Empreendedores do Ano 2020

Tigre calibra o foco

Embalada por obras caseiras e mercado internacional, grupo espera alta de 16% na receita este ano e e prevê alta demanda com marco legal do saneamento.

Crédito: Claudio Gatti

ACERTANDO O FUTURO Otto von Sothen, presidente da Tigre, faz planos de expansão internacional e, no Brasil, mira o avanço do saneamento básico nos próximos anos. (Crédito: Claudio Gatti )

No horóscopo chinês, 2020 é considerado o Ano do Rato, associado a novas oportunidades e a bons projetos. Previsões que podem soar ilusórias – ou até mesmo contraditórias – em temporada marcada por pandemia. Para um grupo multinacional brasileiro, no entanto, 2020 poderia ser chamado de ano do Tigre. Ou melhor, da Tigre. Líder do mercado nacional de tubos e conexões, com 70% do share, a empresa mostrou as garras na quarentena e prevê crescer 16% na receita total deste ano sobre o montante registrado em 2019, de R$ 3,7 bilhões. “Vamos registrar índice de crescimento entre 10% e 20% em todos os negócios do grupo”, disse à DINHEIRO Otto von Sothen, presidente da Tigre, em referência também aos demais segmentos atendidos pela companhia.

Os bons números na temporada chegam a surpreender o executivo. Com dez fábricas no País, a companhia atestou queda de até 60% na produção ainda nas primeiras semanas de isolamento social, em março e abril, chegando a parar as operações no Brasil por 15 dias. A reação do mercado ganhou velocidade a partir de maio, puxada, principalmente, pela manutenção das atividades da construção civil e do varejo de materiais. A média mensal de consumidores saltou 25% desde maio – são, anualmente, cerca de 60 mil.

A projeção de avanço nas vendas se estende às operações internacionais. São 12 plantas em nove países da América do Sul – exceção à Venezuela – e nos Estados Unidos. A companhia estima alta de 20% no faturamento, apesar do “lockdown severo” adotadoem nações banhadas pelo oceano Pacífico, como Equador e Colômbia. “Nos Estados Unidos os nossos negócios estão dobrando.”Se, por um lado, o aumento da demanda por itens de construção foi benéfico para o setor, por outro, gerou problemas em decorrência da escassez de matérias-primas, como PVC. “Agora, está todo mundo querendo desengavetar obras ao mesmo tempo”, disse.

Sobre o preço nas gôndolas, o executivo descarta a relação entre o crescimento da demanda e o aumento do preço final dos produtos. “É preciso entender que a moeda brasileira desvalorizou mais de 40% em um ano. Repasse puro e simples do câmbio.”

Apesar do aumento previsto na receita, a diretoria optou por postergar para 2021 parte do investimento de R$ 300 milhões previsto para este ano. Além disso, a Tigre realizou a captação de recursos (o valor não foi divulgado) em instituições financeiras. A intenção foi preservar o caixa diante do cenário imprevisível da pandemia.

DEMANDA REPRIMIDA Com a pandemia, o número de pessoas querendo reformar a casa saltou. E a Tigre viu a clientela avançar cerca de 25% desde maio. (Crédito:Divulgação)

O desenvolvimento de produtos também recebeu atenção especial com o lançamento de 15 linhas. A companhia investe anualmente entre 1% e 2% da receita em inovação e a ampliação do portfólio faz parte da estratégia de crescimento para 2021.

PRIORIDADE E para crescer, um dos planos da empresa é estar no crescente mercado do saneamento básico. Com base em dados do Instituto Trata Brasil, o executivo destacou a existência de 35 milhões de brasileiros sem acesso à água potável, além de 100 milhões sem água e esgoto tratados (são cerca de 26 milhões de residências).

O sistema no País é composto, segundo Sothen, por 660 mil quilômetros de tubulação de água e por 300 mil quilômetros de esgoto, mas, para atender à “demanda gigantesca”, são necessários entre 900 mil e 1 milhão de quilômetros em cada rede. “A estimativa é que a universalização do saneamento vá requerer investimentos entre R$ 300 bilhões e R$ 400 bilhões, o que significa um crescimento potencial entre cinco e sete vezes nos próximos dez anos para o segmento de infraestrutura.”

EM ALTA E se a venda de produtos para os Estados Unidos está alta, a construção nas terras do Tio Sam acompanham. Exemplo disso revelado pelo empresário Douglas Strabelli, proprietário da Sagewood Construction. A empresa, que é especializada em reformas e construção, já atua há 22 anos nos estados de Nova York e da Flórida, e segundo o presidente a demanda de clientes em busca de casas durante a pandemia realmente apresentou um incremento forte. Em pouco mais de duas décadas, a companhia entregou mais de 300 projetos, totalizando US$ 185 milhões.

O paranaense prevê que o setor siga em alta, no mínimo, pelos próximos três anos, impulsionado pelo pacote de infra-estrutura a ser anunciado pelo presidente eleito dos Estados Unidos, o democrata Joe Biden, ao tomar posse em janeiro. Segundo Strabelli, o montante (a ser confirmado) vai fomentar a construção civil, o que pode beneficiar a Tigre, parceira da americana ADS em uma joint venture para produção de tubulações de PVC de alta densidade no país. “No estado da Flórida, o PVC é usado nas redes de águas e de esgoto. Está substituindo o ferro fundido. No estado de Nova York, a única cidade que não usa PVC é Nova York. Mas já está entrando uma legislação para mudar”, afirmou. Fato é que seja no Brasil, seja no exterior, a Tigre continua pronta para dar o bote.