Economia

Theresa May perde a força

A premiê britânica antecipou as eleições para mostrar poder, mas saiu enfraquecida para comandar a saída do Reino Unido da União Europeia. Conseguirá terminar o mandato?

Crédito: AFP Photo / Adrian Dennis

Nova estratégia: após perder assentos no parlamento, premiê forma governo de coalizão (Crédito: AFP Photo / Adrian Dennis)

Em uma partida de xadrez, quando um dos jogadores executa o famoso xeque-mate, ele deixa o rei encurralado e põe um ponto final à partida. Quando acontece apenas o “xeque”, porém, o rei está ameaçado, mas pode escapar. A metáfora de uma partida de xadrez pode explicar o resultado das eleições no Reino Unido, realizada na quinta-feira 08. Segura de que estava pronta para dar um “xeque-mate”, a primeira-ministra Theresa May anunciou, em abril, a antecipação das eleições gerais no país, previstas apenas para 2020.

Em menos de um ano habitando a 10 Downing Street (escritório e residência oficial de premiês britânicos), May acreditava que aumentaria a força do Partido Conservador no Parlamento, o que facilitaria a condução de seu governo e das negociações da saída do Reino Unido do bloco comum europeu. A britânica, porém, calculou errado sua jogada final. Na semana passada, o Partido Conservador perdeu a maioria da bancada, passando de 331 assentos, para 318, e colocou em jogo sua liderança no país.

DIN1022-reinounido4May, de certa forma, cometeu o mesmo erro de seu antecessor, David Cameron. Durante seu mandato, Cameron convocou o referendo do Brexit, acreditando que o mesmo não seria aprovado pela população. O resultado favorável à saída do Reino Unido da União Europeia, porém, culminou com a renúncia de Cameron em junho de 2016. Para ter governabilidade, o primeiro-ministro deve contar com ao menos 326 cadeiras no Parlamento. Nas eleições de 2015, quando o ex-premiê David Cameron foi eleito, o Partido Conservador conquistou 331 assentos, ante 232 do Partido Trabalhista, principal opositor dos conservadores (leia quadro “Aposta errada” ao final da reportagem).

Embora os trabalhistas tenham sido favoráveis ao Brexit, um dos principais argumentos para que May se convencesse de que teria maioria esmagadora nas eleições, as eleições foram para o caminho contrário. Já cientes que o Brexit é um fato, os britânicos passaram a se preocupar com questões como imigração, terrorismo e com a própria economia doméstica. E a pauta conservadora não agrada aos jovens, que são contrários a políticas mais duras contra a imigração, assim como a austeridade fiscal.

Além disso, o Reino Unido foi alvo de dois ataques terroristas reivindicados pelo Estado Islâmico, o que contribuiu para a derrocada de May, que adotou um discurso ainda mais rígido aos imigrantes. “A Europa, como um todo, tem passado por uma mudança em seu eleitorado, que não acredita mais na política”, diz Lilian de Campos Andrade, professora de economia internacional da Escola de Economia FGV. “O discurso austero e rígido da premiê afastou os eleitores jovens e hiperconectados.”

Considerado um Bernie Sanders do Reino Unido, idolatrado pelos jovens e dono de ideias progressistas, o líder do Partido Trabalhador, Jeremy Corbyn, agradou e emplacou 261 assentos no Parlamento. Diferentemente dos conservadores, os trabalhistas defendiam uma pauta mais amena, que defendia uma transição leve do Brexit, com a permanência no mercado comum europeu, assim como regras mais flexíveis de imigração e menos austeridade fiscal nas pautas sociais. Fortalecido, Corbyn pediu a saída de May.

Oposição: Jeremy Corbyn, do Partido Trabalhista, comemora resultado e pede saída de Theresa May
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“Ela queria um mandato. Bem, o que ela conseguiu foi a perda de cadeiras no Parlamento e a perda de apoio. Acredito que seja o suficiente para ela sair”, afirmou. Para remediar o problema gravíssimo que ela mesmo causou ao seu governo e ao partido, May se reuniu com a rainha Elizabeth II e pediu permissão para governar por meio de uma aliança de coalizão. A premiê, então, firmou um acordo com o Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte, que segue a mesma linha dos conservadores, e com as dez cadeiras do partido, May conseguiu retomar a governabilidade.

“Formarei um governo que será capaz de guiar os britânicos nesse período crítico para o país”, disse a primeira-ministra em discurso após se encontrar com a rainha. “Guiaremos o país nas negociações cruciais de Brexit, que começam em apenas 10 dias e cumpriremos a vontade do povo britânico retirando o Reino Unido da União Europeia.” Os desafios para a gestão de May ficaram ainda maiores. Além de tentar conduzir a saída do Reino Unido do bloco comum europeu de uma maneira mais suave, ela agora terá pela frente o desafio de resolver problemas domésticos delicados.

A economia local já apresenta sinais de deterioração. No primeiro trimestre do ano, o PIB cresceu 0,3%, ante os 0,4% do mesmo período de 2016. Segundo o Escritório Britânico de Estatísticas Nacionais, o resultado foi a maior desaceleração da economia em um ano. A derrocada do PIB britânico vem em um momento em que a inflação mais alta prejudica o consumo interno – assim como os salários reais passaram a cair. Além disso, a região é dependente de relações comerciais abertas com a UE, o que torna o país mais vulnerável ao protecionismo econômico proposto pelo Brexit.

“A agenda social e econômica para May será um desafio, pois, no médio e no longo prazos, as perspectivas para o valor da libra esterlina devem permanecer baixas, o que resultará em uma inflação crescente, enquanto os salários continuam a ser os mesmos”, diz Maurits van Rooijen, Reitor da London School of Business and Finance (LSBF). “Existe o risco do crescimento lento se transformar em recessão.” Sem apoio e diante de tantos empecilhos, resta saber se Theresa May conseguirá concluir o seu mandato.

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