Economia

Todos contra Trump

Em meio a uma guerra pública de acusações e polêmicas, inclusive com os times de futebol, o presidente dos EUA perde o apoio de aliados e enfrenta oposição de prefeitos e governadores

Jogo perigoso: Trump criticou protestos de jogadores de futebol contra o racismo. O dono do Washington Red Skins, Daniel Snyder (à esq.), apoiou seus atletas (Crédito:Patrick Smith (AFP) e Chip Somodevilla (AFP))

No palco da presidência americana, a expressão Você está demitido! é o sinal mais claro da confusão criada por Donald Trump desde que assumiu a Casa Branca. Ela mostra que, por trás do político, ainda há muito do showman que se notabilizou pelo bordão You are fired! na escolha dos candidatos derrotados de um reality show. Trump é um provocador, que não esconde seu gosto por criar crises do nada. O alvo mais recente é o popular futebol americano. Ao criticar protestos de jogadores contra o racismo e a violência policial, o presidente colocou o esporte no olho do furacão e gerou um racha entre atletas e fãs, adicionando uma nova linha na lista das encrencas em que já se envolveu em apenas nove meses de governo. A cada semana que passa, Trump vai se isolando ainda mais na Casa Branca.

Até mesmo apoiadores como Daniel Snyder, proprietário do Washington Red Skins, time da capital, entraram em campo para endossar seus jogadores. Snyder doou US$ 1 milhão para a campanha do republicano. No domingo 24, abraçou seus atletas, que voltaram a se ajoelhar enquanto o hino nacional tocava. Foi uma resposta ao presidente, que dias antes havia convidado os donos de times da liga nacional a demitir os jogadores responsáveis por protestos semelhantes. “Vocês não gostariam de ver os donos de times da liga americana, quando alguém desrespeitar nossa bandeira, dizer: tirem aquele filho da mãe do campo, agora! Ele está demitido, demitido”, afirmou Trump num discurso no dia 22 de setembro. O ato dos atletas representava uma manifestação contra o racismo.

Discursos inflamados tornaram-se frequentes na gestão Trump. Entre seus apoiadores, são vistos como uma manifestação espontânea de alguém que está tentando lutar contra a política tradicional. Quando se carregam de tinta, porém, viram repelente. Seus comentários após o embate entre supremacistas e membros de esquerda em Charlotsville, no Estado da Virginia, em agosto, abriram a porta das declarações públicas contra o governo. Presidentes de empresas renunciaram a seus cargos de conselheiros na administração federal e líderes religiosos próximos do presidente vieram a público com uma série de críticas.

A retórica conflituosa de Trump é conhecida no mundo dos negócios. Na Casa Branca e fora dela, há dúvidas sobre os resultados dessa prática. “Não ajuda o fato de ele adotar essa linha inflamatória”, diz o governador do Colorado, John Hickenlooper (veja entrevista ao final da reportagem). Enquanto as palavras servem mais à opinião pública, uma força mais significativa, oriunda das cidades e dos Estados, vem ocupando o posto de maior contrapeso na administração do republicano. Por todo o país, prefeitos e governadores estão buscando soluções criativas para contornar as políticas de Washington.

Cidades e Estados já processaram o governo federal em diversos tópicos. Ao menos 16 Estados entraram, por exemplo, com uma ação contra a promessa de Trump de acabar com o Daca, programa que dá visto de trabalho a jovens estrangeiros ilegais que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças. A batalha judicial inclui ações contra o muro do México, impetrada pelo governo da Califórnia, e ofensivas para frear a proibição de ingresso de estrangeiros oriundos de destinos predominantemente muçulmanos. Três municípios considerados santuários, pelas políticas favoráveis de imigração, também entraram com processos.

Pelo clima: o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg lidera o movimento de cidades e Estados americanos contra o aquecimento global (Crédito:AFP Photo/Nicholas Kamm)

Denver, capital do Colorado, é uma dessas cidades. Foi uma das primeiras a ingressar numa ação contra Trump para garantir os repasses que o governo federal ameaça interromper caso as políticas de imigração não mudem. “Estamos monitorando para ver se a administração federal não está usando esses repasses para influenciar nossas políticas”, afirma a procuradora-geral da cidade, Kristin Bronson. Segundo ela, a reação às políticas federais tem consumido a maior parte do seu tempo atualmente. “Meu trabalho mudou completamente depois da eleição.” Regras locais foram alteradas para criar graduações de penas aos crimes menores e evitar que infrações como beber na rua ou desobedecer o toque de recolher em parques públicos tornem estrangeiros legais em alvos de deportação.

