Economia

“Temos de nos acostumar com o ‘novo normal’ do populismo”

10 perguntas para Julien Marcilly, economista-chefe da Coface

Crédito: Luciano Finotti

Julien Marcilly, economista-chefe da Coface (Crédito: Luciano Finotti)

Presente em 100 países, a seguradora francesa Coface precisa ter uma visão abrangente do mundo para aconselhar seus clientes sobre os riscos de crédito. O economista-chefe do grupo, Julien Marcilly, é o responsável por decifrar os rumos da conjuntura global.

Houve alguma mudança no cenário global desde o início do ano?
A magnitude da desaceleração da indústria e do comércio global é mais significativa do que pensávamos. Isso foi uma surpresa. Países muito dependentes do comércio global e da indústria, como a Alemanha, vão sofrer mais.

O crescimento dos EUA mostrou uma força. A recessão está fora do radar?
Houve uma surpresa positiva. Se olharmos só o PIB ainda está bem, mas outros indicadores sugerem uma desaceleração já. Isso significa que veremos alguns números negativos nos próximos trimestres. O risco de recessão não está fora do radar. Não é o nosso cenário-base, mas é uma preocupação.

Quando olhamos o mundo, qual é mais preocupante: Europa ou EUA?
Este ciclo está muito específico. No passado, a economia americana sempre liderou o ciclo global. Desta vez, está diferente porque a desaceleração começou em outras regiões, sobretudo na Europa. No curto prazo, estamos mais preocupados com a Europa, mas seguimos monitorando os EUA.

Isso muda a visão dos bancos centrais? Quais os riscos para o Brasil?
No começo do ano, o banco central europeu mudou a direção da política monetária, o americano e o chinês também. Eles estão mais “dovish” [tolerantes]. Nesse cenário, deveria se esperar um fluxo de capital maior para os emergentes. Vimos isso acontecer, mas não como se esperaria. O dólar continua forte. Apesar da mudança, o nível de incertezas e de riscos geopolíticos continuam muito altos. Os investidores estão prendendo a respiração diante dos riscos e não estão mudando as alocações para os emergentes.

Quais riscos estão fazendo os investidores prender a respiração?
Uma hora são os riscos da Itália outra hora é uma tensão na guerra comercial. A visão mais “dovish” dos bancos centrais não tem sido suficiente para investidores mudarem as alocações e levar dinheiro aos emergentes.

Vimos recentemente EUA e China elevarem o tom na guerra comercial. Isso pode resultar em problemas mais sérios para a economia global?
Já é muito sério. Se os EUA aumentarem mais as tarifas, o que é perfeitamente possível, poderá haver um aumento da inflação e redução do PIB. Quando os EUA elevam as tarifas da China em 1% há uma redução de 0,6% nas exportações de países fornecedores dos chineses. Quando os americanos elevam tarifas contra a China afetam a Alemanha e outros asiáticos, por exemplo.

O Brasil era destaque no início da década e hoje convive com uma série de problemas. Ainda somos atrativos para investidores estrangeiros?
É um mercado muito grande, atrativo para qualquer empresa. Mas estão todos em compasso de espera pela aprovação da reforma da Previdência.

Num olhar estrutural, é possível dizer que o ciclo de avanço global acabou?
Por enquanto o cenário-base é de uma desaceleração abrangente, mas com o crescimento no terreno positivo. Se algum grande risco político se materializar, como a guerra comercial ou as tensões na Itália, pode deflagrar uma onda de vendas de ativos nos mercados globais que deteriorará o PIB. Não será uma nova versão da crise de 2008, mas pode haver uma recessão de menor magnitude, comparável ao que vivemos em 2000/2001.

Isso significa que o ciclo de crescimento acabou?
Sim, significa que o ciclo de expansão terá acabado. Não seria nenhum pesadelo porque o ciclo de expansão foi bastante longo. Nos EUA, foi o maior da história. É um processo normal. Há uma tendência em se supor que o fim do ciclo de expansão quer dizer recessão forte. Não é necessariamente o caso. Pode significar apenas uma leve recessão, com uma recuperação mais rápida. É o cenário mais provável.

Vemos uma onda de populismo se espalhar pelo mundo. O senhor vê uma relação com a economia?
O populismo é uma consequência das crises passadas. Quando há mais desigualdade, maior desemprego, há uma grande insatisfação. As pessoas passam a duvidar das instituições democráticas, acham que elas são fracas e buscam uma alternativa. É um ciclo vicioso difícil de quebrar. Muitas pessoas acham que isso é uma desordem temporária e que vai passar. Acho que vai durar. Temos de nos acostumar com esse ‘novo normal’ do populismo, com um nível maior de riscos políticos, tanto internamente como globalmente.