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Susto Brasil

Da temporada sob o capitão Jair, iniciada com o modus operandi de Sergio Moro, sairemos piores do que nunca. Técnica, ética e esteticamente.

Susto Brasil

Existe somente uma coisa mais assustadora que um grande filme de terror. Quando não é filme. O que o Congresso brasileiro montou, com anuência do Executivo, é uma máquina de morte disfarçada. E não adianta culpar o Centrão. Apenas dois partidos não deixaram as patas no Orçamento: Novo e PSOL. Só o fato de esta dupla estar unida já mostra a orgia orçamentária produzida pelo restante das legendas. Em linhas pequenas, o resumo é a legalização da pedalada fiscal que derrubou Dilma Rousseff. Numa leitura mais realista, inclui jogar no lixo qualquer resquício da Lei de Responsabilidade Fiscal. O Brasil anda tão imoral que não contente em destruir o futuro também destrói o passado. A implosão do Teto de Gastos é o menor dos crimes. No pé do documento deveria constar a acidez de Emmanuel Carrère: “Código Penal é o que impede que pobres roubem dos ricos, Código Civil é o que permite que ricos roubem dos pobres”. A sentença resume o Orçamento 2021 e seu show de horrores.

Não apenas porque passaram a tesoura em gastos realmente necessários — chame de contingenciamento, veto ou corte, no fundo é um dinheiro que não deve aparecer. Dava para fazer essa lambança sem intenções safadas? Dava. Bastava jogar tudo na coluna despesas. O rombo de R$ 286 bilhões pularia para R$ 370 bilhões. Pronto. Mas, fora dessa linha, esses R$ 100 bilhões vão virar 120, 130, 150… Tudo longe do tamanho real do déficit. O Congresso criou a máquina de imprimir dinheiro. A transformou em algo legal e a deixou nas piores mãos. Ndranghetta, a máfia calabresa, perde em engenhosidade.

Essa incontinência fiscal trará três estacas ao coração. 1) Não vai destravar o nó do número de desocupados. 2) Deve ter repique inflacionário. 3) Acentuará a necessidade de alta do juro. O que, com oferta global de crédito que não chega à parte de baixo dos empresários e da população, só vai ampliar a concentração de renda. Como a literatura econômica de ponta mostra que não há produção e consumo saudáveis em ambientes de desigualdade, a bomba está armada. E tudo vai ser pago por dois grupos de exatos 100,1 milhões de brasileiros cada. Sim, você não leu errado. A conta ficará para um total de 200,2 milhões de compatriotas. Os mais pobres pagarão antes. Os remediados, logo depois.

É a soma da Classe Média (47%) com a Classe Baixa (outros 47%) na mais recente pesquisa do Instituto Locomotiva (1). Na primeira faixa, a renda familiar média não ultrapassa R$ 7,2 mil. Na segunda, o teto é R$ 2,2 mil. O Orçamento Zumbilândia já elegeu seus sacrificados. E o problema não será apenas o Orçamento em si e sim seu recado: jogar no lixo o DNA do Plano Real, que havia nos removido do pântano da insanidade fiscal.

Depois dessa obra, esqueça o tal Custo Brasil. Será a estreia do terror Susto Brasil. Uma das cenas mais horripilantes é déjà vu. Ela mostra que 80% das famílias ficam com míseros 10,8% dos rendimentos. Se esticarmos para 90% chega a 15,6% (2). Em outro índice, o Gini, que mede a desigualdade e foi criado pelo italiano Corrado (com dois R) Gini (1884-1965), o Brasil está na 156ª posição entre 164 países (3). Atrás da gente apenas oito africanos. E como nossos roteiristas são deprimentes, aqui surge a clássica sequência em que Jason nunca morre: de acordo com o Ipea, a inflação acumulada em 12 meses até março, apesar de leve inflexão no mês, é maior para a base da pirâmide e menor para o topo. De forma decrescente (!). Doido, não? Só que não. Para os brasileiros de Renda Muito Baixa, a inflação foi de 7,24%. Para os de Renda Muito Alta ficou em 4,67% (4). Gap de 55%.

Essa numeralha toda aí acima vai matar não só os pobres e estagnar a Classe Média. Vai entubar a economia brasileira. É esse o cenário parido com o tal Orçamento. Por isso se torna obrigatório falar dele de forma vigilante. Enfrentar a maluquice. George Orwell (1903-1950) foi autor de uma frase que explica demais estes tempos: “A linguagem política é projetada para fazer com que mentiras pareçam verdades, e dar aparência de solidez ao puro vento”. Tendo como time de roteiristas os linkedins a seguir (Juiz-Que-Combina-Jogo, Presidente-Medíocre, Estrategistas-Sanitários-Militares, Liberal-de-Taubaté e Congressistas-do-Me-Dá-Um-Dinheiro-Aí), o final é mais que previsível. Estaremos técnica, ética e esteticamente destruídos. As profundezas venceram. Um Brasil Abaixo de Tudo.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.