Denver também proibiu que qualquer servidor municipal pergunte sobre o país de origem dos contribuintes nas repartições oficiais. Há um esforço para estabelecer uma relação de confiança com os estrangeiros e distinguir a natureza das duas esferas de Estado. Numa carta endereçada às autoridades federais de imigração situadas na cidade, o prefeito pediu para que parassem de buscar estrangeiros nos corredores das cortes municipais e tentou convencê-los a não usar uniformes policiais, para evitar a confusão com a polícia local. Nada feito. Em meio à retórica de Trump, o clima é de tensão permanente. Nove queixas de abuso foram retiradas das cortes depois das eleições por imigrantes ilegais que temem ser deportadas.

No Estado de Indiana, a cidade South Bend foi além. Criou um cartão de identificação regional como alternativa à tradicional carteira de habilitação, para garantir a prestação de serviços a imigrantes sem documento oficial. “Por todos os Estados Unidos veremos mais cidades e prefeitos colaborando para além da questão partidária e estatal”, afirma Pete Buttigrieg, prefeito de South Bend. Na sua avaliação, a tendência pode se estender para outras áreas além de imigração. “Vamos ver mais relacionamento bilateral entre as cidades porque os prefeitos nem sempre estão alinhadas com o governo federal.”

O contrapeso regional ficou evidente na questão climática. Quando Trump anunciou que abandonaria o Acordo de Paris, Estados e municípios decidiram levar adiante, por conta própria, os alvos ambientais previstos na Legislação. Coordenado pelo ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e pelo governador da Califórnia, Jerry Brown, o movimento America’s Pledge conta com mais de 200 cidades americanas e nove Estados. Somente os Estados que já instituíram uma meta representam mais da metade da população e do PIB americano, um grupo maior do que 190 dos 195 países do acordo. “É uma forma totalmente diferente para os outros países enxergarem os Estados Unidos”, afirma o diretor do Rocky Mountain Institute, Paul Bodnar, responsável pela negociação do Acordo de Paris na gestão Obama.

“Temos de reeducar os outros países sobre como a economia americana funciona.” Na visão dos especialistas, não se trata de um Estado paralelo, apenas uma corrente relevante de resistência sobre a administração federal. “Não acho que o papel das cidades mudou”, afirma Ron Nienberg, prefeito de San Antonio, no Texas. “Só foi realçado porque há uma falta de cooperação sem precedentes com o governo federal.” O presidente americano dá de ombros aos novos opositores. Na quarta-feira 27, comprou mais uma briga impopular: lançou um corte de impostos radical que beneficia empresas e pessoas mais ricas, como ele. Vai ter barulho. Do futebol aos políticos, são todos contra Trump.


“Trump usa a raiva para ganhar musculatura política”

O democrata John Hickenlooper, governador do Colorado, falou com DINHEIRO, em seu gabinete, em Denver, na segunda-feira 25. Leia a entrevista:

Cidades e Estados estão enfrentando medidas polêmicas de Trump em temas como imigração e clima. Vamos ver isso em outras áreas?
Pela estrutura federativa americana, os Estados são quase soberanos. A palavra quase é a grande questão. Em comércio, por exemplo, não conseguimos mexer, mas podemos ter influência indireta em outros temas. Eu e o governador de Ohio, John Kasich, juntamos um grupo de dez governadores para mostrar a Washington por que não é uma boa ideia passar a reforma do sistema de saúde. Temos a esperança de que, ao juntarmos ambos os lados, podemos criar um modelo diferente sobre como Washington deve funcionar.

Qual é a sua avaliação sobre Trump até agora?
Quando eu me elegi prefeito, nunca tinha estado no governo. Eu cometi muitos erros, alguns semelhantes aos de Trump. Aprendi que quando você fala uma coisa, no dia seguinte está na primeira página do jornal. Acho que ele não entendeu isso ainda. Não ajuda o fato de ele adotar essa linha inflamatória, com um estilo voltado para o conflito. Nós buscamos arrefecer os ânimos e mostrar às pessoas que não adianta ficar jogando coquetel Molotov. O Trump acredita que terá um desempenho melhor se as pessoas estiverem com raiva. Ele sente que tem uma vantagem quando estão bravos com ele e está tentando usar a raiva para ganhar musculatura política.

Como as políticas federais afetaram o Estado?
O fim do programa Daca [que autoriza jovens ilegais a trabalhar] é um bom exemplo. Temos 17 mil jovens qualificados no Estado. É uma questão de bom-senso. Esse grupo veio ao Estados Unidos ainda criança. É o único país que eles conhecem. Por que iríamos expulsá-los sem razão?

Você acredita que o Congresso vai autorizar o programa?
Sou otimista. Acredito que o Congresso agirá. Neste país, a política está se tornando excessivamente partidária e as pessoas não estão dispostas a trabalhar com quem discordam. Não é assim que democracias funcionam. Democracia é uma constante busca por consensos. A onda de ataques de ambos os lados está destruindo a imagem da política americana.