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Três vidas transformadas por Merkel

Com quatro mandatos e dezesseis anos no poder, Angela Merkel deixou sua marca na vida política alemã e europeia.

A AFP encontrou três cidadãos cujos destinos pessoais estiveram intimamente ligados às decisões da chanceler.

– O sírio e a selfie –

Foi um encontro rápido, “de apenas alguns segundos”, em um dia de setembro de 2015 em um centro de refugiados de Berlim.



Cercada por guarda-costas, Merkel segue seu caminho e Anas Modamani, um jovem sírio recém-chegado à Alemanha, admira a selfie que tirou com quem pensou que era uma “atriz conhecida”.

A foto do refugiado de 18 anos percorreu o mundo como um símbolo da generosa política de imigração de Merkel, que acabava de autorizar a chegada à Alemanha de numerosos imigrantes bloqueados na estação ferroviária de Budapeste.

Seis anos depois, Modamani mantém a imagem salva em seu telefone. Para ele, Merkel “salvou sua vida”.

“Me permitiu entrar no país, integrar-me (…) Ela é a mulher mais poderosa do mundo e me deu esta nova oportunidade”, conta à AFP no seu pequeno apartamento em Berlim.

A fotografia fez dele um herói para a comunidade síria da Alemanha, que agora soma mais de 700.000 pessoas. “Eu não era ninguém (…) e, de repente, as pessoas me convidavam para comer, outras vieram me ver”, lembra.

Mas sua popularidade também fez dele um bode expiatório para a extrema direita, que crescia no país. Sua foto voltou a circular, agora identificando-o como o arquiteto dos atentados em Bruxelas ou Berlim, ou do assassinato de um sem-teto no metrô.

Ele tentou fazer com que o Facebook excluísse essas imagens fraudulentas, mas perdeu no tribunal para o gigante americano. “Foi um período muito difícil”, diz o jovem, hoje com 24 anos.

“Eu gradualmente mudei minha opinião sobre a cultura anfitriã na Alemanha”, explica.

Mesmo assim, o jovem aprendeu alemão e em 2019 entrou na universidade, financiando os estudos com um emprego em um supermercado.

A partida de sua “heroína” o preocupa. “Temo que alguém venha e diga que os refugiados devem voltar para casa”, afirma. “Mas ninguém sabe como isso vai evoluir”.

– Um defensor nuclear no abismo –

Engenheiro experiente, Ralf Gueldner não entrou em pânico ao saber que um terremoto havia atingido a usina nuclear de Fukushima, no Japão.

Na verdade, esse diretor do ramo nuclear de um dos principais fornecedores de energia da Alemanha foi esquiar sem suspeitar de como sua vida iria mudar.

Menos de uma semana depois, Merkel anunciou de surpresa que a Alemanha iria fechar progressivamente todas as suas usinas nucleares.

“Fascinado” pelo átomo desde os estudos, ele já havia enfrentado dúvidas ao escolher esta carreira logo após o incidente de Chernobyl em 1986.

“Sempre estive convencido de que o que fazíamos na Alemanha era responsável”, diz ele.

Ele passou a comandar o braço nuclear da empresa de energia alemã Eon e, em 2010, tornou-se presidente do Fórum Nuclear Alemão, o principal grupo de lobby do setor.

No final daquele ano, a coalizão entre conservadores e liberais, já liderada por Merkel, estendeu as licenças de operação das usinas.

“Quase abrimos o champanhe”, diz Güldner.

Mas então chegou Fukushima.

Suas aparições na televisão para tranquilizar a população não deram certo: primeiro foi aprovada uma moratória temporária para reatores antigos e, cinco meses depois, começou a contagem regressiva para os demais.

“Foi uma elevação emocional” entre o choque com o desastre no Japão e o “desânimo” pessoal com o fim da indústria, explica ele.

O trabalho “a favor da proteção do clima e da nossa segurança” foi “apagado repentinamente”, afirma.

O último reator alemão será fechado no final de 2022, um ano após a saída de Merkel.

Güldner defende que essa tecnologia seja considerada uma alternativa “séria” aos combustíveis fósseis na luta contra as mudanças climáticas.

Mas reconhece que “é completamente irreal”.

– A eurodeputada grega contra a austeridade alemã –

Ativista pela justiça social, Constantina Kouneva jamais teria chegado ao Parlamento Europeu sem a austeridade draconiana imposta à Grécia na crise dos anos 2010.

Essa década sombria para seu país é inseparável da Alemanha e da rigidez intransigente incorporada por Merkel nas negociações da União Europeia e do FMI com Atenas.

“Quando ouvimos Schäuble (ministro das Finanças alemão entre 2009 e 2017 ou Merkel, esperávamos o pior”, disse esta eurodeputada.

Os credores do país “nos impuseram pobreza, pensões e salários mais baixos, inflação”, disse esta ex-faxineira de 56 anos, nascida na Bulgária.

Era “uma situação de guerra, sem guerra”, explica.

Uma feroz sindicalista, em 2008 sofreu um ataque com ácido que a deixou desfigurada e gravemente ferida. Ela ficou hospitalizada por meses, passando por trinta cirurgias, a maioria na França.

“Tive que me recuperar no exterior por causa da crise”, diz, lembrando dos cortes orçamentários aplicados no setor.

Seu rosto está mutilado, coberto por óculos escuros, perdeu um olho e tem lesões nas cordas vocais e alguns órgãos. Mas também se tornou um símbolo e, em 2014, foi eleita eurodeputada do partido Syriza, da esquerda radical.

“O mais incrível era ver os ataques contra a Grécia. Os gregos foram tachados de preguiçosos, acusados de não trabalhar e de passar muito tempo se divertindo”, diz Kouneva, cujo mandato terminou em 2019.

Ela só encontra um mérito na chanceler: o acolhimento de refugiados na crise de 2015.

Mas a Grécia continua pagando a conta do expurgo para evitar a falência e a saída do euro. “Salários baixos, pensões ruins (…) Nada acontece”, lamenta.

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