Economia

Temporal de problemas

Chuvas em Minas Gerais preocupam não só moradores e autoridades como também os investidores, que temem uma quebra na produção do minério de ferro.

Crédito:  Bruno Costalonga Ferrete

GRANDES PREJUÍZOS, o Dique Lisa, da Mina Pau Branco, da mineradora Vallourec, em Nova Lima, transborda no sábado (8). E uma ambulância é engolida por uma cratera, sem feridos, na LMG-743, em Carmo do Paranaíba (foto à baixo). (Crédito: Bruno Costalonga Ferrete)

As chuvas torrenciais provocadas pelo fenômeno climático La Niña expuseram a fragilidade da infraestrutura e da proteção às cidades brasileiras, com reflexos negativos sobre a economia e sobre as empresas afetadas. Os problemas em Minas Gerais são os mais recentes e os mais perceptíveis para o mercado, mas não são os únicos. Longe disso. As chuvas deixaram 549 municípios em situação de emergência declarada, o equivalente a uma em cada dez cidades brasileiras. A maior parte fica na Bahia e em Minas, mas há casos também em outros estados do Nordeste e na região Norte.

A Bahia foi a mais atingida, com as chuvas afetando 850 mil moradores em 175 municípios, dos quais 164 estão em situação de emergência. O número de mortos chegou a 26, há dois desaparecidos e 520 feridos. Os temporais deixaram cerca de 26 mil pessoas desabrigadas (perderam suas casas) e 61 mil desalojadas (que tiveram de abandonar temporariamente suas residências). No Rio de Janeiro, cerca de 3,4 mil pessoas tiveram de abandonar suas residências. No Espírito Santo foram 1,7 mil, em sua maioria nas cidades de Colatina e Linhares. Há 1,8 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas no Tocantins, 1 mil pessoas no Pará, 842 no Maranhão e 452 no Piauí.

140 cidades mineiras enfrentam problemas e mineradoras paralisam produção

O caso de Minas Gerais se tornou mais emblemático pelo acidente com uma rocha que se soltou em Capitólio, matando dez pessoas. Ao todo, no estado, as vítimas fatais somavam 18 pessoas e cerca de 140 municípios estavam em situação de emergência. No campo da economia, o estado comandado por Romeu Zema — único governador eleito pelo Novo e que, ao contrário do restante do partido, apoia Jair Bolsonaro — viu a chuva comprometer as atividades de mineradoras como Vale e CSN Mineração, e de siderúrgicas como Usiminas e Vallourec. Todas elas tiveram suas operações prejudicadas pelos temporais.

A CSN Mineração foi uma das mais afetadas. Ela teve de suspender a produção na mina Casa de Pedra, em Congonhas. No dia 8 de janeiro, a Vallourec suspendeu as operações da Mina Pau Branco, em Nova Lima, devido ao transbordamento do Dique Lisa. Escaldada pelas tragédias de Mariana em 2015 e de Brumadinho em 2019, a Vale suspendeu parcialmente a produção dos Sistemas Sudeste e Sul e a circulação de trens na Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) para garantir a segurança dos empregados e das comunidades.

Uma ambulância é engolida por uma cratera, sem feridos, na LMG-743, em Carmo do Paranaíba. (Crédito:Divulgação)

A mineradora informou que está monitorando suas barragens 24 horas por dia em tempo real e que ainda não houve alteração do nível de emergência em nenhuma de suas estruturas. Já a Usiminas informou ter paralisado as operações de sua controlada Mineração Usiminas S.A. (Musa), em Itatiaiuçu. No entanto, a interrupção não deve afetar o fornecimento de matéria-prima, pois a Musa tem estoques para manter o fornecimento.

549 municípios brasileiros já foram prejudicados pelas chuvas que atingem o país

Todas essas paralisações chamaram atenção dos analistas. Apesar da produção de minério ser considerada sazonalmente mais fraca no primeiro semestre, em função das chuvas de verão no Brasil e dos ciclones na Austrália, há uma preocupação maior neste ano. O La Niña é responsável por invernos rigorosos e grandes secas. Seus efeitos deverão se intensificar nas próximas semanas e só vão perder força na primavera no Hemisfério Norte. Até lá haverá efeitos no regime de chuvas e na temporada de furacões. Diante disso, alguns bancos já se colocaram mais cautelosos para avaliação da commodity em 2022, citando que as interrupções de produção aliada ao aumento da demanda asiática por minério podem sustentar os preços.

ESCOAMENTO Segundo o economista Piter Carvalho, da Valor Investimentos, mesmo que a extração de minério se regularize, o escoamento da produção deverá ser afetado pelos danos provocados em rodovias e ferrovias. “Já tivemos dois grandes desastres, em Mariana e Brumadinho. E com isso tudo é preciso atenção às mais de 36 barragens que estão em nível de emergênciaº”, disse.Segundo Carvalho, Minas Gerais concentra muitas jazidas importantes, por isso os problemas devem elevar os preços internacionais. Na quarta-feira (12), o minério com 62% de teor de ferro foi cotado a US$ 129,17 a tonelada no porto chinês de Qingdao, alta de 3,2% em comparação com a segunda-feira (10). As cotações já subiram 6,97% em 2022. Tanto que, paradoxalmente, apesar dos problemas, as cotações das mineradoras na B3 subiram na quarta-feira (12).