as medidas se concretizem entre EUA e China, cerca de 4% das importações mundiais estariam sujeitas a uma tarifa adicional, de acordo com a consultoria britânica Oxford Economics. Haveria um prejuízo direto às economias de ambos os lados. O efeito negativo seria de 0,3% do PIB americano e de 0,2% sobre a perspectiva de crescimento chinesa, prevê a Oxford. Para 2018, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta um avanço de 2,9% para a primeira e de 6,6% para a segunda. Com mais armas no campo de batalha, essa ameaça vem sendo antecipada pelo mercado financeiro, em grande volatividade das maiores bolsas do mundo. Em meio à retórica bélica, a queda acumulada entre 15 e 21 de junho foi generalizada: o Dow Jones (Nova York) caiu 2,5%; o TAX (Frankfurt), 3,8%; e o SHCOMP (Shangai), 4,8%.

Os prejuízos financeiros mais evidentes, no primeiro momento, escondem a profundidade da questão. Um mundo em constante guerra comercial significaria perda generalizada e uma desconfiança permanente de investidores. Na mesma semana em que o FMI divulgou suas previsões sobre a economia dos Estados Unidos, a diretora-executiva da instituição, Christine Lagarde, disse que haverá “perdedores dos dois lados” com uma guerra comercial. “O que é mais crítico e mais difícil de avaliar no momento é o impacto real na confiança.”

Embora a disputa com a China envolva as maiores cifras, a barreira de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio foi a que afetou mais países. Houve diferenciação para cada mercado. Após o anúncio, em março, os governos atingidos tiveram uma isenção temporária de semanas para negociar alternativas. O Brasil acabou cedendo às imposições. A Coreia do Sul conseguiu negociar para atrelar as tarifas ao aumento de compras de carros coreanos. Índia, Rússia e China não receberam nem o período de isenção e já foram tarifadas a partir de março. Taxas sobre União Europeia, México e Canadá entraram em vigor dia 10 de junho.

Reações: à esquerda, a diretora-executiva do FMI, Chirstine Lagarde, cumprimenta o presidente chinês, Xi Jinping, durante o encontro do G20. Ela têm alertado para os perigos da disputa. À direita, operadores da bolsa de Nova York avaliam as perdas financeiras após o novo anúncio de Trump (Crédito:AFP Photo / Greg Baker)

Ali começavam a se desenhar os primeiros contornos da disputa mundial. Desde março, os europeus seguem dizendo que não cederão às pressões americanas. Na sexta-feira 22, a Comissão Europeia, braço executivo do bloco, iniciou a cobrança de 25% de sobretaxas sobre US$ 3,2 bilhões de produtos americanos, incluindo whisky Bourbon e motos Harley-Davidson. Os países europeus temem também outra ameaça de Trump: uma sobretaxa de 20% sobre todos os automóveis da UE vendidos para os EUA, o que atingiria em cheio gigantes como a Volkswagen. “A decisão americana vai contra toda a lógica”, disse Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão. “Faremos o que for preciso para trazer equilíbrio e nos resguardar.”

Os parceiros do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, em inglês) já haviam sido surpreendidos ao saber da sobretaxa do aço e do alumínio, em junho. Apesar das críticas públicas de Trump à parceria, o México e o Canadá esperavam que a isenção das taxas fosse permanente. “Essas tarifas são inaceitáveis”, afirmou Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, o maior parceiro comercial dos EUA, na época. “Obviamente, as tarifas levarão a medidas retaliatórias, algo que é necessário.” Na semana seguinte, os líderes das nações do G7 se encontraram, coincidentemente, no Canadá, no que foi um encontro histórico, mas pelos motivos errados. Trump bateu de frente com os outros líderes, não recuou de sua posição e, entre outras grosserias, chamou Trudeau de “fraco”.

Praticamente todos os afetados entraram com representações contra as medidas americanas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Além de demoradas, essas queixas chegam num momento em que o próprio papel da instituição é colocado em xeque. “Os processos de disputa demoram muito tempo, com muitas etapas”, diz Adam Slater, economista da Oxford Economics. “Isso é desencorajador para que os países procurem a OMC e não façam mais nada.” Em entrevista à DINHEIRO, em maio deste ano, o diretor-geral da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, alertou as nações para os “riscos de partirem para uma dinâmica de retaliações recíprocas” sobre a economia global.

