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Tolerância zero

O protesto das atrizes no Globo de Ouro e a demissão do presidente da Salesforce no Brasil evidenciam uma nova ordem: os tempos de indulgência com o machismo e o racismo acabaram

Crédito: Paul Drinkwater/NBC via AP

“Time is up”: Oprah Winfrey emocionou o mundo com seu discurso e agora é cotada para a presidência dos EUA (Crédito: Paul Drinkwater/NBC via AP)

Em 1964, ano em que o Brasil começava a sua luta contra a ditadura militar, Sidney Poitier venceu o Oscar de melhor ator por sua atuação no filme “Uma Voz nas Sombras”. Era a primeira vez que um negro recebia a maior premiação do cinema americano. “Quem subiu ao palco foi o homem mais elegante que eu havia visto”, recordou Oprah Winfrey, atriz e apresentadora mais poderosa dos Estados Unidos, em discurso de agradecimento ao prêmio Cecil B. DeMille, do Globo de Ouro, concedido a ela pelo conjunto de sua obra, na semana passada. “Eu nunca havia presenciado um homem negro sendo celebrado daquela maneira.”

Winfrey continuou dizendo que jamais foi capaz de explicar o quanto aquele momento significou para uma pequena garotinha que, sentada no chão de madeira de casa, aguardava sua mãe retornar do trabalho, “cansada até os ossos”, após passar o dia limpando a casa dos outros. “Em 1982, Sidney recebeu o Cecil B. DeMille. Para mim, não passa despercebido que, hoje, há pequenas garotinhas assistindo eu me tornar a primeira mulher negra a receber o mesmo prêmio”, afirmou Winfrey, antes de ser interrompida pelos aplausos.

O discurso foi o ápice de uma noite de protestos. Winfrey vestia preto, assim como a maioria das mulheres. Foi a forma escolhida para repudiar os casos de assédio sexual denunciados no ano passado, que envolveram figuras proeminentes de Hollywood, como o produtor Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey. A apresentadora, dona de um patrimônio estimado em US$ 2,9 bilhões, no entanto, foi além em sua fala. Ela exaltou a necessidade de liberdade de imprensa, apresentou uma perspectiva histórica da luta por direitos civis e trouxe para o centro do debate o protagonismo da mulher negra. Oprah, agora, é considerada uma forte concorrente ao cargo de presidente dos Estados Unidos.

A repercussão do protesto e do discurso provocou uma resposta da atriz francesa Catherine Deneuve. “O estupro é um crime”, disse Deneuve, em carta assinada por outras 100 personalidades francesas. “Mas o flerte insistente ou desajeitado não é um delito nem o galanteio uma agressão machista.” No texto, a atriz se posiciona contra o puritanismo. “Lá, censuram um nu de Egon Schiele num pôster; aqui, se pede a retirada de um quadro de Balthus de um museu sob a alegação de que seria uma apologia à pedofilia.” Seu argumento é de que as pessoas não são monolíticas. “Uma mulher pode, ao longo do mesmo dia, dirigir uma equipe profissional e gozar por ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma vagabunda nem uma vil cúmplice do patriarcado”, afirma.

Liberdade: a atriz Catherine Deneuve se posicionou contra o puritanismo e criticou o protesto das atrizes de Hollywood (Crédito:Divulgação)

O aparente conflito entre as posições de Winfrey e Deneuve está na dificuldade em estabelecer limites. “Eu costumo dizer que o limite está na extensão do meu braço”, diz Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta, o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina. “Se uma brincadeira ou cantada me ofende, é porque invadiu meu espaço, então deve parar.” Mas, apesar de ser um contraprotesto, o texto de Deneuve traz pontos convergentes com o discurso das feministas.

Em linhas gerais, o que as mulheres, e também os negros, reivindicam é por seu espaço. Não se trata de uma oposição ao homem ou aos brancos. “As mulheres são 52% da população no Brasil e os negros 54%. Mas onde estão?”, questiona Alexandra Loras, ex-embaixadora da França no País. A pouca representação nos espaços de poder é o problema a ser combatido. Essa situação de desequilíbrio está exposta de forma mais contundente na mulher negra. Enquanto uma profissional branca recebe o equivalente a 70% dos vencimentos de um homem branco pela mesma função, a negra ganha 40%, segundo dados da consultoria McKinsey & Company.

Os tempos, no entanto, são outros. Na medida em que a revolução digital avança, as pessoas e, consequentemente, os consumidores, se tornam mais conscientes. Um estudo realizado pela consultoria Box 1824, em parceria com a McKinsey, aponta uma característica importante da chamada Geração Z, formada pelos nascidos entre 1995 e 2010: a inclusão levada ao extremo. “Independentemente da ideologia, essa geração age pelo senso de comunidade e por interesses em comum, convivendo com diferenças antes inimagináveis”, diz a consultoria. Isso significa que a tolerância com atos de estupidez, mesmo que disfarçados de deslizes ou brincadeiras, está chegando, rapidamente, a zero. “As empresas precisam entender que o consumidor leva essas questões a sério”, diz Eduardo Tomiya, diretor-executivo na América Latina da Kantar Consulting, especializada em marcas. “É preciso praticar em casa o que se coloca como valor da marca. Ou pode ser catastrófico.”

Espaço: a ex-embaixadora Alexandra Loras (à esq.) e Adriana Barbosa, da Feira Preta, defendem o protagonismo das mulheres negras

Recentemente, algumas empresas sentiram os efeitos dessa nova ordem. Uma campanha do sabonete Dove, da Unilever, gerou repúdio ao retratar o negro como sujo – a marca, que se posiciona a favor do feminismo, alegou que foi um mal entendido, retirou a campanha do ar e pediu desculpas. A grife brasileira Reserva foi acusada de racismo ao pendurar manequins pretos de ponta cabeça em uma promoção. A varejista sueca H&M também teve de se desculpar por vestir o único menino negro de uma peça publicitário com um moletom escrito “o macaco mais legal da selva”. E, no caso mais extremo, o presidente da americana Salesforce no Brasil, Maurício Prado, foi demitido após autorizar uma festa, na qual um funcionário foi vestido de “negão do Whatsapp” – o funcionário e um diretor também foram desligados. Procuradas, Unilever, Reserva e Salesforce não se manifestaram. A H&M não possui operação no Brasil.

O caso da Salesforce talvez seja o mais emblemático. Em grande medida, os aspectos machista e racista da fantasia passaram despercebidos pela direção nacional de uma empresa moderna, que atua no setor de tecnologia e é umbilicalmente ligada à inovação. Para Alexandra Loras, é uma mostra do quanto o Brasil está longe de ser, de fato, uma democracia racial. “No ano passado, 90% dos atletas que vieram à Olimpíada eram brancos. A maior parte da produção pornográfica mundial é feita por brancos. Mas são os negros que são retratados como os bons em esportes e como donos de um sexo de um metro”, diz a ex-embaixadora. “Essa é uma forma de nos rebaixar a papeis não intelectuais e objetos sexuais, como a globeleza. Não se fala que Oscar Freire era negro, que Machado de Assis era negro, que foram negros que inventaram a geladeira (John Standard) e o celular (Henry Thomas Sampson).” O caminho ainda é longo. Mas, como disse Oprah ao final do seu discurso: time is up! Não há mais lugar para a estupidez, seja por cinismo ou ignorância.