Especial

Tempestade perfeita

Edson Fachin cancela as condenações de Lula e antecipa o começo de uma campanha eleitoral polarizada e imprevisível. A incerteza soma-se à recessão e ao descontrole da pandemia. A economia suporta mais esse tranco?

Crédito: Istock

Não tenham medo de mim.” A declaração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante um longa entrevista coletiva na quarta-feira (10) fez lembrar claramente a eleição presidencial de 2002. Naquele momento, havia muita coisa em jogo na decisão do pleito. Oito anos antes, em 1994, o Plano Real havia conseguido conter a inflação após várias tentativas frustradas. A estabilidade colocou dinheiro no bolso dos mais pobres, que sufragaram maciçamente Fernando Henrique Cardoso. Porém, em 2002, preços estáveis não bastavam. O povo queria emprego e renda. E foi com base nessa promessa e ajudado por uma improvável coalizão com o Centrão que Lula disparou nas pesquisas e despontou como o virtual presidente ainda em setembro daquele ano. O mercado financeiro entrou em pânico. Os chamados “risco-Lula” e “efeito-PT” fizeram o dólar disparar de R$ 2,60 para R$ 4,00 (ou R$ 11,60 corrigido pela inflação), o risco-país atingir o maior índice da história (2.436 pontos) e a bolsa a acumular perdas de 45,5% no ano. A tensão só se dissipou com a Carta ao Povo Brasileiro, em que o candidato se comprometia a manter a estabilidade fiscal e o respeito aos contratos.

O novo discurso com pegada Lulinha Paz & Amor se inspirou na decisão do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Com quatro anos de atraso, Fachin atendeu pleitos da defesa de Lula. Declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar quatro ações relativas ao ex-presidente, considerando que os mesmos não têm relação direta com a Petrobras, alvo da Lava Jato.

Isso anula todas as decisões de Sergio Moro nos processos, devolve a Lula seus direitos políticos e lhe permitirá disputar eleições. Na prática, se o Judiciário não mudar de ideia de novo, o principal nome do Partido dos Trabalhadores está elegível novamente. Isso torna ainda mais indefinido o cenário para 2022, ano de eleições presidenciais. Não bastassem a recessão e a pandemia, a economia e a sociedade brasileiras poderão ter pela frente uma eleição polarizada e imprevisível.

A decisão de Fachin teve o condão de colocar a campanha eleitoral em marcha. O “não tenham medo de mim” do primeiro discurso público de Lula teve tom de campanha eleitoral.

– Por que o mercado tem medo de mim? Esse mercado já conviveu com o PT oito anos comigo e mais seis com a Dilma. Qual é a lógica? Eu não entendo esse medo. Eu era chamado de conciliador quando presidia. Quantas reuniões fazia com os empresários? Dizia: ‘O que vocês querem? Então, vamos construir juntos’.

A liberação do ex-presidente encheu de otimismo os eleitores petistas e espalhou pânico no mercado. O dólar subiu 2,08% na segunda-feira (8) para R$ 5,80. O Ibovespa chegou a cair 3,98% durante o pregão, fechando a sessão com 110.611 pontos.

A liberação de Lula não foi a única causa para isso. Ao longo da semana passada, Jair Bolsonaro investiu contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) desenhada pelo Ministério da Economia para tentar conter o crescimento dos gastos públicos. Bolsonaro conversou com interlocutores na Câmara sobre retirar da proposta a obrigação do governo de rever benefícios tributários e ainda deixar os policiais, um dos pilares de sua base, fora do sistema de gatilhos que impede contratações e aumentos de salário. O presidente da República torpedeia o já combalido barco pilotado por Paulo Guedes, que tenta manter as contas públicas à tona.

Para Márcio Coimbra, coordenador do MBA em Relações Institucionais e Governamentais do Mackenzie, todos esses sinais evidenciam a verdadeira face de Bolsonaro. “O discurso real do presidente não rima com as teses de Guedes”, disse. “É um retorno a seus tempos de parlamento. Bolsonaro mostra-se um produto do falido modelo militar que arrasou a economia brasileira.”