Dois lados da moeda: a soja brasileira, como a exportada a partir do porto de Paranaguá (PR), à esq., tem o potencial de ocupar o possível vazio deixado pelos americanos no mercado chinês. Já o aço produzido na Alemanha, um dos principais produtos do país, enfrenta as novas taxas de Trump desde 1º de junho (Crédito:Divulgação | Alexander Koerner/Getty Images)

GANHO DE CURTO PRAZO A ofensiva global de Trump não poupou o Brasil. Para driblar a sobretaxa, o setor de aço nacional teve de aceitar cotas de exportação aos Estados Unidos. A indústria nacional de alumínio preferiu incorporar a taxa adicional de 10%. Segundo Milton Rêgo, presidente-executivo da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), o risco é de como a China reagirá. “Se ela passar a não vender para os EUA, essa produção de alumínio vai inundar o mercado, talvez a um preço mais barato do que o brasileiro. Nós perderíamos competitividade.” O que é problema no caso do alumínio pode ser vantagem no da soja, segundo maior item exportado pelo País.

Se a China retaliar e impuser tarifas sobre compras dos EUA, pode haver uma busca por alternativas, como a Argentina e o Brasil. “Os chineses já começaram a procurar o Brasil e a tentar facilitar a forma de negociar conosco”, afirmou Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). Porém, ganhar uma batalha não quer dizer vencer a guerra, e, para alguns, os efeitos positivos tendem a ser temporários. “Talvez a priori os produtores vendam muito e a bons preços para a China”, afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Segundo ele, porém, esse aumento temporário não será capaz de compensar a trajetória de queda já observada na cotação.

Para o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, não há ganhos para o País com a guerra comercial. “Aparentemente, temos um prêmio inicial pela soja mas, na sequência, será muito ruim”, afirmou na terça-feira 19. “Daqui a alguns anos, eles [chineses e americanos] voltam a se acertar, os EUA ganham o mercado de soja e nós ficaremos sem competitividade.” Essa interpretação mostra que os artificialismos das barreiras comerciais na abertura de mercados não são sustentáveis. Muito melhor é se todo o comércio pudesse jogar com regras claras e previsíveis. Só que isso está longe de ser verdade ao longo da Era Trump.

 


Saiu pela culatra

O presidente americano, Donald Trump, bem que insistiu, mas não conseguiu suportar as pressões – dentro e fora dos Estados Unidos – contra sua política linha dura de imigração, que separava filhos de imigrantes ilegais de seus pais. Após uma semana de exposição constante de cenas mostrando a situação dos cerca de 2.400 menores pegos com seus pais tentando atravessar a fronteira entre o México e EUA, o presidente determinou, na quarta-feira 20, a extinção da nova prática e a autorização para pais e filhos se reunirem novamente. As críticas foram tantas que até sua esposa, Melania Trump, condenou publicamente a política.

As crianças estavam sendo acomodadas sem a família em abrigos espalhados pelo país, enquanto os pais e responsáveis eram encaminhados para prisões, aguardando julgamento por imigração ilegal. Algumas famílias foram separadas logo na chegada aos EUA e muitos pais não foram informados para onde seus filhos foram levados. O Consulado-Geral do Brasil em Houston, no Texas, informou que 49 das crianças são brasileiras. “Vamos ter fronteiras fortes, muito fortes, mas manteremos as famílias unidas”, afirmou Trump ao revogar sua política. “Eu não gostei da sensação de famílias estarem sendo separadas.”

Agora, depois de todo o escândalo, o governo tenta aumentar o período máximo permitido pela lei americana para que uma família seja mantida junta ao ser detida, de 20 dias atualmente. Mas o documento não informa como será feito esse reencontro ou se ele será temporário. Trump buscou pressionar o Congresso ao afirmar que uma solução definitiva deve vir em forma de lei. Ele acusou os Democratas de tentar barrar a discussão no Legislativo por “querer abrir as fronteiras e deixar qualquer um entrar”.
Numa irônica coincidência, na mesma semana, os Estados Unidos decidiram abandonar a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, sob a alegacão de que ela é “parcial” e de que protege violadores dos direitos ao redor do mundo.