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Theresa May: uma escolha equivocada para uma missão impossível

Theresa May: uma escolha equivocada para uma missão impossível

A primeira-ministra britânica Theresa May anuncia se renúncia em 24 de maio de 2019 - AFP

Theresa May, de 62 anos, que, à beira das lágrimas, anunciou nesta sexta-feira a sua renúncia, deixa o poder após fracassar em concretizar o Brexit, pelo qual não votou, mas que dominou o seu mandato.

Com a voz embargada, May informou que deixaria a liderança do Partido Conservador – e, portanto, o cargo de primeira-ministra – em 7 de junho, lamentando “profundamente” sua impotência em concluir o Brexit.

May chegou ao poder nas semanas caóticas após o referendo, cujo resultado levou à renúncia do conservador David Cameron, de quem ela foi ministra do Interior por seis anos.

Apesar de ser eurocética, ela falara a favor da permanência na UE, mas teve pouco envolvimento na campanha e insistiu na necessidade de limitar a imigração.

Apenas um ano depois de chegar a Downing Street, ela convocou eleições legislativas catastróficas para fortalecer sua posição. No entanto, acabou perdendo a maioria absoluta e dependia do apoio do pequeno partido unionista norte-irlandês DUP para poder governar.

Desde então, os ataques dos eurocéticos e pró-europeus de seu próprio partido atingiram-na várias vezes.

Diversos ministros a abandonaram, descontentes com sua ideia de negociar um relacionamento próximo com a UE, inclusive dois ministros do Brexit, Dominic Raab e David Davis, além do chefe da diplomacia Boris Johnson.

Três anos depois de chegar ao poder, quando o país já deveria estar fora da UE desde 29 de março, May fracassou uma última vez em convencer o Parlamento sobre a futura relação com o bloco europeu.

A tarefa de desfazer mais de 40 anos de casamento com a UE não era, de fato, fácil, ressalta Simon Usherwood, cientista político da Universidade de Surrey.

“Qualquer uma na sua posição teria encontrado grandes dificuldades”, acrescenta, estimando, porém, que “May não escolheu o melhor caminho” ao optar por não se apoiar em seu partido.

Para seu colega Tim Bale, professor de ciências políticas da universidade Queen Mary de Londres, ela pecou “pela recusa do realismo”, recusando uma “abordagem interpartidária”, especialmente depois de seu fracasso nas eleições gerais de 2017.

– ‘Uma mulher difícil’ –

Theresa Brasier – seu nome de solteira – nasceu em 1 de outubro de 1956 em Eastbourne, cidade costeira do sudeste do país.

Depois de estudar Geografia na Universidade de Oxford, onde conheceu seu marido, Philip, e trabalhar brevemente no Banco da Inglaterra, ela deu seus primeiros passos na política em 1986, ano em que foi eleita conselheira do distrito londrino de Merton, antes de se tornar deputada em 1997.

May se descreveu como uma mulher “difícil”, e seu atual ministro das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, alertou há alguns meses: “Não subestimem Theresa May”.

Embora seus inimigos a tenham acusado de não ser ambiciosa, todos concordaram em considerá-la incansável.

“Ela é muito diligente, trabalhadora, imersa em detalhes, é muito tecnocrata, muito dura e pode ser teimosa”, disse à AFP o ex-democrata liberal Clegg, vice-primeiro-ministro do governo de coalizão de Cameron.

“Todas essas coisas são qualidades muito boas em um político do governo”, reconheceu Clegg. Mas “nunca vi muita imaginação, flexibilidade, instinto ou visão”.

Mas, ao final, “a História não guardará uma imagem muito favorável de sua pessoa”, estima Simon Usherwood, ressaltando os “poucos resultados alcançados”.