Em evento fora da agenda oficial, Bolsonaro participou de uma cerimônia pouco após a fala de Lula. Pela primeira vez o presidente e todos os ministros que o acompanhavam usaram máscara. Horas antes, Lula havia questionado a falta de comprometimento de Bolsonaro com o controle da pandemia. Para o consultor Márcio Belluzzo, que fez parte da campanha eleitoral de Dilma Rousseff e hoje assessora DEM e MDB, a troca do tom de Bolsonaro é um recado direto, mas não virá sozinho. “Bolsonaro terá de optar entre afagar a população ou acariciar o mercado”, disse Belluzzo. O mais provável, avalia, é o presidente reforçar seu lado populista. “O preço alto do combustível e do gás de cozinha, além da inflação, fragilizam demais a imagem do presidente.”

ESTILO PATERNALISTA Para Caique Lembo, economista e doutor em gestão de orçamento público pela Universidade de Brasília, a crise econômica vai elevar a demanda por medidas menos liberais e por um estado mais paternalista. “Mesmo candidatos de centro terão de diminuir o tom liberal, pois não haverá tanto apelo a pautas da privatização e do estado mínimo”, disse. Porém, Lembo recorda que medidas desse tipo seriam ruins para a economia. “Se fizer isso, Bolsonaro rompe de vez com a parte do mercado que ainda o apoia.”

Político competente, Lula sabe que só terá sucesso opondo-se a essa narrativa. E ele também sabe que, para isso, terá de migrar para o centro e reconquistar o apoio do mercado, obtido em 2002 e desbaratado por Dilma Rousseff entre 2011 e 2016. O cientista político Gustavo Godoi afirma que ele teria de montar uma equipe fortemente liberal. “E ao mesmo tempo encontrar espaço para programas sociais, algo muito parecido com o que aconteceu em seu primeiro mandato.” Isso ficou claro na entrevista do ex-presidente. “No meu governo as decisões econômicas eram tomadas de maneira clara. Não pegávamos o mercado de surpresa”, disse Lula, que citou várias vezes o nome de Henrique Meirelles, banqueiro que presidiu o Banco Central durante seus oito anos no Palácio do Planalto. Não é surpresa que Lula já tenha começado a construir pontes em direção ao empresariado. Interlocutores do presidente, que falaram em condição de anonimato à reportagem disseram que o PT já estuda nomes para compor uma chapa com Lula. “A ideia é remontar a chapa Lula e José Alencar”, disse um petista. Entre os mais fortes nomes estaria o de Luiza Trajano, fundadora do Magazine Luiza. A empresária, porém, negou veementemente qualquer inclinação política.

LENHA NA FOGUEIRA Decisão do ministro Edson Fachin de anular processos contra Lula desconstrói o cenãrio econômico. (Crédito:Mateus Bonomi)

O petista não vai encontrar uma estrada livre à frente. Ciro Gomes, ex-ministro de Lula e candidato à presidência em 2018, garantiu que não fará parte do que chamou de “circo armado por Lula” para se promover. Para ele, a decisão do STF foi correta, mas alimenta a polarização política, que é nociva para a economia. “Esse embate retroalimentado por Lula e Bolsonaro só nos afasta mais da retomada econômica”, disse Ciro. “Temos de tratar com responsabilidade da economia e não se deixar levar por discursos populistas e eleitoreiros que os dois lados pregam.”

Também de olho na eleição de 2022, o governador de São Paulo, João Doria, do PSDB, se coloca como o arauto de um centro moderado. Com a possibilidade de retorno de Lula à corrida presidencial, os tucanos dos mais altos ninhos agitam as asas para definir o candidato até outubro deste ano. Segundo Doria, o Brasil precisa de bom senso ou não serão resolvidos os crônicos problemas que o País enfrenta.

Na avaliação da economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, o real risco será definido nos próximos meses, assim que as muitas hipóteses se tornem candidaturas concretas. “A volta do ex-presidente ao tabuleiro do jogo eleitoral vai elevar a temperatura da polarização política”, afirmou. Para ela, o mais preocupante é que a gestão do governo será mais passional do que racional, visando os dividendos em 2022. “Uma possível disputa entre Bolsonaro e Lula fará com que o governo aprofunde sua política econômica mais populista”, disse ela. Isso trará problemas reais para a economia, já que os dois nomes representam extremos populistas e ambos intervencionistas. “A agenda de ódio vai aumentar, o que eleva ainda mais as incertezas. E, para a economia, incerteza é traduzida como postergação de investimento.” Senhoras e senhores, uma tempestade perfeita se aproxima.