Economia

Tempestade fiscal

As negociações para evitar um apagão do governo e o calote da dívida colocam a administração Trump na parede e ameaçam o crescimento dos EUA

Crédito: Jim Watson

Solidariedade: o presidente Donald Trump e a primeira-dama Melania Trump se dirigem ao Texas para acompanhar a ajuda às vítimas do furacão Harvey (Crédito: Jim Watson)

Nos arredores da cidade agrícola de Tracy, no Estado de Minnesota, nos Estados Unidos, uma percepção comum entre os fazendeiros que votaram em Donald Trump resume o sentimento de decepção com os primeiros meses do presidente: “ele precisa abandonar o Twitter”. Trata-se de uma forma simples e tradicional do campo americano de insinuar que Trump deveria colocar a “mão na massa” para colher os resultados prometidos. Nas próximas semanas, a nova administração terá uma das mais importantes oportunidades para se provar, ao enfrentar uma farta lista de negociações urgentes com o Congresso.

Se as conversas forem mal conduzidas, o republicano pode entrar para a história como o primeiro presidente a ter provocado um apagão fiscal do governo tendo a maioria do seu partido tanto no Senado como na Câmara. Dois temas centrais precisam ser resolvidos até o final de setembro: a aprovação do Orçamento e o aumento do teto da dívida. O primeiro garante os recursos destinados ao funcionamento da máquina pública e evita a paralisia de uma série de serviços estatais, fenômeno conhecido como shutdown (apagão).

O segundo garante que o governo honrará o pagamento de suas contas e afasta o risco de um calote, que teria repercussão negativa na percepção da capacidade de pagamento do país, considerado um porto seguro para investidores. Pela repercussão que podem gerar em outros países, ambos são observados com atenção pelo mundo. O prazo é curto. Após o recesso de agosto, as duas casas legislativas só terão 12 dias de sessões conjuntas até a data-limite. A pauta do Congresso é extensa e inclui desde a apreciação de recursos destinados às vítimas do furacão Harley, no Texas, até a populista proposta de reforma tributária da Casa Branca, que deseja reduzir impostos às empresas de 35% para 15%.

Experiência amarga: em 2013, durante a administração Obama, o apagão fiscal fez a Bolsa cair quase 20% e o rating dos Estados Unidos ser rebaixado (Crédito:AFP Photo / Saul Loeb)

Para responder a insatisfeitos como os fazendeiros de Tracy, Trump busca maneiras de emplacar a promessa de construir um muro na fronteira com o México. Há resistência entre os parlamentares em aceitar a inclusão de US$ 1,6 bilhão para a construção da barreira. O presidente já ameaçou vetar o Orçamento caso a peça não viesse com a rubrica. Seria a primeira vez que o apagão fiscal partiria do próprio Executivo. Nos casos passados, a suspensão de recursos estava sempre ligada a pressões da oposição no Congresso.

No mais recente, em 2013, o democrata Barack Obama era o presidente e os republicanos tinham maioria na Câmara (leia mais no gráfico ao final da reportagem). Foram 16 dias de paralisação dos serviços, com quase 1 milhão de servidores federais afetados. Os prejuízos foram de US$ 24 bilhões. Em 2011, diante de um déficit orçamentário crescente, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s reduziu a nota americana de AAA para AA+, um revés sem precedentes. É difícil interpretar se Trump está blefando. Mas o risco já movimenta o mercado.

Um relatório do banco Goldman Sachs apontou 50% de chance de um apagão fiscal. Em pesquisa conduzida pelo Wall Street Journal, analistas apuraram 22% de probabilidade. “O presidente é imprevisível e diz que quer chacoalhar o sistema. Que outra forma melhor do que provocar um apagão?”, afirma Terence Langan, professor de economia da Universidade de São Thomas, em Minneapolis. “Com qualquer presidente, um eventual apagão não deveria durar muito, mas com o Trump é imprevisível.”

Destruição: furacão Harvey deixa oito mortos e 30 mil desalojados. Congresso se reunirá após o recesso de agosto para liberar recursos para as vítimas (Crédito:Erich Schlegel/Getty Images/AFP)

Mais do que os impactos práticos no funcionalismo público, a preocupação maior é com a incerteza gerada pelo episódio. Na administração Obama, a Bolsa caiu quase 20% durante o apagão. Para o Brasil, o efeito imediato se dá em variações bruscas no câmbio, o que afeta a balança comercial. Parlamentares republicanos devem pressionar o presidente para garantir o funcionamento da máquina. Com a maioria em ambas casas legislativas, a base governista seria diretamente culpada por uma eventual paralisia.

“Os republicanos não têm desculpas em ameaçar as famílias americanas com um apagão destrutivo e sem propósito”, afirma a líder da maioria na Câmara, Nancy Pelosi. Na questão do teto da dívida, deve haver resistências por parte de republicanos mais conservadores, que exigiram cortes nos gastos como contrapartida. Os impasses ameaçam minar a confiança num momento em que a economia dá sinais de reação. O PIB do segundo trimestre, divulgado na quarta-feira 30, cresceu a uma taxa de 3% ao ano, o melhor ritmo em dois anos.

O desempenho, puxado principalmente pelo consumo, representa um risco para economias emergentes em todo mundo, pois pode intensificar a política de endurecimento monetário do Fed (banco central americano) e provocar uma fuga de investidores de mercados como o Brasil. Para o presidente Trump, porém, é preciso fazer mais. “Estou entre aqueles que acreditam que podemos ir muito além de 3%”, afirmou, no mesmo dia. Talvez a resposta comece pela sua capacidade de controlar a tempestade fiscal nas negociações com o Congresso.