Economia

Tratado de paz

Pela primeira vez na história, a Espanha terá um governo de coligação e as forças progressistas do país, depois de tentarem acordo por seis meses sem sucesso, se entenderam em 48 horas

Crédito: Burak Akbulut/Anadolu Agency

PROGRESSISTAS UNIDOS Pablo Iglesias à esquerda(Podemos) e Pedro Sánchez (PSOE) se abraçam e inauguram o primeiro governo de coalizão da Espanha (Crédito: Burak Akbulut/Anadolu Agency )

Uma briga histórica e acentuada nos últimos seis meses entre os partidos de esquerda da Espanha se resolveu pouco mais de 48 horas da eleição de Pedro Sánchez do Partido Socialista dos Trabalhadores da Espanha (PSOE). No caminho para ascender ao cargo, o político se afastou de outras alas da esquerda do país, e o resultado foi a eleição de um parlamento com maioria da direita ultraconservadora. Diante disso, o presidente se reaproximou do Unidas Podemos e obteve êxito: Pablo Iglesias, líder do partido firmou com o presidente o que foi tratado como um “governo de coalizão progressista”.

O anúncio, inesperado, foi feito na terça-feira 12, em nome de um compromisso inédito para ultrapassarem, juntos, o bloqueio parlamentar. A decisão foi celada com um abraço entre os dois líderes. A oferta de Sanchez envolvia oferecer a vice-presidência do Executivo ao líder do Podemos e construir na democracia espanhola, pela primeira vez, um governo de coligação. A efetuação deste pacto, no entanto, ainda depende do apoio ou da abstenção de outros partidos no Congresso dos Deputados, incluindo independentistas, nacionalistas e regionalistas.

“O que em Abril era uma oportunidade histórica converteu-se agora numa necessidade histórica. Fico satisfeito por anunciar, junto a Sánchez, um pré-acordo para formarmos um Governo de coligação progressista, que combine a experiência do PSOE com a valentia do Podemos”, afirmou Iglesias, numa conferência de imprensa conjunta no Congresso, em Madrid, prometendo “lealdade” ao presidente recém-eleito e a necessidade de combater o crescimento eleitoral do partido ultraconservador dentro do parlamento: “Esta é a melhor vacina contra a extrema-direita”, disse.

“Será um governo progressista integrado por forças políticas que vão trabalhar para o progresso. Será um governo para quatro anos, para toda a legislatura”, completou Sánchez. Na pauta do novo governo estão questões trazidas pelo Podemos, com dez grandes linhas de atuação prioritária: entre elas o diálogo na Catalunha, a luta contra as alterações climáticas, o combate à precariedade e ao desemprego ou o alargamento dos direitos sociais.

“O acordo que apresentamos hoje não foi possível nas eleições anteriores. Temos consciência da decepção que isso gerou junto dos eleitores progressistas e dos cidadãos que queriam um Governo para superar a situação de bloqueio. Mas o projeto político que temos agora é tão entusiasmante que supera qualquer desentendimento dos últimos meses”, afirmou o socialista.

Apesar do entendimento, PSOE e Unidas Podemos não têm deputados suficientes para governar em maioria no Congresso. Os socialistas elegeram 120 deputados e a coligação de esquerda 35. Juntos têm 155 representantes e a maioria na câmara baixa das Cortes espanholas é de 176. “O acordo nasce com o propósito de se abrir a outras forças políticas, para tornar viável uma maioria parlamentar estável e sustentada”, informou Sánchez.

Para o professor de relações internacionais da Universidade Federal de Goiás, Gustavo Caetano, o momento de união entre as esquerdas serve como alerta para outros países que enfrentam o crescimento organizado da extrema-direita. “De fato é preciso que partidos com linhas ideológias se unam, porque é exatamente isso que a ultradireita tem feito neste exato momento” afirmou.